Meus Contos

Escrevo contos e conto histórias. Vou explicar. Sou muito observadora. Desde criança observo o mundo, os animais, as pessoas. Que se transformam em historias.

Tenho prazer em contá-las.

Hoje, na terceira idade eu passei a estudar sobre a escrita criativa. Contos, romances, crônicas. Para escrever existem técnicas, regras e formas de apresentar os conteúdos, elaborar finais, decidir a linguagem dos personagens. O leitor deve ser envolvida pelo que lê.

Então eu estudo. E vou intercalando minhas histórias pessoais com contos, reflexões e crônicas.

Amo escrever!

  • Comadres

    Alguém ainda tem comadres?

    Conheceu algumas? Elas eram parte do cotidiano das famílias.

    Eram respeitadas, ouvidas, esperadas. “Vamos cortar o bolo quando a comadre chegar.” Tinha também as enxeridas, aquelas que sempre sabiam mais ou fariam melhor. Com um detalhe: entre comadres perdoa-se tudo! 

    Mas o principal atributo delas era conversar.

    Lembro-me de que, quando criança, ao final da tarde era o nosso horário de lazer, de brincar, correr… Nossas mães sentavam-se à sombra das árvores ou nas varandas para nos cuidar e ter um“dedo de prosa” com suas comadres. Esse momento do dia as fazia espairecer, esquecer as dificuldades que houvesse e, renovadas, crianças e adultos, preparavam-se para o dia seguinte. Falavam muito, é verdade, mas também escutavam. Havia tempo, havia presença.

    Tempo que já não temos. Ou nem precisamos. Crianças brincam e jogam dentro de seus quartos, umas com as outras, em jogos virtuais. Que não as atrapalhemos, elas estão “brincando”.

    Adultos? Encontram-se, com certeza, mas nos ambientes de trabalho, em restaurantes ou em compromissos sociais. Conversam, sim. Digitam, enviam, respondem. Tudo rápido, tudo imediato. A comunicação é instantânea, os assuntos são variados, as opiniões são dadas sem nenhum constrangimento. Para isso estão as redes sociais, os grupos de amigos e os da família.

    Estamos sem tempo… Falamos muito. Escutamos pouco.

    No entanto, o colóquio, a conversa, o olhar nos olhos, o cuidado ao falar, tudo isso vai ficando mais escasso. A interação deixou de ser genuína, afetuosa, despretensiosa, leve. A presença tornou-se rara, embora estejamos permanentemente conectados.

    É muito estranho isso. Comunicamo-nos veementemente pelo WhatsApp, mas não temos o que conversar se estivermos presencialmente, pois a impessoalidade e a indiferença dominam o cenário atual.

    Qual será o futuro da humanidade? Onde ficará a solidariedade, o estender a mão, os olhos nos olhos, a atenção real, o jogar conversa fora das antigas comadres?

    E o sorriso feliz da criança ao receber o presente de aniversário da madrinha, afoita para desmanchar o laço e arregalar os olhos de surpresa? Como se hoje o presente viesse por “pix”?

    Deixo aqui essa reflexão e não me estendo mais, porque a amiga está me chamando no WhatsApp.

    Maria Elza🌷

  • Estudos Sobre a Escrita

    Inicio

    Sou Maria Elza. Escritora. Auto didata. Tenho formação em Administração, Direito, Ciências Contábeis. Sobre escrever tenho amor e curiosidade. Estudei Redação e Jornalismo pela Escola do Senado. Um curso EAD que me ensinou a formular frases corretamente e ter um bom vocabulário, entre outros conteúdos.

    Mas bem antes, quando menina entrando na puberdade eu ja tinha o hábito de escrever. Escrevo então há várias décadas. Lancei 4 pequenos livros. De 80 a 150 paginas. Sem mentoria, sem professor. Apenas a minha vontade de escrever. Ou melhor, a minha necessidade! Pois necessito que a historia, o fato, a surpresa, as perguntas estejam contidas nos caracteres, na escrita.

    Aqui vamos conversar sobre escrever. Vou disponibilizar a minha maneira de escrever, de forma simples, como uma conversa entre iguais.

    Porque eu acredito que escrever é mais do que um ofício ou lazer.

    É sobre partilhar emoções!

    Maria Elza 🌷

  • Estudos sobre a escrita

    Parte I – O que sei sobre escrever

    Nao ensino regras e nem fórmulas prontas. A escrita criativa começa pelo dom. E este pode se aperfeiçoar, individualizar e ser uma marca sua

    Tive o desejo de partilhar o que aprendi escrevendo.

    Ao longo da vida, da leitura, da observação e do silêncio.

    Aqui, falo de escrita ao meu modo:

    de forma simples, coloquial, sem pretensão acadêmica e sem a rigidez dos manuais. Para isso tem os Cursos de Letras, Literatura e as formações, como mestrado e doutorado em universidades famosas. Também dou valor aos que escreveram livros e vão para o Instagram dar mentoria ou ensinar sobre a escrita criativa. Desde que me passem confiança em seus conteúdos. De todo modo eu acredito que cada escritor vai encontrar a sua forma de escrever e construir o seu próprio caminho.

    Os textos reunidos nesta seção são reflexões, anotações, pequenos ensaios e inquietações sobre o ato de escrever: o olhar, a inspiração, o famoso “branco”, o cotidiano como matéria-prima, o tempo da escrita, a revisão.

    Não são lições.

    São conversas.

    Disponibilizei este material com o intuito de que mais pessoas se aventurem na arte da escrita. Ao olharmos o mundo com mais atenção, ao confiarmos em nosso repertório ou, simplesmente, sentar e escrever, eu me sentirei feliz, pois este espaço já terá cumprido sua função.

    Escrever, afinal, não requer que sejamos experts em nenhum assunto. Não é sobre saber muito e sim sobre permanecer atento.

    🌷

    Maria Elza 🌷

    Parte I – Estudos sobre a Escrita, do site mariaelzaescreve.com.br

  • Estudos sobre a Escrita

    Parte II– Ainda sobre a arte da escrita – Escrever e Ler

    Escrever depende de Inspiração? E esta? Onde e como a buscamos? E mais do que isso, como ver com olhos de escritor, como saber se o que está oculto aos demais, pode ser algo valioso que precisa sair à luz. Como adquirir essa capacidade?

    De minha experiencia e de meus estudos eu posso assegurar: antes de tudo sendo um leitor.

    A idéia do que escrever é o que chamamos de Inspiração. E de como ela surge, ou “acontece”. Do quanto e de que variadas formas a vida nos presenteia e dá material para os nossos escritos.

    Escrever gera dúvidas. E ter sucesso com o que escrevemos mais ainda. A pergunta de quem escreve e quer ser lido, citado, convidado ou premiado está relacionado ao assunto, à linguagem, ao estilo? Como se contrói um escritor vencedor? Qual a sua trajetória na escrita? O que se torna best-seller, mesmo que seja de pouca qualidade literária e mais pela popularidade? Ou o que vende por períodos prolongados e se tornam clássicos? O mais citado pelos intelectuais? Será talvez o que ganha prêmios?

    Tudo é relativo, pois não há uma resposta fechada.

    Mas posso assegurar que o melhor escritor provavelmente é um ótimo leitor.

    Com o tempo eu aprendi que escrita e leitura andam juntas. Que amadurecemos como escritores se tivermos uma convivência próxima com a leitura.

    O vencedor é aquele que sabe o valor de ser atento, de ter curiosidade, de entender os meandros da escrita criativa, de como nasce a vontade de ler e também de escrever. E aí entenderá que elas são atividades complementares.

    A inspiração pode acender a chama, mas é a leitura constante que alimenta o fogo.

    Aquele que exercita a leitura, apreende as nuances, percebe como o autor constrói um dialogo, ou encerra um capitulo; percebe o ritmo, a coesão do texto, os respiros da escrita. Esse leitor não só degusta os conteúdos, como o faz com propriedade, por gostar de ler. Ele tem atenção ao enredo e também à construção e forma do que está escrito.

    O bom escritor não fará lista dos livros que pretende ler em determinado tempo. Ele mergulhará nos livros, e se necessário, vai anotar e reler, e deixar o texto descansar, e novamente ler com dedicação verdadeira e não por modismos.

    Essas habilidades são as duas faces da mesma moeda, que exercitadas com disposição, mesmo que em paralelo, criarão condições para que o escritor tenha o seu real desenvolvimento.

    Antes de escrever é preciso aceitar que lendo melhor, seremos melhores escritores. Esse é o processo, que antecede e abrilhanta o que buscamos.

    O sucesso, então, deixa de ser apenas reconhecimento externo, pois a escrita passa a ter clareza, consistência e identidade própria

    Assim, podemos concluir que, um escritor antes de tudo deve ser também um leitor dedicado, curioso e contumaz, condições que farão com que sua escrita se desenvolva com clareza e desenvoltura. 

    O verdadeiro ganho está no percurso dedicado e atento. E por consequência despontarão escritores de sucesso e vencedores.

    Maria Elza 🌷

    Texto II da Aba Estudos no 

    site mariaelzaescreve.com.br

  • Estudos sobre a Escrita.

    Parte VI – Como escrever Contos

    Qual é, afinal, a engrenagem para escrever um bom conto?

    O que lhe é indispensável?

    Existem espécies, classificações, escolas?

    Há técnica, método, arquitetura? Ou apenas sensibilidade?

    Essas perguntas só passaram a me visitar depois que resolvi estudar escrita criativa. Até então, eu simplesmente escrevia.

    Escrevia histórias com começo, meio e fim.

    A da galinha que punha ovos de duas cores.

    A do menino que lançou o estilingue e atingiu o pássaro em pleno voo.

    A da avó que pedia à neta que lesse outra vez, e mais outra, orgulhosa da conquista daquela leitura recém-descoberta.

    Histórias nunca me faltaram. Eu não apenas existia; eu vivia com atenção. Absorvia. Guardava.

    O repertório vinha da experiência. Como o fotógrafo que insiste em registrar aquilo que o inquieta ou deslumbra, eu narrava o que minha imaginação captava, intuía, ampliava.

    A técnica viria depois. A vida, não.

    Até que resolvi estudar. Foi revelador. Tanto que vou trazer aqui o resumo do que aprendi. E isso não esgota o assunto!

    Vamos lá

    Conto não é novela, nem romance. De maneira simplória podemos dizer que conto é um recorte onde temos: poucos personagens, subtextos, tensão e final. O ambiente e o tempo onde ocorre a historia nao devem ser mais importantes que a mesma, a tensão deve ser mantida em toda a narrativa, o conflito deve ser sentido nas entrelinhas, o clímax deve anteceder o final e este pode ser súbito, de forma aberta ou não. Como eu disse este é o resumo. Existem contos famosos e sempre citados, quer seja pelas camadas submersas, entrelinhas ou mistérios.

    Estudar a teoria me tornou mais consciente do que já fazia.

    Hoje, quando me vem uma ideia eu a recebo com entusiasmo. Mas não com sofreguidão. Antes eu a observo. E me pergunto: Qual é o conflito? Quem realmente importa aqui? O que pode ser retirado? O que precisa permanecer?

    Aprendi que escrever também é cortar. É resistir à tentação de explicar demais. É confiar que o leitor é inteligente o bastante para perceber o que está insinuado.

    Não me tornei refém da técnica, mesmo porque não há fim ou prazo para aprender. Tampouco a desprezo. Sei que a técnica é como ferramenta. Um instrumento que afia o olhar, organiza a intuição e dá consistência ao que antes era apenas impulso criativo.

    Se antes eu o fazia por uma necessidade de alma, para eternizar meus devaneios, hoje escrevo pela mesma razão; ainda pelo que vivencio mas, compreendendo o mecanismo e as técnicas da arte de escrever.

    É por isso que decidi partilhar o que sei. Não como manual fechado, mas como conversa honesta. Não como fórmula infalível, mas como caminho percorrido.

    Se você deseja escrever contos, talvez a primeira pergunta não seja “qual é a técnica?”, mas “o que, em mim, precisa ser dito?”

    O resto, a gente aprende, lapida, apaga, reescreve. Sempre e sem pressa. Deixe o texto repousar. Depois releia e você verá com outros olhos o que ainda pode melhorar.

    E solte ao mundo a sua escrita. O trajeto é consequência.

    Maria Elza🌷

    Parte – VI da Aba Estudos sobre a Escrita no site mariaelzaescreve.com.br

  • Minha fantasia de carnaval

    “Resort com all inclusive,garçons bronzeados, bíceps à mostra, tapa-olho de pirata, buffet internacional e drinks tropicais… Música dos carnavais antigos, marchinhas singelas ou picantes ressoando, sem atrapalhar a conversação… Praia de areia branca, som do vai e vem das ondas… chuveirões e piscinas de borda infinita a poucos passos… Espreguiçadeiras, guarda-sóis, serviços de massagem, banhos de imersão e tratamentos corporais… Um livro, um chapéu, óculos de sol e minhas quatro amigas da vida toda! Detalhe: tudo pago. Amo vocês.”

    Esse foi o aviso que apareceu no “záp-zap” da família. Afinal, o Carnaval é feito para brincar, sonhar, ser Cleópatra, a Rainha de Sabá, a loira da escola de samba, se é que me entendem…

    Além disso, o ano precisa começar. Já chega de réveillon. E logo vêm as contas para pagar, viver, ter, ser, morar. Ufa.

    Quero um pouco de ousadia, fantasia, alegria e folia.

    Sendo assim, vou me divertir.

    — Ah, mas isso pode ser em qualquer época do ano— dirá a “sensata?”

    — Não vai inventar moda, mamãe! — a apavorada.

    — Não vá gastar à toa! — esse é o “gestor de finanças”. Das minhas finanças…

    — Já falou com seu médico? — a hipocondríaca.

    — Mamãe, à tardinha nós vamos aí, está bem? Precisamos conversar com a senhora, sobre a sua mensagem!

    Hã? O quê?

    Ah, crianças, do que vocês estão falando?

    Mensagem? No Watts? Não, não mandei nada hoje. 

    Onde estou? Em casa, escrevendo minha crônica semanal.

    Para a revista, ora! Qual? a revista online.

    Ah, sim, o tema?

    Escolhi este: Fantasia de Carnaval.

    Beijos, também amo vocês…

    Maria Elza🌷

  • O Grande Passo

    Inscrevi-me num curso preparatório para a aposentadoria. Fui mais por curiosidade. E surpreendi-me. Durante as aulas percebi o quanto não estava pronta para sair de cena. Parar de trabalhar. Tornar-me aposentada. Nunca havia pensado no que faria com meus dias livres. Descobri ali que minha identidade era muito mais profissional do que pessoal.

    Aquilo me inquietou.

    Escrevendo, penso. Pensando, reflito. Refletindo, assimilo. E, ao assimilar, começo a enxergar as benesses e as dificuldades que a aposentadoria traz.

    Mas, para entender aquele momento, precisei voltar atrás. Em um tempo longínquo.

    O IMPULSO PARA A MUDANÇA ou A BLUSA CACHARREL

    Todos em casa trabalhavam. Meu pai, minhas irmãs, meus irmãos. Eu ficava. Cuidava das crianças e ajudava nas tarefas domésticas. A vida era escassa. Eu tinha 25 anos e via os dias passarem ocupada apenas com meus filhos.

    Minhas irmãs saíam cedo, bem arrumadas. Uma trabalhava em escritório, outra em loja, outra era costureira numa maison e entendia de moda. Havia movimento na vida delas.

    Na minha, não.

    Roupa nova não existia para mim. Eu recebia as ja usadas das minhas irmãs e as reaproveitava.

    Até que houve uma liquidação numa grande loja do centro. Pós-inverno, anos 70. As blusas cacharrel estavam no auge. Minha irmã voltou com uma sacola cheia. Oito, dez blusas, de todas as cores.

    Nós a rodeamos. Ela foi distribuindo: uma para fulana, outra para sicrana. A verde saiu. A vermelha também. Eu esperava. Talvez fosse uma clara. Talvez a amarela…

    Nada. Não ganhei nem uma.

    Disfarcei. Fui ao banheiro. Um nó subiu à garganta. Senti o rosto esquentar e as as gotas de lágrimas desceram sobre meu rosto abatido e envergonhado, num pranto contido.

    Levantei os olhos e deparei-me com o pequeno espelho pendurado na parede.

    Ali algo aconteceu. Um furor, uma coragem, uma decisão:

    “Eu não devo chorar.

    Eu tenho pernas.

    Eu tenho braços.

    Eu tenho capacidade.

    Eu posso trabalhar.

    Eu posso comprar minhas próprias roupas.

    Eu posso decidir por mim.”

    Morreu a coitada e nasceu a intrépida e decidida mulher!

    Não era sobre uma blusa. Era sobre dignidade.

    Bendita blusa cacharrel. O impulso, a força interior, o catalisador da mudança que viria a seguir.

    ALGO NOVO ESTAVA ACONTECENDO.

    Mas não como um passe de mágica. Foi com vontade férrea e esforço. Muito trabalho e dificuldade, sem a menor chance de que eu voltaria atrás.

    Em 1977 o governo federal decretara a divisão do Estado de Mato Grosso. Nasciam Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Falava-se em desenvolvimento, reorganização, progresso.

    E foi essa expectativa que me trouxe de volta à casa dos meus pais. Era o ano de 1978 quando eu mudei para Campo Grande, jovem dona de casa, quatro filhos pequenos, nascida em Bela Vista, criada em Jardim. A cidade respirava expectativa. Seria a capital do novo Estado.

    E eu também respirava mudança.

    Foi nesse contexto que comecei a me preparar. Inscrevi-me em cursos profissionalizantes do SENAC. Dez quadras a pé da casa dos meus pais até a Rua Pedro Celestino. Dez quadras que me levaram muito além do endereço.

    Vergonha por não saber usar um grampeador. Orgulho ao ver meu nome entre os primeiros das listas. O mundo das fraldas e panelas dava lugar ao mundo da ordem alfabética, arquivos e datilografia.

    Eu estava atravessando uma fronteira invisível.

    MEU SONHO ERA TRABALHAR

    As oportunidades começaram a surgir. E como eu já tinha decidido tomar as rédeas da minha vida fiquei atenta a notícias sobre empregos e contratações

    Quando anunciaram uma Seleção Simplificada de Pessoal para compor o quadro do novo governo, corri e me inscrevi.

    Eu tinha apenas o primeiro grau completo. Mas era boa em contas, percentagem, razão, proporção. Português também não me intimidava. Por isso nem de longe imaginei o que vinha pela frente.

    A seleção era da Secretaria de Segurança Pública. As vagas eram para a antiga CIRETRAN que, com a divisão do estado, passava a se chamar DETRAN. Naquele tempo ainda era um departamento da Secretaria; mais tarde se tornaria autarquia, com personalidade jurídica própria. Na ocasião, para mim, tudo isso era apenas um nome novo e uma porta que eu precisava atravessar.

    Chegou o dia do “concurso”. Lápis preto bem apontado, borracha macia, caneta azul e uma vontade enorme de ser aprovada. Eu não tinha plano B.

    E aí entra um detalhe que hoje me faz sorrir.

    Havia, perto da antiga rodoviária, uma lápide onde as pessoas iam rezar, acender velas, pedir graças. Diziam que era de uma menina assassinada ali, que se tornara uma santinha protetora dos estudantes. Não pensei duas vezes. Desci até lá e rezei com fervor. Pedi ajuda para acertar as questões.

    Eu me garantia em português e matemática. Mas, quando li as perguntas específicas, senti o chão sair um pouco debaixo dos pés. Via preferencial, velocidade permitida, infrações de trânsito. Eu sequer sonhava em tirar carteira de habilitação. Aquilo era um universo completamente novo.

    Saí da prova com a sensação de que tinha feito o que podia. E só posso dizer que, naquele dia, Santa Carminha cumpriu sua parte.

    Passei.

    Meu sonho se tornou realidade.

    Até então eu era a Elcita, a menina de uma família grande, uma entre doze irmãos. Depois do casamento, passei a ser a Elza do César. Era assim que me chamavam, e eu aceitava, porque era o costume.

    Mas, ao ser aprovada, ao assinar minha Carteira de Trabalho, ao ter meu nome em uma lista oficial, algo mudou por dentro.

    Eu passei a existir.

    Não como filha. Não como esposa. Não como mãe.

    Eu. Com nome próprio. Documento próprio. História começando a ser escrita por minhas próprias mãos.

    O PRIMEIRO DIA DE UMA NOVA VIDA

    Era março de 1979. O Correio do Estado, ou talvez o Diário da Serra, estampava a manchete sobre o primeiro concurso público do novo Estado. E lá estava meu nome. Décima nona colocada.

    Nunca mais esqueci esse número.

    A divisão do Estado certamente tem seus registros oficiais, suas análises políticas e econômicas. Para muitos, aquele momento tem outros significados. Para mim, está misturado com minha história pessoal. Quando penso na criação de Mato Grosso do Sul, sinto um gosto doce de vitória. É impossível separar as duas coisas.

    Fomos chamados antes mesmo de o órgão abrir as portas ao público. O prédio ficava na esquina da Avenida Tamandaré com a Rua Dom Pedro II. Um enorme salão ainda em obras. Divisórias sendo instaladas, parte elétrica exposta, vidros por colocar, guichês sendo montados. Tudo improvisado e ao mesmo tempo solene.

    Precisávamos deixar tudo pronto para o funcionamento do novo Departamento.

    E quando digo tudo, é tudo mesmo.

    Os prontuários dos condutores de veículos vinham de Cuiabá em caixas intermináveis de papelão. Cada uma etiquetada com o nome do município que passava a pertencer a Mato Grosso do Sul. Aqueles documentos precisavam ser organizados, separados, arquivados corretamente nos móveis que ainda estavam sendo montados.

    Não havia mesas. Não havia cadeiras.

    Um colega, mais criativo que nós, percorreu o prédio e voltou com a solução: duas pilhas de tijolos e uma tábua. Que virou mesa e banco ao mesmo tempo. Nós nos acomodávamos como dava, quase montados sobre a tábua, uma caixa à frente, outra no chão, separando documentos em ordem alfabética e por município.

    Foram dias assim.

    No fim da jornada, as costas doíam como se tivéssemos carregado o próprio prédio nas costas. Mas ninguém reclamava de verdade. Havia cansaço, sim. Havia poeira. Havia improviso. Mas havia também um entusiasmo que eu nunca tinha sentido antes.

    Nós estávamos construindo algo.

    E, no meio da monotonia dos nomes e números, surgiam pequenas surpresas.

    — Olha, é o prontuário do Glauber Rocha!

    — Será que este é do ator da Rede Globo, o Rubens Corrêa?

    — Quem achar o do Nei Matogrosso avisa!

    Ríamos. Perguntávamos se o nome artístico era aquele mesmo. Por alguns segundos, aquele trabalho repetitivo ganhava leveza.

    Ali, entre caixas de papelão, tijolos e tábuas, comecei minha vida como servidora pública do Estado de Mato Grosso do Sul. Recebi meu primeiro registro em uma Carteira de Trabalho novinha, assinada pela Secretaria de Segurança Pública.

    Pode parecer exagero, mas não é.

    Eu não estava apenas organizando prontuários. Eu estava organizando a mim mesma. Construindo, junto com aquele estado recém-nascido, uma versão nova de quem eu era.

    Trabalhei oficialmente de 16 de abril de 1979 a junho de 1982. Três anos que, vistos de fora, podem parecer apenas um começo. Para mim, foram fundação.

    Aprendi muito sobre legislação de trânsito, é verdade. Mas aprendi mais ainda sobre gente. Sobre o funcionamento do poder público, as nomeações políticas, as trocas de chefia que aconteciam quase como mudança de vento. Aprendi que o serviço público tem seus bastidores, suas hierarquias silenciosas e seus jogos nem sempre tão silenciosos assim.

    E aprendi, sobretudo, sobre mim.

    Comecei a entender que precisava continuar estudando. Que aquele primeiro emprego não seria ponto final. Ampliei minha visão. Passei a desejar outros horizontes. Muitos colegas com quem eu havia começado já tinham saído para novos trabalhos. Alguns arriscaram mais cedo. Eu observava.

    Em outubro de 1981 entendi que eu nao tinha estabilidade. O governo deixou isso bem claro através de lei.

    Nós, funcionários celetistas passamos a integrar o chamado quadro provisório do Estado. O nome já dizia tudo. Provisório.

    Aquilo trouxe um desconforto difícil de explicar. Até então, eu comemorava cada avanço. Mas ali percebi, de forma mais concreta, que não havia segurança. Que o chão podia se mover de novo. E eu sabia o que isso podia representar.

    Talvez tenha sido essa inquietação que me preparou para o que viria.

    Porque meus novos horizontes chegaram de forma inesperada, em junho de 1982. Não foi um plano elaborado. Não foi uma estratégia de longo prazo.

    Foi a vida, outra vez, me chamando.

    E ali começava o meu segundo tempo de serviço.

    TRABALHO– Parte 2

    Recomecei os estudos em 1980, no Colégio MACE. Lá eram oferecidos cursos técnicos profissionalizantes que, ao final, garantiam o segundo grau e o passaporte para a faculdade. Meu dia passou a ser de 12 a 14 horas. Trabalhar, correr para tomar coletivos. frequentar o curso noturno. Cansei? Sim, mas eu já tinha entendido que precisava ir além.

    Em janeiro de 1982 iniciei o curso superior de Administração na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Entrei feliz, mas com uma pontinha de resignação. Também havia passado em Direito, na FUCMT. Não pude ir. Não tinha como pagar. Engoli a frustração e segui.

    Nunca fui, e não sou, fanática por política partidária. Mas era impossível não perceber que os primeiros anos do novo Estado foram marcados por reacomodações de forças. Mudavam chefias, mudavam diretrizes, mudava o clima. Havia uma espécie de queda de braço silenciosa que refletia no dia a dia do trabalho.

    Em meados de 1982 houve mais uma dessas trocas. Resolvi sair de férias. Talvez desgostosa com algo ou alguém. Graças à minha excelente memória seletiva, hoje não me lembro exatamente do motivo. E ainda bem.

    Enquanto isso, os órgãos públicos se instalavam na nova capital. Concursos eram realizados: Banco do Brasil, Caixa Econômica, Tribunal de Contas, Tribunal de Justiça. Até um antigo concurso do DASP, órgão do serviço público federal, começou a convocar classificados para atuar nas delegacias federais que se fixavam em Campo Grande. Eu estava em algumas dessas listas.

    O chamado do DASP não me interessou. Pedi para ir para o fim da lista. No concurso do Tribunal de Justiça minha classificação não foi suficiente para nomeação imediata. Despedi-me de oito ou nove colegas do DETRAN que ficaram melhor pontuados e foram trabalhar no Judiciário. No Banco do Brasil, não passei. Vi outros colegas partirem, cheios de planos.

    E assim foi. Despedidas, abraços, esperanças renovadas. Eu ficava.

    O prazo do concurso do TJ/MS venceu. Como ainda havia necessidade de servidores, a Diretoria teve uma ideia: recorrer à lista dos aprovados não nomeados. A lista circulou internamente para que os próprios servidores indicassem nomes de confiança.

    E então veio o momento quase teatral.

    Meu nome recebeu oito ou nove indicações.

    Fui localizada e marquei entrevista com a Diretora-Geral do Tribunal. Ela explicou, com toda franqueza, que a contratação seria pela Lei 274, sem estabilidade, pois o concurso já não tinha validade e outro estava em andamento. Era um vínculo provisório.

    Não hesitei.

    O salário era quase o triplo do que eu ganhava. Mais do que isso, era uma oportunidade de crescimento. Agarrei-a com unhas e dentes.

    Comecei a trabalhar no Tribunal de Justiça de MS em junho de 1982 no vinculo sem estabilidade. Permaneci até dezembro de 1985. Aprovada em dois concursos! Apenas dois meses havia transcorrido e passei em meu primeiro concurso público como Auxiliar Judiciário. Continuei a estudar e desta vez a minha vaga efetiva se deu no concurso de Técnico Judiciário. Estudar e estudar era o meu lema, a minha meta, a minha paixão.

    Foi um período de aprendizado intenso. Organização rigorosa, hierarquia clara, pontualidade que não admitia desculpas. Ali amadureci profissionalmente de forma definitiva.

    E, no entanto, quando chegou a hora de sair para iniciar meu terceiro tempo de serviço, não foi uma decisão leve. Houve dúvida. Houve medo. Mas houve também aquela velha sensação que me acompanhava desde as dez quadras da Pedro Celestino: era hora de avançar.

    Esse terceiro tempo é o que me trouxe até aqui. Ao lugar onde agora me preparo para a aposentadoria.

    E veja como a vida gosta de ironias. Tudo começou com medo de parar. Hoje reflito sobre como encerrar um ciclo.

    TrabalhoParte 3

    O Estado ainda se estruturava. Concursos surgiam para as mais diversas áreas. Em 1985 foi a vez da Secretaria de Estado de Fazenda, área de Fiscalização.

    Prestei o concurso. Muito concorrido. Candidatos do Brasil todo. Passei. Tomei posse em 4 de dezembro de 1985.

    Por causa da minha formação em Administração e da experiência na área financeira e contábil no Tribunal de Justiça, fui lotada na Contabilidade Geral do Estado. Ali permaneci de 4 de dezembro de 1985 até 20 de abril de 2011, data da minha aposentadoria. Completei meu tempo de serviço aos cinquenta e oito anos.

    O que posso dizer desse tempo?

    Foi minha vida. Meu ar. Minha escola.

    Trinta e cinco anos acordando cedo, indo para o mesmo lugar, enfrentando balanços, relatórios, números que para muitos são frios, mas que para mim contavam a história de um Estado em crescimento. Aprendi disciplina, responsabilidade e a dimensão real do que significa gerir recursos públicos.

    Quando me aposentei, imaginei que seria simples, acordar e não sair correndo, tomar café tranquila e ficar de pernas para o ar. Não foi.

    TRABALHO – Parte 4

    Depois de oito meses em casa, já aposentada, eu percebi que precisava entender o que estava acontecendo dentro de mim. Meu nome, minha referência, o lugar onde eu chegava todos os dias durante décadas deixaram de existir. De repente, eu não era mais “a Maria Elza da Contabilidade Geral do Estado”.

    Era só Maria Elza. Cujos filhos já nao a necessitavam, que nao tinha intimidade com vizinhos, que sequer sabia “jogar conversa fora”.

    Ficar em casa durante a semana trouxe descobertas curiosas. Inclusive domésticas. Enquanto eu trabalhava fora, minha empregada era, na prática, a dona daquele espaço. Ela organizava, decidia, conduzia a rotina da casa. De repente, éramos duas. Duas mulheres ocupando o mesmo território em horários que antes não coincidiam.

    Uma experiência reveladora.

    Mas o mais importante foi perceber que uma nova pessoa começava a existir. Nova para mim mesma.

    E a vida, mais uma vez, me ofereceu continuidade. Após oito meses da minha aposentadoria, voltei a trabalhar, na mesma área, agora no Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul. Não por obrigação. Por escolha.

    Hoje sei que estou preparada para parar quando quiser. Sei que guardo boas lembranças da minha rotina, que fiz amigos que levarei para sempre. Sei que o trabalho foi parte essencial da minha identidade, mas não é toda ela.

    Sou Maria Elza.

    A pessoa.

    Não apenas os cargos que ocupei.

    O ESPELHO, OUTRA VEZ ME FEZ RENASCER

    Quando fiz o curso preparatório para a aposentadoria, percebi que precisava revisitar minha história. Não para reviver cargos ou datas, mas para entender quem eu era sem eles.

    Aquela jovem que chorou diante do espelho por causa de uma blusa não queria apenas uma peça de roupa. Queria autonomia.

    A mulher que organizava prontuários sobre tijolos queria pertencimento.

    A servidora que assinava balanços queria responsabilidade.

    A profissional que acordou um dia sem crachá queria identidade.

    Hoje, quando penso em parar definitivamente, não sinto o mesmo nó na garganta daquele banheiro dos anos 70. Sinto serenidade.

    Porque agora sei que trabalho nunca foi apenas salário. Foi construção.

    E sei também que, se um dia eu me olhar novamente no espelho e perceber que é hora de mudar, terei a mesma resposta:

    Eu tenho pernas.

    Eu tenho braços.

    Eu tenho capacidade.

    E continuo sendo eu.

    Se não sou mais o cargo, o que sou?

    Foi então que voltei ao gesto antigo de pensar escrevendo.

    Comecei a registrar memórias. Depois vieram as crônicas. Contos com mulheres que carregam força e fragilidade ao mesmo tempo. Reflexões sobre envelhecer com lucidez. Histórias da pandemia. Uma autobiografia. Quatro livros nasceram assim, não como tratados, mas como testemunhos.

    Criei um site. Passei a publicar meus textos. Republico artigos sobre a terceira idade. Dialogo com leitores que talvez também estejam atravessando seus próprios espelhos.

    Hoje compreendo algo que antes eu não sabia nomear.

    O trabalho construiu minha disciplina.

    Mas a escrita construiu minha permanência.

    A aposentadoria não foi um fim. Foi deslocamento.

    Já não sou apenas a Maria Elza da Contabilidade.

    Também não sou apenas a jovem que quis comprar sua própria blusa.

    Sou a mulher que escreve a sua história.

    E, se amanhã vier outra mudança, sei que terei novamente a mesma resposta silenciosa:

    Eu tenho capacidade.

    E continuo em movimento.

    Os passos ainda me conduzem aos meus sonhos.

    Maria Elza.🌷

  • Escolhas: Solidão x Solitude x Fastio

    A pouco tempo a chamada terceira idade tinha data. Aos sessenta anos nos tornávamos oficialmente idosos. Mas atualmente a sociedade nos acena com uma intensa e firme campanha a favor da fonte de juventude. E nós? Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência… Que somos ainda as mulheres multi-tarefadas, quase como se tivéssemos “superpoderes”!

    No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir.

    Ainda assim, creio que de certa forma nos tornamos mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôssemos esvaziando o estoque da nossa força emocional.

    Passamos a querer andar sempre em dupla. Reparem como muitos casais idosos realizam quase todas as atividades juntos. Ou mãe e filha, ou duas irmãs ou dois amigos inseparáveis. Essa constatação se deu tanto pela observação de outras pessoas quanto pelo que conheço de mim mesma.

    Há, no entanto, aqueles que preferem a solidão. Gostam de estar sós, apenas consigo. Desses se diz que cultivam a solitude. Ficam sós por escolha e sentem-se preenchidos de si mesmos.

    A solitude pode demonstrar força, garra e independência. Ou talvez revele pessoas que, com o avançar da idade, tornam-se mais recolhidas, avessas a situações publicas. Arredias e ermitãs, podem até se tornarem intolerantes.

    Eu mesma me percebo dividida entre esses dois tipos de idosos.

    Creio que há também aqueles que são emocionalmente frágeis, mas optam por não demonstrar essa fragilidade. Em razão disso, afastam-se da vida social. Recusam situações em que se espera afabilidade, troca, interesse pelo outro, como festas, reuniões e encontros. A tal preguiça social…

    Reflexões. Apenas reflexões. 

    Maria Elza🌷

  • A Presença

    Como assim o prêmio do concurso foi uma viagem a Gumi-si?

    Onde fica? É cidade, é país? Em que continente?

    Essas eram as perguntas que eu me fazia, repetidas vezes, enquanto também as dirigia ao agente de viagens que me contactou para dar os parabéns pelo prêmio recebido no concurso de literatura da Livraria Lello, em Portugal.

    Não acreditei de imediato. Mas era verdade. Eu estava na lista dos escritores de língua portuguesa que participaram do certame.

    Confirmado o fato, preenchidos os formulários e de posse do voucher, com todas as particularidades que compunham o prêmio, compreendi, enfim, que não se tratava de um golpe, mas de uma realidade generosa.

    Fui então estudar o meu destino. Gumi-si é uma cidade sul-coreana, localizada no continente asiático, com aproximadamente quatrocentos mil habitantes. Uau. Já gostei. A ideia de não ser uma em um milhão aguçou meu senso de pertencimento.

    Decidida, preparei minha mala. Antes, porém, consultei a meteorologia, os pratos típicos, as vestimentas, a cultura e as opções de entretenimento, ainda que tudo isso fizesse parte do próprio prêmio.

    E que prêmio!

    Ao chegar, impressionei-me com a organização, a ordem, a disciplina e a gentileza dos meus anfitriões. A partir daí, mesmo sem sorrisos largos ou palavras expansivas, senti-me acolhida.

    Encantei-me com os detalhes. Um banco bem posicionado, uma faixa de pedestres respeitada com solenidade, um silêncio coletivo que não constrange. Caminhar por Gumi-si foi perceber que o cuidado pode ser uma forma de gentileza, que a ordem não precisa ser opressão, que a disciplina também pode ser afeto.

    Vocês conhecem o meu estilo de vida. Jovem, carioca, baladeira, inserida em um grupo como o nosso: atores, escritores, modelos e todos os que circulam nesse meio.

    Foi surpreendente descobrir que eu cabia naquele mundo onde a beleza, a poesia e o encanto não dependiam de grandiloquência, onde a moderação é elegante e o silêncio não intimida.

    Gumi-si fez-me descobrir um lado meu desconhecido. A sensação de estar do jeito certo, no lugar certo, sem atrapalhar. Voltei impressionada e, de certa forma, transformada. Descobri que posso ser eu mesma e que há em mim um silêncio atento, uma presença serena que eu ainda não conhecia.

    Gumi-si foi um dos presentes mais valiosos que recebi.

    Foi ali que a minha presença desvendou a minha essência.

    Maria Elza🌷

  • Independência e Autonomia

    Independência e autonomia: se uma acaba, a outra pode continuar.

    Ninguém gosta de ser subestimado, mas, infelizmente, isso acaba acontecendo com frequência com os mais velhos. Às vezes com a melhor das intenções, os próprios filhos tentam impor limites aos pais quando estes, na verdade, ainda estão longe da necessidade de serem tutelados.Há dois conceitos em gerontologia que são da maior importância para todos que se relacionam com pessoas idosas: independência e autonomia. Independência é a capacidade de realizar atividades cotidianas sem auxílio: vestir-se, tomar banho etc. Autonomia refere-se à capacidade de gerir a própria vida e tomar decisões. Significa VIVER de acordo com seus DESEJOS e suas PRÓPRIAS REGRAS.Cognição, a capacidade mental de compreender e resolver os problemas do cotidiano, é a chave de tudo. Se uma pessoa que sofreu um AVC perdeu parte dos movimentos, pode ter sua independência comprometida parcialmente, mas isso não significa que sua autonomia deva ser cerceada.

    Mariza Tavares: blog G1, autora dos livros Menopausa e A vida depois dos 60

  • Estudos sobre a Escrita

    Parte -V- A efemeridade da crônica

    A despeito de a crônica possuir a capacidade de criar cumplicidade e, muitas vezes, empatia entre cronista e leitor, não há como negar que, nos tempos atuais, ela se dissolve rapidamente entre os inúmeros e variados assuntos que permeiam diariamente as redes sociais, a televisão e os grupos de WhatsApp.

    Esse cenário impõe um desafio ao escritor contemporâneo, algo que não se apresentava da mesma forma às gerações passadas. A tradição, a periodicidade e os veículos de comunicação impressos formavam leitores habituais e fiéis, criando um vínculo mais duradouro entre texto e público.

    Torçamos para que o brasileiro ainda encontre prazer no cotidiano e no conhecido “jogar conversa fora”, pois é justamente dessa disposição que nascem as crônicas. É na observação do trivial, no olhar atento para o comum, que esse gênero encontra sua força.

    Embora os meios de comunicação atuais tenham extrema agilidade para noticiar e disseminar fatos e opiniões, que poderia sugerir a morte ou a acentuação da efemeridade da crônica, não devemos esquecer que grandes escritores nos brindaram com essa forma literária singular, capaz de unir literatura e jornalismo com leveza e profundidade.

    A nós, escritores contemporâneos, cabe exercer com maestria e constância, o oficio de oferecer aos leitores crônicas que despertem identificação, cumplicidade e reflexão. E, quem sabe, sonhar que algumas delas também atravessem o tempo e alcancem as futuras gerações.

    Maria Elza🌷

    Parte V da Aba Estudos Sobre a Escrita do site mariaelzaescreve.com.br

  • Estudos sobre a Escrita

    Parte III – Inspiração

    Nós, escritores, vivemos de ideias. São elas que se transformam em inspiração para tudo o que escrevemos: seja um conto, um romance ou uma crônica.

    Nosso repertório é o mundo.

    O mundo geográfico e o humano.

    Da rua suja e esburacada ao cenário magnífico da cidade de Dubai; da criança inocente ao homem que espanca a própria mulher; do explícito ao oculto. Tudo nos atravessa, tudo pode virar matéria de escrita.

    Nesse contexto quero falar do famoso “branco” do qual muitos escritores, em certos períodos, sofrem ou tentam fugir.

    Uma das formas mais simples de evitar o branco é manter um caderno de anotações. Hoje, ele está ainda mais acessível: cabe no bolso, no celular, à mão em qualquer lugar.

    Viu um gatinho atravessar correndo uma rua movimentada, como se tivesse observado o trânsito, calculado a velocidade dos carros e decidido o momento exato de correr? Anote.

    Colocaram um contêiner na calçada de um terreno vazio? Anote.

    O serelepe garotinho da vizinhança veio lhe contar a proeza de que, “do nada”, subiu na bicicleta e conseguiu andar? Anote.

    “Ah, mas isso não é matéria-prima para escrever…”

    É sim. Ou melhor: pode ser.

    O repertório de leitura, de vida e, sobretudo, o olhar atento sobre o corriqueiro, o surpreendente, o cotidiano ou inusitado, são matérias primas que dão ao escritor possibilidades de mergulhar em questões profundas e complexas.

    E assim provocar aos leitores, surpresas e um novo olhar sobre o que parecia simples ou banal.

    O escritor é o ator principal da importante representação da realidade, tanto social como individual que compõe a arte chamada literatura.

    Lapidar, corrigir, rever questões semânticas e gramaticais, isso vem depois, em outra etapa da escrita. Podem inclusive ser feitos pelos parceiros dos escritores: o leitor beta, o revisor, e eventualmente o editor do texto.

    Então, escreva.

    Apenas escreva.

    Maria Elza🌷

    Parte III da aba Estudos Sobre a Escrita no site @mariaelzaescreve.com.br

  • Estudos Sobre a Escrita

    Parte IV – Crônicas e Tipos de Crônicas

    Crônicas surgem como um recorte da vida, das situações, das perplexidades.

    Sendo assim elas podem ser classificadas de acordo com o que está sendo mostrado ao leitor.

    Tipos de Cronicas: academicamente estes são os tipos de crônicas: Crônicas Narrativas, são as que narram um fato com começo, meio e fim. E assim segue as demais crônicas, com o conteúdo determinando o tipo. Teremos então as Crônicas Reflexivas, Crônicas Humorísticas, Crônicas Líricas, Crônicas Opinativas, Crônicas Sociais, bem como Crônicas do Cotidiano e Crônicas Biográficas

    Geralmente a crônica traz ironia, constatação mordaz, críticas, pois ela passeia entre jornalismo e literatura, e sempre que possível, reflexões.


    Outro ponto a ser registrado é que praticamente todos os grandes autores ja escreveram crônicas.

    Sendo assim, cai por terra, e não procede classificá-las como uma literatura “menor.”


    Exemplos desse tipo: Insonia Infeliz e Feliz, de Clarice Lispector
    No Restaurante, de Carlos Drummond de Andrade.

    Machado de Assis era um cronista contumaz, tanto que existem mais de 600 crônicas de sua autoria.

    E muitos outros autores…

    Nos jornais e revistas a página de crônicas sempre foi um grande atrativo.

    As crônicas, via de regra, são surpreendentes, pois o leitor pode encontrar uma situação já vivida ou algo em que nunca tenha pensado, embora existente. Pode mudar pontos de vista ou acrescentar conhecimentos.

    Portanto, escrever crônicas é uma arte. Escreva!

    Maria Elza🌷

    Parte IV da Aba Estudos Sobre a Escrita do site @mariaelzaescreve.com.br

  • A Crônica do Encontro

    O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…

    Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…

    Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.

    O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!

    Tivemos

    Sonhos, quimeras, desejos.

    Preguiças, perguntas, sabores.

    Alegrias, sonecas, caretas, sorrisos.

    Canecas, risadas, maletas, moquecas.

    Vontades, pinheiros, passagens, passeios.

    Saudades, verdades, bananas, pudins.

    Lasanhas, picanhas, pizzas, quindins.

    Estudos, esperanças, futuros, glórias.

    Sorrisos, banhos, vestidos e afins.

    Missas, orações, esteiras e gansos.

    Lambretas, corvetas, ovos e cuscuz

    Piadas, desafios, piscina, cafés.

    Brindes, conversas, sorvetes, mergulhos e sóis…

    Futebol, charadas, séries, piadas, engraçadas, repetidas, criadas…

    Namoros, promessas, chamegos — enfim.

    Ar, mar, brilhos, texturas, areia.

    Sabores, odores, valores.

    Graça, beleza, amor.

    Idosos, peixes, pessoas.

    Areia, azul, queijos, crustáceos.

    Jovens, pets, jogos e luzes.

    Macacos, gatos, guirlandas, enfeites.

    Imagens, saudades, lembranças, afetos.

    Amigos, irmãos, caminhos, jornadas.

    Plenitude.

    Bênçãos.

    Afeto.

    Amor.

    Salvador — Bahia

    2025 / 2026

    Maria Elza

  • Você!

    Cuide-se, Mime-se, Ame-se! Seja o amor da sua vida!

  • Cansei…

    Quero morar no mato.

    Não por muito tempo… talvez só o suficiente para que passem as especulações de final de ano.

    Quais? As econômicas, as astrológicas, as políticas, as de tendências de moda, artísticas e até mesmo as da cor para 2026. Acreditam? Essa é realmente nova para mim.

    E agora está respondida uma pergunta que me fiz “ano passado”: por que diabos esse povo está quase uniformizado de bege?

    Shoppings, restaurantes, filas de cinema, feiras, mercados…

    Eu olhava e logo lembrava dos filmes sobre safári, elefantes e afins…

    Pois bem: já estou sabendo que o ano que vem será branco.

    Será o branco dos médicos e profissionais da saúde? Dos médiuns? Das noivas? Estará por aí, em todos os lugares? Pois sim, já li ou ouvi — a cor branca será a nova tendência para o ano que vem.

    Mas, como vou estar no mato, isso não me afetará.

    O que poderia me afetar seria descuidar dos meus apetrechos!

    Mas, como a rebelde consciente que sou, estou aqui catalogando: vital, supérfluo, indiferente.

    Usei essas palavras para que eu não me amedronte.

    Eu, hein!

    Se eu fizer uma lista de alimentos, até que será fácil. Já passei da idade em que comer era mais importante que dormir. As jovens mamães que o digam!

    Continuo com minha lista mental: repelente, isqueiro, água, adesivos para a coluna, remédios para pressão alta, ansiolíticos, estabilizadores de humor…

    Revejo mentalmente meu dia a dia, só para não esquecer nada.

    Não! Não me tirem a vontade de ir para o mato!

    Não me digam que basta desligar televisão, internet e celular!

    Não, não!

    Como assim, que tudo o que eu preciso não ultrapassa as fronteiras do meu quarto?

    Ahhh, não sejam desmancha-prazeres… me deixem sonhar, ser transgressora, correr perigos.

    Já não disseram que só se vive uma vez?

    Tá bom… já sei: eu não sou todo mundo.

    Maria Elza 🌹

  • Por quê as pessoas gritam?

    Tenho pavor, trauma e medo de quem grita. O grito, para mim, é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado.

    A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo

    A opressão, a intimidação e o medo, via de regra, começam pela voz antes de chegarem ao gesto, ao domínio ou à implantação de qualquer mecanismo de dominação. 

    Mas não falo aqui de política, de poderes instituídos ou de disputas explícitas por controle. Nesse campo, afirmo de forma simples, talvez até ingênua, que para um grito de alegria existem centenas de gritos opostos. 

    Falo do que vejo. Do cotidiano. Do convívio em sociedade. Onde a conversa comum, não precisaria ser compartilhada… aos gritos.

    Outro dia, vi uma influenciadora reclamar das pessoas que falam alto em restaurantes, salões de beleza e outros espaços públicos. Argumentava que o barulho natural do ambiente poderia exigir uma voz mais elevada. Mas não a ponto de tornar impossível manter uma conversação civilizada. Os clientes precisam falar alto, o pessoal dos serviços falam mais alto ainda, se houver crianças, elas aproveitam o ambiente para se soltar e correr entre as mesas e isso acaba formando um círculo sonoro e caótico. E o que deveria ser  um encontro prazeroso, se torna desconfortável e cansativo. 

    Por sua vez, isso me chamou a atenção e percebi que existem muitas situações onde impera o que eu chamo de “grito social”. 

    A voz alta na academia, por exemplo. Para quê? Por quê? A madame puxa o ferro do lado oposto àquele em que outra pessoa se alonga e, entre um movimento e outro, gritam entre si. Logo adiante, outra dupla, talvez um trio, repete a cena com entusiasmo semelhante. Ganha quem fala mais alto! 

    Já sei que foram à Disney, qual vinho costumam beber e o que pensam do padre da paróquia. Eu queria saber? Isso me acrescenta algo? Não.

    Mas gritar parece necessário. Às vezes penso que é a solidão, ou o vazio dos dias, que pede movimento com mais urgência do que os próprios glúteos. Falar alto torna-se, então, uma forma de existir no espaço. Uma comunicação de quem precisa tanto ser visto quanto ser ouvido.

    Preocupo-me com a minha própria percepção. Tenho medo de duas coisas: precisar recorrer a abafadores de ruído ou constatar que estou me transformando naquela figura clássica da “velha rabugenta”. Ambas as hipóteses me assustam.

    Por favor, que eu não precise que gritem comigo em nenhuma delas.

    Sejam gentis. Aproximem-se. Sentem-se ao meu lado. Olhem-me nos olhos e falem bem baixinho, de forma natural, quase sussurrando: por favor, não seja implicante…”

    Maria Elza

  • A Vala

    Nota da Autora

    Este conto nasceu da confluência entre memória e imaginação. A cidade, a vala e seus habitantes não pretendem representar um lugar específico, mas um estado recorrente da experiência humana: o de crescer sentindo-se à margem, mesmo quando se está cercado de afetos e possibilidades.

    Como toda narrativa que dialoga com o vivido, há ecos de realidade, mas também desvios conscientes, próprios da ficção. O que permanece é a tentativa de observar , sem julgamento, os caminhos íntimos pelos quais se constroem desejos, frustrações e descobertas.13/12/2021

    A Vala

    Marta tinha a impressão de que a cidade era dividida. Não apenas pela geografia, mas por algo mais difuso, que se insinuava nos gestos, nos olhares e nas conversas. Às vezes esse sentimento se impunha com força; em outras, apenas se deixava perceber, como um incômodo persistente.

    Não era verdade que as pessoas permanecessem restritas a um lado só. A escola, o clube e a biblioteca ficavam à direita da vala que separava o tráfego urbano da estrada estadual, mas eram frequentados por jovens e adultos de toda a cidade. O mesmo acontecia com a feira livre, o hospital municipal, as lojas de ferragens e os armazéns à esquerda da vala. Também ali circulavam os carros novos dos rapazes mimados, indiferentes à divisão que, oficialmente, não existia.

    Ainda assim, Marta sentia. Morava no lado considerado menos nobre, o lado pobre, e isso a acompanhava como um peso íntimo. Ao contrário do restante da família, não encontrava conforto no fato de viverem em casa própria. Dividia o espaço com muitos irmãos, o afeto dos pais e uma mesa que nem sempre era farta. O trabalho simples do pai, a ausência de automóvel, a inexistência de uma empregada doméstica, o café da manhã modesto. Tudo isso lhe parecia excessivamente visível.

    Quando saíam juntos para a igreja ou para o clube nas tardes de domingo, Marta sempre encontrava um modo de sair depois, como se não pertencesse inteiramente àquele grupo. Se uma colega da rua ganhava um vestido novo, ela pedia a peça emprestada com a desculpa de mostrar o modelo à mãe e, antes mesmo que a dona a usasse, atravessava a cidade para se exibir entre as garotas do outro lado da vala. Fazia isso às escondidas das próprias amigas. Pequenas conquistas alheias, uma tiara nova, um caderno carregado por um menino, uma televisão recém-comprada… despertavam nela uma irritação silenciosa, que às vezes se transformava em comentários ásperos.

    Nem por isso Marta era incapaz de alegria. Mas sua alegria era solitária. Nos livros da biblioteca da escola, encontrava outros mundos. Sentada no sofá de casa, lia romances e contos com atenção profunda; às vezes, o rosto se iluminava por um instante, como se participasse de um amor improvável entre heróis e mocinhas de vidas distantes da sua. Falava de praias de areia branca, de mansões à beira-mar, de jovens ao sol vivendo existências que só conhecia pelas páginas que virava.

    A realidade, no entanto, se impunha. O fim dos estudos se aproximava, e com ele as perguntas sem resposta. O ano avançava, trazendo consigo ensaios, jantares, aulas da saudade, bailes de formatura. A cidade se movimentava: costureiras, bordadeiras e boleiras tinham trabalho dobrado.

    Marta participaria como convidada. Mas como? Com que roupa? Em qual evento? Não admitia repetir vestido. Passava horas folheando revistas, comparando-se às colegas, recusando as tentativas da mãe, que sugeria reformar um vestido antigo ou comprar um tecido simples, de bom gosto. Nada parecia suficiente.

    O pai observava em silêncio. Comia, levantava-se e ia ao alpendre tomar a fresca antes de retornar ao trabalho. Pensava, sem saber como alcançar a filha, que parecia medir a vida por parâmetros que ele não dominava.

    Os dias passaram. Marta calou-se. Não lia, conversava pouco, via os dias como iguais e sem cor. O pai, inquieto, foi ao armarinho em busca de algum agrado — um enfeite, um brinco, um laço. Não encontrou nada que lhe parecesse adequado. Acabou escolhendo um livro. Era a única certeza que tinha.

    Chegou o dia do baile. Os jovens iam de casa em casa, trocavam abraços, esqueciam de que lado da cidade moravam. Falavam do futuro: alguns seguiriam para a capital, outros para cidades maiores, sonhando com cursos disputados e vidas que os levariam para longe dali.

    Foi numa dessas conversas que Marta ouviu a novidade: a criação do curso de Letras numa cidade vizinha, com transporte garantido pela prefeitura. Sentiu algo diferente! Uma ansiedade boa, um brilho súbito…

    Contou ao pai ao chegar em casa.

    Na noite da formatura, o salão estava cheio. A mestre de cerimônias abriu o evento e chamou ao palco a professora de Literatura. Houve aplausos, risos, silêncio atento. A professora falou sobre ciclos, sobre a força da educação, sobre o que se constrói quando se aprende a nomear o mundo.

    Ao final, anunciou:

    — Para encerrar, convidamos a aluna Marta Vasconcelos para declamar um trecho de Os Lusíadas.

    Por um instante, o salão silenciou. Em seguida, as palmas cresceram, firmes.

    No fundo do salão, junto a uma pilastra, o pai de Marta permaneceu imóvel. Apertava o livro que havia lhe dado dias antes. Uma lágrima escorreu sem pressa, enquanto o nome da filha ecoava entre vozes, luzes e passos de dança.

    Maria Elza

    .

  • Quantos Anos Tenho?

    Por José Saramago

    Tenho os anos em que os sonhos começam trocar carinhos com os dedos e as ilusões se transformam em esperança.

    Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama louca, ansiosa para se consumir no fogo de uma paixão desejada. E em outras, uma corrente de paz, como um entardecer na praia.

    Quantos anos eu tenho? Não preciso de números para marcar, pois meus anseios alcançados, as lágrimas que derramei pelo caminho, ao ver meus sonhos destruídos…
    Valem muito mais que isso.

     Não importa se faço vinte, quarenta ou sessenta!
    O que importa é a idade que eu sinto.

    Tenho os anos de que preciso para viver livre e sem medos. 
    Para seguir sem medo pelo caminho, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.

    Quantos anos tenho?  Isso não importa a ninguém!
    Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e sinto.

  • Porto Seguro

    Porto Seguro dezembro 1998

    Uma viagem…um estado de espírito…o fim de uma história

    Jovem? Maduro? Idoso? Homem? Mulher? Rico? Pobre? Sem distinção, nem medos ou dúvidas, eu te digo:

    Vá a Porto Seguro!

    Sente que não viveu ainda a sua juventude? Pensa que está amadurecendo rápido demais?

    Vá a Porto Seguro!

    Quer esquecer seus problemas, amores mal sucedidos, promessas vãs, metas não alcançadas?

    Vá a Porto Seguro!

    Ao chegar ao aeroporto sente-se o clima e tem-se a certeza que lá é um lugar para gastar e ou recuperar sua energia! 

    Lá onde no cume de uma colina, um monumento celebra a chegada de um explorador português, que ali fundou a cidade de Porto Seguro no século XVI.

    Vá às igrejas e conheça as histórias da chegada dos colonizadores gravadas em azulejos portugueses, desde a 1ª missa no Brasil até a povoação do lugar. 

    Encante-se com as praias maravilhosas e não se acanhe se sentir vontade de tomar banho de mar, como uma índia: nua, sem pudores, nem pecados!

    Porto Seguro, um lugar inesquecível! 

    Maria Elza

  • Um ouvido novo para uma história velha…

    Que atire a primeira pedra quem não passou por isso!

    Todos nós conhecemos alguém que adora quando perguntam: e aí, tudo bem?

    Pronto, lá vem a amiga ou amigo traída(o) contar detalhes: como passou a desconfiar, quais sinais ela não percebeu, o quanto acreditou no traste, como foi a certeza, a decisão, o que sofreu, a separação, o pós, o agora. Dependendo do ambiente, terá lágrimas, e você perdeu a sua ida despretensiosa à cafeteria, ou ao salão, ou a tarde que pretendia ser apenas um encontro bacana. 

    Você acabou de passar por uma das experiências muito comuns em determinadas pessoas: o prazer em contar as mazelas porque passaram ou estão passando!

    Ah, tem também a que adora contar as minúcias da receita fantástica do bolo, que você nunca pretendeu fazer! 

    E pode ser pior! Sem combinar encontro, nada, eis que você acabou de ver a sua amiga ou colega hipocondríaca e pensa: Ah não, justo hoje, que tirei o dia para espairecer! 

    Dessa não há expectativa. É certeza que a pessoa está à beira da morte! 

    Sao tantos males, indisposições, exames de laboratório, nomes de médicos e remédios, que é como se você estivesse com um prontuário em mãos!

    E nem queira sugerir ou aconselhar nada: terapia, outro médico, mudança de perspectiva, positividade então, nem pensar! Pois se é a doença verdadeira ou cultivada que a coloca em foco! 

    Fique ali, presente, gentil, apenas ouvindo, pois naquele momento, o palco não é seu.

    Mas uma coisa é certa: Vocês acabaram de ganhar o selo de serem: “um ouvido novo para uma história velha!

    Agora é a sua vez: vai contar essa saga pra quem? Rsrs…

    Maria Elza

  • Desejos

    (Carlos Drummond de Andrade)

    “Para você, desejo o sonho realizado.

    O amor esperado.

    A esperança renovada.

    Para você, desejo todas as cores desta vida.

    Todas as alegrias que puder sorrir.

    Todas as músicas que puder emocionar.

    Desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida.

    Gostaria de lhe desejar tantas coisas, mas nada seria suficiente…

    Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.

    Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, ao rumo da sua felicidade.”

  • O Que Perdemos Com o Wi-fi

    A tecnologia nos trouxe muitas coisas. Mas o que ela levou embora? Creio que a pergunta poderia ser: as crianças ainda brincam? Acredito que brincam bem menos do que eu, meus irmãos e amigos! Os tempos mudaram.

    Ninguém mais fica na rua, na frente de casa. As famílias não têm tantos filhos. E com isso perdeu-se também o maravilhoso programa de irmos à casa da vó, onde os primos se encontravam e saíam esbaforidos para aproveitar o tempo e brincar.

    Passar anel, esconde-esconde, amarelinha, rolimã, pique, queimada, cabra-cega, “adivinha o que é?”, pular corda, cabo de guerra, telefone sem fio, cantiga de roda…

    Essas eram as brincadeiras antigas, normais e lícitas. Existiam também as perigosas: subir em árvores, descer de rolimã, guerra de sementes de mamona, roubar frutas nos quintais alheios, soltar espoletas…

    Quanta coisa existia em nosso mundo infantil! E os insetos? Será que as crianças conhecem os louva-a-deus, cigarras, esperanças, joaninhas, vaga-lumes?

    Os perigos eram conhecidos: não andar descalço para não entrar espinho no pé ou pisar em cacos de vidro; não subir no telhado para pegar a rabiola da pandorga; não sair sem avisar a mãe…

    A tecnologia mudou a vida dos adultos e a das crianças também.  Estimulou o aprendizado, os jogos lúdicos aumentaram a atenção e o foco, desenhos e filmes facilitaram o interesse por outros idiomas. Quem já não ouviu delas : Tem Wi-Fi?

    Em todos os tempos existirão brincadeiras inocentes e perigosas. Algumas desconhecidas… Na sala de casa, um celular e um frasco de desodorante podem ser fatais.

    Crianças são crianças.

    Maria Elza

  • Memórias quentinhas.
    Ai que friooo…

    Mãos enregeladas, dedinhos roxos de frio, boca seca e gretada, olhos lacrimejando… Que frio!

    O assovio do vento, misturado ao fungar dos narizes, soma-se ao barulho das vozes tagarelas dos valentes meninos e meninas que dobram a esquina correndo, apressados para terminar o percurso ao avistar a grande escola. Entram aos atropelos!

    No inverno, a fila do pátio é dispensada. Cada um segue direto para sua sala e acomoda-se em seu lugar. Acalmado o burburinho, abrem-se os livros. Começa a aula e o tempo passa rápido, principalmente para os que venceram o caminho a pé, pois chegaram na energia do percurso.

    Esses são a maioria. Mas há também os que chegam de carro, vestidos com casacos de náilon, toucas grossas e luvas coloridas. A escola é pública, mas tem prestígio. Imagine só: há alunos que sequer precisam fazer o ano extra preparatório para a admissão ao curso ginasial!

    Nós pertencemos à classe baixa. Nossos casacos são de flanela; a mãe improvisa lenços na cabeça, ergue a gola das camisas e faz o melhor que pode dentro dos seus parcos recursos.

    Mas o melhor mesmo é a hora do recreio! Seguimos em fila, da sala até o refeitório, onde a dona Ana já nos espera com os caldeirões fumegantes. É o lanche dos menos “favorecidos, os pobres mesmo. Leite em pó, bolachas, mingau de fubá de milho.

    No recinto, noto a pilha de produtos, todos com o emblema do governo e de uma tal “LBV”. Curiosa, leio e descubro que as letras significam Legião da Boa Vontade. Sei lá o que é isso… A fila do lanche anda rápido. Recebeu seu quinhão? Pode sair para o corredor, onde bate o sol.

    Isso tudo é passado. Mas que passado glorioso! Éramos muitos irmãos. Sabe o que isso significa? Nós, treze meninos e meninas, mais os primos, os vizinhos, os afilhados, todos indo à escola, por direcionamento dos pais, sem nenhum incentivo de bolsa isso ou aquilo, sendo  alfabetizados, cumpridores de horários, respeitosos com professores e funcionários, tendo o estudo como a principal herança que nos prepararia para a vida! Havia dificuldades, com toda certeza, mas eu sempre escolhi e escolho ver o lado bom da vida! 

    Mas isso foi outro século. Outro tempo.

    Hoje, os meninos vestem moletons de marca, aquecem-se com casacos térmicos, têm lancheiras recheadas e celulares caríssimos. Chegam de carro, ouvem música nos fones e fazem selfies antes de entrar na escola. Nada contra! São as conquistas e o conforto que os pais podem proporcionar.

    Mas, às vezes, fico pensando: o que andamos perdendo no caminho?

    Não sentir frio nos pés, não pode também tirar o calor do peito. É preciso que ensinemos o olhar curioso para o mundo, o prazer de um mingau fumegante, o respeito por quem ensina e o orgulho de fazer parte da fila dos esforçados. Os valores parecem fora de moda, como se fossem coisa de outro tempo. Mas eu sei,  e você também deve saber, que foi neles que nos formamos: no respeito, na gratidão, na partilha.

    Hoje, parece que as selfies valem mais do que o ato, o fato. 

    As conversas, as brincadeiras, as interações tanto entre si mesmas, como com a família deixaram de fazer parta da rotina. O automático virou trivial. As memórias afetivas foram substituídas por sensações virtuais

    E talvez seja por isso que o inverno me leva de volta, lá onde o frio nos fazia mais humanos e a simplicidade era uma grande riqueza. 

    E aí? M’bora lá fazer um chocolate quente para a família? 

    Maria Elza

  • Namoro Fake

    Foi amor à primeira vista!

    Mas aqui já cabe uma dúvida: tem como não ser assim? Pensei, repensei, e concluí que talvez o amor, esse danado, só se instale quando é fulminante. Ou, pelo menos, quando nos parece inevitável.

    Amor precisa de sujeito. Ele pode ser físico, abstrato, indeterminado, oculto.

    Pode ser real ou inventado. Mas o outro, o par romântico, existe. Mesmo que só na nossa cabeça. E, quando você se percebe amando, naquele marco zero do sentimento, ele já foi “visto”: em sonhos, expectativas, afinidades. Às vezes, até em espantos. O amor sabe se disfarçar… Pode parecer inveja, antipatia, pode nascer de um súbito calafrio, intuição ou premonição talvez?

    Tem mil artimanhas, esse sentimento que nos atravessa sem pedir licença.

    A letra da canção garante: “toda forma de amor vale a pena”.

    Mas será? A literatura está cheia de amores impossíveis. A vida real, cheia de histórias que começaram com promessas e terminaram em silêncio, dor ou tragédia.

    Quantos desamores estampam hoje as páginas policiais? Feminicídios, suicídios, acidentes provocados por ciúmes, por brigas que se travestiram de paixão.

    Chega.

    Hoje é Dia dos Namorados. Um dia para celebrar o amor; o bom amor. Aquele que respeita, que soma, que escuta, que cuida!

    Celebre, presenteie, ame. Agradeça por amar e ser amado. E, se for o caso, se ainda estiver só, agradeça também o tempo de espera: ele costuma preparar o terreno para o que vem com calma.

    E acredite: entre tantos amores fake, ainda há espaço para aquele amor sereno e verdadeiro, que sabe florescer mesmo depois das tempestades.

    Com amor…

    Maria Elza

  • Realidade Adversa
    Crônica de Maria Elza- ilustração ChatGpt

    “Da minha infância querida, que os anos não trazem mais…”

    Sem pressa, sem ódios, sem amor. Como trilha sonora, busco deliberadamente os sons que embalaram as minhas inquietações juvenis.

    “Maringá, Maringá, depois que tu partistes, tudo aqui ficou tão triste que eu garrei a imaginá…”

    “Vento que balança as “paias”dos coqueiros, vento que encrespa as ondas do mar…”

    Aqui, sentada na varanda, minha gata Felícia aos meus pés, o sol de setembro ainda ameno e o trinar dos passarinhos me zoando aos ouvidos, eu penso.

    Não, não é fuga. Não é alienação. E nem poderia ser.

    Tantas coisas acontecendo no mundo… de santos a demônios, de guerras em palavras, em intenções e em atos…

    De surpresas à “favas contadas…”

    De descaso em vida à homenagens póstumas…

    Como abstrair? Como brincar de faz de conta?

    A dicotomia permeia tudo: céus e terra, humanos e não humanos.

    Os bruxos estão soltos…

    Ou talvez sempre tenham estado.

    No ar, nas ideias, nas esquinas e nos templos. E se disseminam nas ondas invisíveis que o homem, esse ser maravilhoso, “à imagem e semelhança de Deus”, colocou à nossa disposição.

    De ondas eu entendo, pois foi nelas que me refugiei desde a idade em que meus pensamentos se tornaram perguntas e porquês.

    E sigo aqui, entre ondas…

    As que me acalentam e as que me desafiam. Ondas de mar, de rádio, de pensamentos… sempre elas a me lembrar que a vida não cabe em extremos, mas se move no vai e vem do tempo.

    E, nesse movimento aonde me encontro, entre idas e vindas, sigo buscando abrigo…

    Pois mesmo que eu veja, ou só mesmo perceba do meu ponto de vista, a realidade adversa por onde a humanidade caminha…sigo atenta e curiosa, pois já concluí que são as perguntas e não as respostas que fazem com que eu cumpra o meu papel no mundo.

    Maria Elza

  • O Café Esfriou

    Sabe aquela música brasileira “Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí”, de Assis Valente? Fez sucesso com Carmem Miranda e depois com tantos outros. Se você a conhece, talvez imagine logo um tipo malandro, cheio de lábia e charme.

    Mas não era esse o homem que chegou. Douglas tinha boa aparência, vestia-se bem, demonstrava cultura, falava com propriedade sobre política e atualidades. E sim, estava com uma camisa listrada quando Diana o viu pela primeira vez. Mas num contexto elegante, absolutamente distinto da imagem do conquistador barato.

    Ele era alto. Diana precisou levantar o rosto para encará-lo. Algo no olhar dele, ela não saberia dizer o quê, fez com que pensasse: “Ainda bem que estou bem…”

    Estavam em uma apresentação formal. Douglas fora transferido de outra filial e estava sendo integrado à equipe sob liderança de Diana. O chefe os apresentou. Ele, com um olhar ligeiramente esquivo; ela, tentando manter a compostura.

    Mas algo a deixava desconfortável. Havia um constrangimento tênue no ar, e Diana, embora casada, sentia-se desequilibrada por aquela forte presença masculina. Ele parecia discreto, mantinha distância e não dava motivos para desconfiança.

    Mas ela, sem saber porque, não assumia o comando, quase não lhe dirigia o olhar e evitava até as cobranças comuns de uma chefia.

    Não exigia metas, horários, e fingiu não perceber a displicência inicial de Douglas em aprender o funcionamento da área.

    E então veio aquela sexta-feira.

    Douglas, ao contrário do habitual, não saiu mais cedo. Ficaram apenas os dois no recinto. Não há como descrever em palavras o que pairava no ambiente: um tipo de eletricidade densa e inevitável.

    Ele se aproximou de Diana e sem titubear, a tomou nos braços e a beijou. Ela correspondeu totalmente! Um beijo desejado por ambos, sem dúvida. E foi como nos romances que ela costumava ler: sentiu-se flutuar, o corpo tomado por borboletas em alvoroço. Quando ele a soltou, um suspiro mútuo selou o momento.

    Douglas a olhou firme e disse:

    — Você deveria se chamar Diana dos Santos Souza.

    Souza era o sobrenome dele. E então saiu. Ela não disse nada. Sentou-se. Trêmula.

    Na segunda-feira, Diana recebeu um memorando: Douglas pedira transferência de setor. Desapareceu. Simplesmente. Foi para outra cidade, em outro estado.

    Trinta anos se passaram.

    Sem convívio, sem amizade, apenas acenos sociais pontuais, sem profundidade. Tentativas de cordialidade, mas nenhuma aproximação sincera. No entanto, os sonhos persistiam. Diana não conseguia explicar, mas a lembrança daquele beijo retornava em noites insones, misturada à pergunta que nunca cessava: “Por quê?”

    Dizem que onde nasce um grande amor, não nasce uma amizade. Ou talvez isso seja só letra de música — ela mesma já não sabia mais.

    Agora, com 56 anos, Diana atende ao telefone:

    — Oi, tudo bem? É o Douglas.

    Ela mal acredita. Trocam frases desconexas, até que ele propõe:

    — Aceita um café?

    Conta que está desmontando a casa, desapegando de livros, CDs, DVDs, e que resolveu oferecer esses itens a amigos, a preços simbólicos.

    — Quer vir dar uma olhada e aí a gente toma um café, pode ser?

    Diana aceita. Diz que “vão marcar”. Mas não conta que está em outra cidade, só voltaria ao final do ano.

    Douglas passa a enviar mensagens esporádicas pelas redes sociais. Fala do brechó de desapego. Reforça o convite para o café. Faz rodar a colher que adoçaria o café…

    Diana, cautelosa, dizia a si mesma que não se arriscaria. Já conhecia bem a dor da desilusão. Mas o coração, todos sabem, nem sempre escuta a razão. Bastava ver o nome de Douglas num recado para que os batimentos se acelerassem.

    Ela tentava entender: por que ele sumira? Estaria protegendo a si mesmo ou a ela? Será que aquele beijo fora só uma prova? Uma prova perdida?

    Mesmo que a distância entre eles fosse geográfica e emocional, os contatos continuavam, ainda que espaçados. Um dia, Diana se permitiu brincar:

    — Já estou como a raposa do Pequeno Príncipe, esperando esse café.

    E murmurou baixinho:

    “Se você chegar às quatro, às três começarei a ser feliz.”

    Ela se deixaria enredar novamente?

    Douglas não corrigia, não afastava, não esclarecia intenções. E isso dizia muito.

    Por fim, chegou o dia do café.

    De dentro da cafeteria, Diana o vê chegar: alto, cabelos grisalhos, moletom, tênis, um leve mancar. O coração dela dispara. Respira fundo. Yoga, terapia, amadurecimento. Essa era a hora de colocar tudo em prática.

    Douglas fala bastante. Conta sobre sua vida, seus planos, seu passado. Diana ouve com atenção, intervém pouco. Vai sorvendo o café e tentando enxergar, naquele homem idoso, o jovem de outros tempos. Mas sente o cheiro de remédio. E a ausência.

    Ele parecia querer se convencer da própria história. Despejava memórias como quem se esvazia. E ela se mantinha serena, protegida por suas muralhas.

    Quando ele enfim pergunta sobre sua vida, Diana responde que comprou outra casa, mora sozinha, é vizinha da filha, ainda trabalha, está bem.

    — Você acha que essa é sua moradia definitiva? ele pergunta.

    Sem refletir, ela responde que não. Nem sabia de onde viera aquela certeza. Como um pedido atrasado? Um desejo insensato? Ou um fiapo de curiosidade?

    No mesmo instante, ela percebe que está entrando em areia movediça e instintivamente olha o relógio e diz, preciso ir. Despedem-se. E num impulso, o convida para jantar,”qualquer dia desses”.

    — Sim, vamos combinar.

    E naquele exato instante, tudo muda.

    Um vento invisível pareceu soprar e varrer o clima improvável. Alguma coisa quebrou. Diana percebeu. Sentiu vontade de lhe dar um abraço, não de paixão ou amor. Mas um abraço fraterno, talvez de despedida. No entanto, limitaram-se aos beijinhos formais no rosto.

    Ambos já estavam, novamente, vestidos com seus personagens. Se houveram memórias, dúvidas, barreiras elas se perderam no caminho da vida.

    Aquele café, tão esperado, se diluiu em três horas mornas.

    E o jantar? Nunca aconteceu.

    Não houve final feliz. Não houve recomeço. Houve um quase. Um beijo antigo. Um convite que não vingou.

    A história de amor de Douglas e Diana.

    O café esfriara…

  • Me dê um lyke?

    As redes sociais dominaram, não há como negar. Se aconteceu, está na rede. Se não estiver, deve ser irrelevante, e nem interessará a ninguém.

    Em tempos não tão longínquos, eram as redes de televisão e, antes ainda, os jornais e revistas.

    Os expoentes da comunicação tornavam-se celebridades, a quem conhecíamos pelos nomes.

    Redatores, colunistas, apresentadores e repórteres passavam a ser nossos “amigos”.

    Ah, e o que dizer dos publicitários?

    Esses eram mais do que celebridades, praticamente encarnavam o sucesso! Eram os responsáveis, tanto pelo nível de audiência das redes de comunicação, quanto pela aprovação dos mandatários da nação.

    E estas eram  expressas nas famosas pesquisas de opinião dos grandes institutos, cujos resultados fariam o “cliente” cair em desgraça, ou ganhar ascensão!

    Eles se tornavam os gurus, seus nomes e credibilidades eram amplamente reconhecidos, pois cuidavam da imagem que chegaria ao povo. 

    Os tempos mudaram. E como!

    Hoje, nossa vida precisa ser vista, comentada, invejada, copiada, seguida.

    E, quanto mais seguidores tivermos, mais e mais conteúdo devemos produzir.

    Falando nisso, adivinhem onde vi a notícia de que foi sancionada a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e o aumento da taxação para altas rendas?

    Por surpreendente que pareça: em um Reels da rede social do governo federal!

    Ah, jovens, vejam o quanto vocês mudam o que quiserem! “Reels, storys, flopar” e expressões do tipo, já fazem parte da linguagem institucional! 

    Estamos na era do: “Me exibo, logo existo!”

    Ah, mas o correto não é: “Penso, logo existo”?

    Tudo depende de qual influencer você segue.

    E viva o poder!

    Não, não estou me referindo ao poder constituído.

    Mas ao poder das redes sociais.

    Maria Elza🌷

  • Apolo e Dafne

    Artigos / Mitografias publicado em 29 de fevereiro de 2016 

    Dafne foi o pseudônimo escolhido por mim, quando escrevi os livros Contos da Quarentena I e Contos da Quarentena II. Foi um pensamento instantâneo que me levou a eleger esse nome.

    Tempos depois eu conheci esta fábula, que trago aqui como uma curiosidade para os leitores dos meus livros.

    Maria Elza

    Dafne foi o primeiro amor de Apolo. Não surgiu por acaso, mas pela malícia de Cupido. Apolo viu o menino brincando com seu arco e suas setas e, estando ele próprio muito envaidecido com sua recente vitória sobre Píton, disse-lhe:

    – Que tens a fazer com armas mortíferas, menino insolente? Deixe-as para as mãos de quem delas sejam dignos. Vê a vitória que com elas alcancei, contra a vasta serpente que estendia o corpo venenoso por grande extensão da planície! Contenta-te com tua tocha, criança, e atiça tua chama, como costumas dizer, mas não te atrevas a intrometer-te com minhas armas.

    O filho de Vênus ouviu essa palavras e retrucou:

    – Tuas setas podem ferir todas as outras coisas, Apolo, mas as minhas podem ferir-te.

    Assim dizendo, pôs-se de pé numa rocha do Parnaso e tirou da aljava duas setas diferentes, uma feita para atrair o amor; outra, para afastá-lo. A primeira era de ouro e tinha a ponta aguçada, a segunda, de ponta rombuda, era de chumbo. Com a seta de ponta de chumbo, feriu a ninfa Dafne, filha do rio-deus Peneu, e com a de ouro feriu Apolo no coração. Sem demora, o deus foi tomado de amor pela donzela e esta sentiu horror à ideia de amar. Seu prazer consistia nas caminhadas pelos bosques, sem pensar em Cupido nem em Himeneu.

    Seu pai muitas vezes lhe dizia:

    “Filha, deves dar-me um genro, dar-me netos.”

    Temendo o casamento como a um crime, com as belas faces coradas, ela se abraçou ao pai, implorando:

    “Concede esta graça, pai querido! Faze com que eu não me case jamais!”

    A contragosto, ele consentiu, observando, ao mesmo tempo, porém:

    – O teu próprio rosto é contrário a este voto.

    Apolo amou-a e lutou para obtê-la; ele, que era o oráculo de todo o mundo, não foi bastante sábio para prever o seu próprio destino. Vendo os cabelos caírem desordenados pelos ombros da ninfa, imaginou:

    “Se são tão belos em desordem, como deverão ser quando arranjados?”

    Viu seus olhos brilharem como estrelas; viu seus lábios, e não se deu por satisfeito só em vê-los. Admirou suas mãos e os braços, nus até os ombros, e tudo que estava escondido da vista imaginou mais belo ainda. Seguiu-a; ela fugiu, mais rápida que o vento, e não se retardou um momento ante suas súplicas:

    – Pára, filha de Peneu! – exclamou ele. Não sou um inimigo. Não fujas de mim, como a ovelha foge do lobo, ou a pomba do milhafre. É por amor que te persigo. Sofro de medo que, por minha culpa, caias e te machuques nestas pedras. Não corras tão depressa, peço-te, e correrei também mais devagar. Não sou um homem rude, um campônio boçal. Júpiter é meu pai, sou senhor de Delfos e Tenedos e conheço todas as coisas, presentes e futuras. Sou o deus do canto e da lira. Minhas setas voam certeiras para o alvo. Mas, ah!, uma seta mais fatal que as minhas atravessou-me o coração! Sou o deus da medicina e conheço a virtude de todas as plantas medicinais. Ah! sofro de uma enfermidade que bálsamo algum pode curar!

    A ninfa continuou sua fuga, nem ouvindo de todo a súplica do deus. E, mesmo a fugir, ela o encantava. O vento agitava-lhe as vestes e os cabelos desatados lhe caíam pelas costas. O deus sentiu-se impaciente ao ver desprezados os seus rogos e, excitado por Cupido, diminuiu a distância que o separava da jovem.

    Era como um cão perseguindo uma lebre, com a boca aberta, pronto para apanhá-la, enquanto o débil animal avança, escapando no último momento. Assim voavam o deus e a virgem: ela com as asas do medo; ele com as do amor. O perseguidor é mais rápido, porém, e adianta-se na carreira: sua respiração ofegante, já atinge os cabelos da ninfa. As forças de Dafne começam a fraquejar e, prestes a cair, ela invoca seu pai, o rio-deus:

    – Ajuda-me, Peneu! Abre a terra para envolver-me, ou muda minhas formas, que me têm sido fatais!

    Mal pronunciara estas palavras, um torpor lhe ganha todos os membros; seu peito começou a revestir-se de uma leve casca; seus cabelos transformaram-se em folhas; seus braços mudam-se em galhos; os pés cravam-se no chão, como raízes; seu rosto tornou-se o cimo do arbusto, nada conservando do que fora, a não ser a beleza.

    Apolo abraçou-se aos ramos da árvore e beijou ardentemente a madeira. Os ramos afastaram-se de seus lábios.

    – Já que não podes ser minha esposa – exclamou o deus – serás minha planta preferida. Usarei tuas folhas como coroa; com elas enfeitarei minha lira e minha aljava; e quando os grandes conquistadores romanos caminharem para o Capitólio, à frente dos cortejos triunfais, serás usada como coroas para suas frontes. E, tão eternamente jovem quanto eu próprio, também hás de ser sempre verde e tuas folhas não envelhecerão.

  • Minhas Histórias – Nova York, Ano de 2018

    Parte 1 – Chegada à Cidade que Nunca Dorme

    Uma viagem a um mundo fascinante e surpreendente. Embora eu já seja prática e legalmente idosa, ainda tenho a imaginação e a curiosidade juvenil. Então, não se surpreenda com os meus encantamentos; deixe-se levar.

    Nova Iorque é cosmopolita, vibrante, maravilhosa. Finalmente entendi o fascínio que a cidade exerce sobre as pessoas — desde os jovens e os casais, até homens e mulheres que são viajantes contumazes. Mesmo quem já conheceu muitos países não resiste ao chamado dessa grande metrópole. A expectativa de conhecer Nova York é uma unanimidade, tanto entre moradores de grandes capitais, como São Paulo, quanto entre habitantes de povoados longínquos.

    Nova Iorque deve ser visitada em qualquer época do ano; nas quatro estações ela sempre será encantadora e terá muito a oferecer.

    Só andar pelas ruas já é um programa. A região da Times Square, sempre lotada a qualquer hora do dia ou da noite, reúne pessoas de todos os idiomas. É um dos principais pontos turísticos da cidade, onde as novidades chegam primeiro, pois Nova Iorque se reinventa constantemente.

    A Times Square me encantou. Ela é muito mais do que eu imaginei. Meu Deus, eu pensei, aqui é o meu lugar! Isto é o que eu jamais consegui imaginar, mas sempre soube que existia: exatamente assim como é!

    Que profusão de tipos, pessoas, fantasias, cartazes, luzes, caricaturas, vozes, músicas, vibrações. Parece ser o centro do mundo. Não há calmaria; é um movimento constante. Ouvem-se vários idiomas, vêem-se grupos de turistas de várias nacionalidades, num vai e vem incessante, uma urgência de vida. Um lugar único? Talvez.

    Nosso hotel ficava a duas quadras da avenida. Por isso, a vi várias vezes: na saída ou na volta para o hotel, ao descer do metrô ou ao dar uma volta ao fim da tarde. Eu me senti como se estivesse no centro do universo… mas, no terceiro dia, já estava com overdose das luzes, do frenesi, do movimento.

    Pensei comigo: cheguei tarde.

    Não; cheguei a tempo de me encantar com a avenida tantas vezes vista em filmes, onde as pessoas se reúnem para a contagem da descida da Bola de Prata que marca o fim do Ano Velho e a chegada do Ano Novo.

    Parte 2 – Broadway: Entre Sonho e Realidade

    Nova Iorque é a meca do consumo.

    A loja da Apple é diuturnamente iluminada e lotada. A famosa Quinta Avenida exibe vitrines maravilhosas, butiques com portas fechadas que só se abrem com exclusividade e hora marcada.

    A maravilhosa Catedral de Saint Patrick. O Central Park visto do alto, com seus espaços de patinação no gelo, trilhas, lagos, restaurantes, lanchonetes e o verde em incontáveis tonalidades. O Memorial das Vítimas de 11 de setembro, com a água escorrendo pelo mármore gravado como se fossem lágrimas perpétuas, chorando os nomes das vítimas. As comidas de esquina. Os músicos e artistas de rua. Nova Iorque é um espetáculo.

    A Broadway sempre povoou minha mente. Ouvi sobre ela em romances, histórias e filmes. Um musical na Broadway era descrito como uma entrada mágica no mundo do entretenimento; os relatos falavam de teatros com mais de 5.200 lugares. O cinema mostrava os táxis amarelos percorrendo a avenida e deixando passageiros às portas dos teatros onde se apresentavam os mais famosos espetáculos, cujos ingressos deviam ser comprados com antecedência.

    E, finalmente, chegou o dia de eu ir à Broadway. Não me envergonho de contar minhas impressões e surpresas — não estou aqui para posar de chique ou vivida. Estou aqui para contar minhas peripécias ao conhecer o mundo, a famosa “linha do horizonte”, que sempre desejei alcançar.

    Almoçamos às pressas nas imediações da larga avenida — tradução literal de “Broadway” — pois a peça Wicked começaria às 14 horas.

    Então eu não veria as mulheres de vestidos longos e brilhantes, de saltos e casacos de pele, como eu imaginava? Ou como vi em filmes antigos? Percebi que minhas memórias eram de outros tempos, de histórias distantes.

    Entramos na avenida, cercada de estabelecimentos comerciais comuns, com letreiros e cartazes anunciando artistas e horários das peças. Luzes piscando, multidões entrando apressadas, procurando seus lugares antes do início do espetáculo. Lanchonetes, carrinhos de refrigerante, guardas controlando o acesso. Nada correspondia à minha imaginação.

    Talvez, numa próxima visita, eu apenas caminhe pela Broadway, sem entrar em nenhum teatro, para alinhar minhas expectativas com a realidade.

    Fiquei com um gostinho de “eu queria mais que isso, Broadway”.

    Parte 3 – Domingos, Pontes e Canções

    No domingo em Nova Iorque, fomos para o Brooklyn, cruzando a charmosa ponte famosa pelas belas fotos que proporciona — seja de seus ângulos, seja da vista de Manhattan ao longe.

    Fomos cedo assistir a um show gospel no Tabernáculo do Brooklyn. Havia uma magia no ar. As ruas ainda estavam vazias; atravessávamos calmamente, tirando fotos, apreciando os canteiros, a arquitetura, as residências.

    A energia e a alegria do coral tomaram conta do lindo templo. Eu me senti como se estivesse na antessala do céu — um céu alegre, vibrante e festivo.

    Após o show gospel, as pessoas que desejavam permaneciam para o culto. As demais, como nós, saíam para conhecer o bairro. Descemos a rua e chegamos a uma alameda à beira do rio — maravilhosa, fresca, com pessoas caminhando, sentadas nos bancos, contemplando a vista, saboreando o privilégio de estar em Nova Iorque.

    Parte 4 – Harlem, Cafés e Descobertas

    Fomos ao bairro do Harlem para conhecer a cultura afro-americana da melhor maneira possível: andando a pé pelas ruas. As casas de pedra e tijolos, os murais, as pinturas nas paredes; tudo aquilo que já víramos em filmes comprovavam que ali era um lugar histórico e encantador. O Harlem é um bairro icônico de Nova Iorque, sempre se reinventando, e de renome mundial. Eu estive lá!

    Comemos panquecas gigantescas com blueberry — nossos mirtilos brasileiros — mel e geleias, como nos filmes.

    Diante do Central Park, em uma caminhada relativamente curta, atravessamos o parque em sua largura. Tudo era encantador, absolutamente tudo. Ao chegarmos à calçada oposta, tomamos o café da manhã no Sarabeth’s Central Park South, uma cafeteria muito bem recomendada, e que fez jus à sua fama.

    Em Nova Iorque há diversos cafés, tanto em lugares badalados quanto em bairros discretos. Em todos eles, o cheiro bom das máquinas de café é acolhedor.

    Parte 5 – O Encanto Final

    Conhecemos vários pontos turísticos e lugares fashions. Andamos de metrô em horários de rush e também de madrugada, quando o vagão era praticamente só nosso.

    O Museu de História Natural estava no roteiro, assim como a vista de 360° da cidade, no alto do Edge Observation Deck — um espetáculo à parte.

    Nova Iorque é inimaginável do ponto de vista turístico. Foi um dos lugares mais intensos que conheci. Deus é maravilhoso; tudo tem seu tempo, e o meu foi conhecer Nova Iorque aos 65 anos de idade e sentir-me realizada.

    Obrigada, meu Deus, por permitir que eu realizasse os sonhos da minha adolescência e os desejos mais loucos da minha alma.

    Valeu a pena. Ah, se valeu!

    Maria Elza 🌷

  • O Céu e o Inferno

    (final infeliz)

    Conto de Maria Elza

    É setembro. Sara faz aniversário. Deveria estar em estado de graça.

    Ter nascido no primeiro mês da primavera sempre mexeu com suas emoções.

    Sentia-se festiva todos os dias dessa estação.

    — Sara, o que você quer como tema da sua festa?

    — Escolha você, mãe, só não se esqueça das flores.

    E houve festas cor de laranja, com maravilhosas gérberas, cujas pétalas pareciam desenhadas e recortadas por algum artista.

    As hortênsias folhosas decoraram seus doze anos nos mais lindos tons de azul.

    Aos quinze, flores amarelas: guirlandas de girassóis enfeitavam o terraço, e o sol, descendo no horizonte alaranjado, emoldurava o cenário cintilante e musical da festa de Sara.

    Flores em vários tons de amarelo, talheres dourados, taças de cristal âmbar — a beleza do ambiente e a de Sara se completavam.

    Ela, rodeada pelas amigas e pelos rapazes, num clima de alegria, flertes e descobertas.

    Era uma trama ainda inocente e juvenil.

    Aos dezoito anos, as rubras rosas colombianas teriam sido as estrelas da festa, se não fosse o esplendor de Sara, já desabrochada em uma linda mulher.

    O ambiente parecia elétrico, como se ela tivesse adentrado um mundo denso, cheio de intrigas e paixões.

    Havia um encanto novo no ar.

    As amigas brindavam com champanhe, quando Eleonor, sua confidente, puxou-a pela mão:

    — Sara, venha conhecer o Paulo. O mais novo morador do hotel do tio Leôncio.

    Lembra que, desde a semana passada, estávamos esperando um hóspede? É o filho de um amigo do meu tio…

    Um homem a olhava. Não um rapaz, como seus amigos e admiradores, jovens e bobos, como ela dizia.

    Lembrou-se das conversas com as amigas: falavam de homens, de sexo, de paixões, de expectativas e curiosidades sobre o que ainda não viviam.

    E, ao estender a mão ao desconhecido, sentiu que estava a um passo de mudar toda a sua vida.

    A sensação era a de quem salta de um penhasco com os olhos vendados.

    Eleonor se apressou em levar o convidado ao salão, antes que o “perdesse” para a amiga.

    Sara, por sua vez, voltou ao grupo barulhento e festivo.

    A banda mudou o ritmo, os pares se formaram, o salão mergulhou em meia-luz, e a aniversariante estava no centro.

    Era o seu momento.

    Carlos, seu primo, fora designado para a primeira dança, e os demais amigos se revezariam depois. Uma tradição que os pais ainda cultivavam para marcar a passagem das jovens à sociedade.

    Enquanto rodopiava, ora com um, ora com outro, sentia os olhos de Paulo sobre si.

    Um arrepio lhe desceu pelas espáduas.

    A festa fora um sucesso, e repercutiu por dias.

    Tudo parecia em ordem. Exceto pela “apatia pós-aniversário”, como Eleonor classificou a recusa de Sara em sair com o grupo.

    Dez horas da manhã. Cabelos soltos, calça jeans, camisa branca.

    Um leve blush nas faces, os lábios com batom rosa.

    A campainha toca.

    Quem está à porta?

    Paulo.

    — Sara, poderia me mostrar as plantações de rosas? Soube que pertencem à sua família.

    Uma lassidão desconhecida a fez permanecer muda: uma mão na porta, a outra apertando ao peito o livro que lia.

    — E então, vamos?

    Esse foi o dia em que Sara foi ao céu.

    E depois ao inferno.

    O dia em que ela pediu que o tempo parasse.

    Mas ele não a ouviu.

    Seguiu seu trajeto inexorável.

    Sem parar.

    Sem voltar atrás.

    Hoje é seu aniversário. Ela faz trinta e três anos.

    Mas não haverá festa.

    Tampouco haverá comemoração para o filho, André, que logo completará quinze anos.

    O tempo das festas e flores ficou no passado.

    Assim como a ilusão de Sara.

    Maria Elza.

  • Maria – A mãe de Jesus
    1- Quando me referi a Maria ( Mãe de Jesus) como minha heroína, falei de forma rápida, só fiz uma referência. Agora quero falar de como ela me toca, de como eu a sinto grande, enorme mesmo, em sua fé e entrega. A imagino em casa, camponesa, filha obediente, mocinha inocente, linda, recatada, vivendo aquela vida sem sobressaltos, prometida em casamento a um homem mais velho, como era o costume da época. Um homem bom, de nome José. E ali, naquele povoado eles esperam a idade dela ou a época oportuna para se casarem e continuarem a vida como os camponeses que eram, assim como os seus pais, os seus avós e como todos os conhecidos. Com o passar dos dias, aumenta no povoado e imediações, as conversas e especulações sobre a notícia de que estava vindo alguém que seria o Prometido, o Messias, o Salvador. Acredito que as pessoas todas esperavam um homem, um adulto, alguém que chegaria para fazer mudanças; e que muitos nem faziam ideia do que seria, num misto de esperança e curiosidade
    José, seu esposo prometido foi comunicado sobre a gravidez de Maria por um anjo do Senhor que lhe apareceu em sonho, dizendo que a concepção era do Espírito Santo e que ele deveria receber Maria como sua esposa, dando ao menino o nome de Jesus, pois Ele salvaria o povo dos pecados, cumprindo as escrituras. Tanto José, como Maria aceitaram a missão: serem os pais de um menino que deveria se chamar Jesus.
    E nisso reside minha admiração por Maria. Ela sonha com um anjo que lhe diz que ela será a mãe do Prometido, que através dela chegará o Salvador. O que faz a jovem? Não se desespera, não questiona, não argumenta.
    Como mexe comigo aquela jovem meiga e inocente apenas dizer: Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a sua Vontade!
    Essa frase sempre me comove. Pela coragem silenciosa. Pela confiança absoluta. Pela pureza com que se entrega ao inexplicável.
    Tornou-se a Mãe do Mundo, a Mãe de Todos! Tornou-se a Heroína do Cristianismo, venerada e adorada por todos e em todo o tempo! Que entrega linda, que exemplo de fé tem Maria, minha heroína! Maria Elza
  • Manual de Jogos

    — Onde você vai, moleque?

    — Veja como fala comigo!

    — Vai querer apanhar?

    — Ah é? E quem vai me bater?

    Na calçada, os dois se encaravam como galos de rinha. Do outro lado do muro, Dona Adélia estendia roupas no varal. Ouvindo o tom da conversa, escancarou o portão:

    — Quinzinho, o que tá acontecendo aí?

    — Nada, mãe!

    — Nada? Vocês estão prestes a se atracar e quer me convencer de que é “nada”? Já pra dentro! E você, Adolfo, vá pra sua casa. Ou quer que eu chame sua mãe?

    Adolfo resmungou. Baixou a cabeça e chutou a areia enquanto descia a rua. “Lá vem a protetora de filho molenga salvar o Quinzinho”, pensou, com raiva.

    No caminho, foi lembrando das brigas com o amigo. Valia ainda chamá-lo de amigo? Pegou um galhinho do chão e, feito espada, duelou com o ar. Avançou, recuou, e num golpe final encostou a “arma” no rosto do inimigo imaginário.

    Ficou parado um instante. Depois suspirou e jogou o galho fora.

    — Eu nunca machucaria o Quinzinho… nem de brincadeira.

    Sorriu. Ele gostava do amigo e sabia que a raiva logo ia passar.

    Podiam discutir, xingar, até sair no tapa. Mas eram “melhores amigos”

    Com farpas, sim. Mas também com cola.

    Naquele dia, o motivo da confusão tinha nome: bolinhas de gude. Se fosse época de figurinhas, seria por elas. Se fosse de pandorgas, seriam as pandorgas. Mas Adolfo tinha certeza de uma coisa: só perdeu porque o Quinzinho trapaceou.

    O Manual

    No dia seguinte, Quinzinho esperava o amigo para irem juntos à escola.

    E de cara, retomou o assunto e foi direto ao ponto:

    — Agora Adolfo, me diga: como é que se rouba num jogo de bolita?

    Adolfo de cara feia, acusou, mas não explicou. Só repetia:

    — Você roubou!

    Quinzinho então puxou um livro da mochila.

    — Escuta só. Peguei isso emprestado com o tio Roberto.

    Leu em voz alta:

    “O jogo de bolitas acontece quando dois jogadores se revezam tentando encaçapar suas bolinhas no buraco. Ganha quem fizer mais acertos. O jogo termina quando um dos dois fica sem bolinhas. Existem quatro variações, sendo a mais comum o duelo direto. É também a mais propensa a desconfianças e acusações.”

    Fechou o livro.

    — Qual era o nosso jogo? Vamos, fala!

    — Duelo direto?

    — Pois então! Roubo ou azar?

    Adolfo ainda não entendia como tinha perdido, mas, ao ver Quinzinho todo solene, lendo um manual de regras, caiu na risada. Puxou o amigo pelo pescoço:

    — Tá bom, vai. Eu me enganei.

    E seguiram de pilhéria, até a escola.

    Essa foi só uma das tantas confusões entre Adolfo e Quinzinho.

    Já discutiram por cola, por namoro, por qualquer bobagem que a infância sabia inventar. Mas uma coisa eles aprenderam: não há manual que ensine a não brigar… nem a deixar de perdoar o melhor amigo.

    Uma pena que agora não podem mais brigar e se perdoar. A vida os separou e hoje estão de lados opostos: um é bandido e o outro policial…

    Maria Elza

  • Então é Natal

    Faça a conta. Faça a compra. Faça a lista.

    Afinal, dentro de poucas semanas será Natal.

    “É apenas mais um”, dirá o jovem.

    “Talvez seja o último”, pensará o idoso.

    “Vou ter que gastar meu décimo terceiro”, pensa o pai. Ou a mãe.

    “O serviço vai dobrar”, lamentam a vendedora, a empregada, o patrão, o carteiro.

    “Preciso variar e garantir o estoque”, diz o quitandeiro gourmet.

    Ovos, uvas, pêssegos e toda a sorte de frutas ditas natalinas.

    Ah, sem esquecer da famigerada e hilária uva-passa.

    Os avós, os tios , os pais de primeira viagem, os de última ou até os de ocasião fazem uma vistoria geral na casa. Afinal, Natal é festa da família.

    É hora de mandar lavar os tapetes, consertar cadeiras, fazer inventário de copos, pratos e talheres.

    Hum… chegou a hora da decisão: vai mesmo ter amigo-oculto?

    Aquele costume sem autor conhecido, o verdadeiro elefante branco na sala, ou no espaço-cenário onde a família vai se reunir.

    A tal brincadeira que não brinca, mas insiste em aparecer.

    Apesar de todos, e cada um , jurarem que detestam.

    Ou não?

    Ah, sei bem…

    Presentes úteis, inúteis, indefinidos, caros, errados, “nada a ver”.

    Comprados com ou sem boa vontade. Com antecedência ou de última hora, em lojas cheias, vendedores apressados, cuja maior preocupação, no momento, é a comissão de venda.

    Esse é um assunto tabu.

    Assim como o tio inconveniente que bebe e conta a mesma piadinha de sempre; 

    a prima de nariz empinado que vai dar “só uma passadinha”; 

    o décimo namorado que a irmã leva às festas de família .

    E que ela jura que desta vez “é prá valer!”

    E assim se tem a festa de Natal.

    O Menino Jesus?

    Dorme, cercado de ovelhinhas e reis magos, debaixo da árvore pisca-pisca comprada na promoção relâmpago do site da Shein.

    E o espírito natalino? Ah…

    Esse talvez esteja embrulhado, sem etiqueta,

    perdido entre os papéis de presente e as sobras do peru.

    Então é Natal!

    A grande festa cristã surgida entre os anos de 336 e 352 depois de Cristo e, que se tornou um marco para a humanidade!

    Apesar de tudo, o mundo espera pela magia desse tempo.

    Quem não almeja estar vivo e mais uma vez cantar e festejar o próximo Natal? 

    Maria Elza

  • O Embrulho
    Ilustrado pelo ChatGPT

    — O que é isso?

    — Não sei. Tava aqui na mesa de fora.

    — Quando foi?

    — Que encontrei? Agorinha, quando vim dá comida pros gatos.

    — Cê pegou? É pesado?

    — Não. Já falei, acabei de achá!

    — De quem será?

    — Num sei, mas queria sabê o que é.

    — Mió não.

    — É. Mió mesmo.

    — Então anda. Vamo logo pra escola.

    Deixaram o pacote na mesa e foram se arrumar.

    Paulo era o mais velho. João, o menor, adorava o irmão e não faria nada que ele não aprovasse.

    O dia passou: aprenderam coisas novas, leram, ouviram histórias, brincaram, comeram na escola e, ao cair da tarde, voltaram para casa.

    Era uma escola rural, daquelas que existem nos arredores da cidade para atender os filhos dos trabalhadores das roças. Os pais dos meninos tinham lavouras em conjunto com um casal de tios mais idosos e experientes. Como ainda eram jovens, cabiam a eles os serviços da madrugada: ordenhar vacas, dar milho às galinhas, colher ovos, limpar as pocilgas, molhar a horta, arrumar as verduras para a venda na cidade. O tio era o homem de negócios, o que comprava e vendia a produção.

    No recreio, João procurou Antônio:

    — Será que foi o tio que trouxe o embruio? Mas por que dexô ali na mesa de fora?

    — Não! O papel num é lá da venda. Larga mão, João! De noite vamo sabe.

    Quando voltaram da escola, encontraram a casa no ritmo habitual. O horário da janta era sagrado: comentavam as novidades, as crianças faziam suas tarefas, a mãe limpava a cozinha, o pai ia dedilhar o violão no alpendre.

    Logo em frente da casa, um enorme pé de marmelo-do-cerrado servia de dormitório para os pássaros, que passavam em revoadas duas ou três vezes antes de se aquietar.

    Já iam se recolher quando Antônio lembrou do embrulho e perguntou ao pai:

    — Pai, o que tem naquele embruio?

    — Que embrulho?

    João correu até a mesa e não encontrou nada.

    — Ué, tava aqui!

    — Do que você tá falanô, menino?

    — Do pacote que tava na mesa dos fundos de manhã — disse Antônio.

    — E tava lá agora de tarde, quando a gente chegou da escola — completou João.

    — Bom, se num tem nada lá, então num é nada decretou o pai, indo para o quarto.

    João olhou para Antônio, que olhou para a mãe. Ela apontou discretamente para o quarto, encerrando o assunto.

    Os meninos deitaram e conversaram baixinho debaixo das cobertas.

    — Antônio, tá perto do Natal?

    — Que Natal, seu bobo! Não vê que as aulas mal começaram?

    — Ah. Tá.

    — Mas ocê viu, né?

    — Claro que vi.

    — Cê viu se chegô gente prá conversá com a mãe?

    — Vê num vi, mas parece que escutei a fala duma muié?

    — Ára, e quem hôvera de sê?

    — E por que eles tão se fazendo de bobos?

    — Deve de sê coisa de gente grande.

    — Então num vamô sabê?

    — Sei lá.

    João não se conformava. Começou a chorar baixinho. Antônio abraçou o irmão e ajeitou o cobertor.

    — Dorme, João. Larga mão, sô!

    Passaram os meses. Chegaram as férias. Os meninos brincavam o dia todo. A mãe já não acordava mais de madrugada com o pai; agora ficava em casa, fazia bolos, arroz doce, bordados, costuras. A vida seguia seu curso.

    Até que um dia ela chamou os meninos:

    — Vem cá que vou contá uma coisa boa!

    Eles correram animados até onde estavam os pais, os tios, a vizinha e uma moça lá dos arredores, que agora ajudava nos serviços da casa.

    — Conta mãe, conta! — disse João, batendo palmas.

    — Espera a mãe falá, guri! — ralhou Antônio, ansioso também.

    Todos sorriam olhando para os dois, só para não perder a reação deles.

    — Vocês vão ter uma irmãzinha! — anunciou a mãe.

    Antes mesmo que ela terminasse, João já saltava gritando:

    — Antônio, é o embruio! É o embruio!

    De fato, dona Candinha sabendo que a vizinha tava desconfiada de ter “pegado barriga”, já tinha catado as roupinhas que foi da neta e levado lá prá amiga.

    Em um “embruio”!

    Maria Elza

  • O Bairro Novo

    As calçadas são cinzas.

    Os muros também.

    Opa! E as casas? Cinzas!

    E “harmonizam-se” com a cor preta e outros tons da mesma cor…

    Que moda é essa? Qual o guru da arquitetura moderna foi o precursor dessa escolha? 

    Sigo com o Google Maps aberto, como quem caminha sem saber o caminho, mesmo tendo um mapa na mão.

    É um bairro novo, de classe média alta.

    As casas, recentes, seguem o mesmo modelo arquitetônico: fachadas altas, linhas retas, vidro escuro, cimento aparente. A estética da segurança, do silêncio e da sobriedade. Tudo muito moderno. Tudo muito igual.

    Não bastasse a surpresa da cor, há algo mais que me inquieta.

    As janelas não se abrem. Não há som de crianças, nem cheiro de comida, nem sombra de varal. As ruas estão limpas. E totalmente vazias. O traço comum é o isolamento: portões que se erguem automaticamente, carros que entram e saem sem que se veja o rosto de quem os conduz.

    Casas habitadas por presenças ausentes.

    O cinza não está apenas nas paredes. Está também na atmosfera.

    Olho para o alto, ufa! Que alívio ver o céu azul…Suspiro. Mas ainda sinto o espírito do lugar.

    Há uma palidez existencial ali, como se a forma da moradia tivesse moldado o modo de viver.

    E me pergunto: quando foi que morar deixou de ser habitar e passou a ser apenas isolar-se?

    Quando foi que o abrigo virou trincheira?

    Sei que tudo é moda. A cor da tinta, o estilo da fachada, a lógica do silêncio.

    Mas temo que o hábito de fechar-se por fora acabe por selar também o lado de dentro. Que o desejo de proteção vire indiferença. Que o medo se disfarce de elegância.

    Ainda assim, insisto em acreditar que nem tudo se apaga sob o concreto.

    Que, de vez em quando, ao abrir o vidro para deixar escapar o calor do carro, alguém note o verde das plantas, o brilho do sol, o céu azul.

    Que um canto de pássaro ainda provoque surpresa.

    Que uma frase, uma música, uma lembrança rompam o lacre do hábito e façam vibrar algo bom no coração das pessoas que ali vivem. 

    Porque, no fundo, morar é mais que possuir um espaço.

    É deixar-se afetar por ele.

    E viver é mais que proteger-se do mundo: é permitir que o mundo nos atravesse, nos transforme, nos toque.

    Mesmo que as paredes sejam cinzentas.

    Ainda que a moda diga o contrário.

    Maria Elza

  • No Lo Creo Em Brujas…

    Óvnis, balões, luzes cortando o céu. Videntes em redes sociais, fazendo lives, marcando hora para podcast. Vivemos num mundo de alta tecnologia, e mesmo assim o sobrenatural ainda sobrevive…

    — No lo creo en brujas, pero que las hay, las hay — já dizia meu pai.

    Elas estavam longe do trabalho. Estrada de chão, fora do perímetro urbano. Joana dirigia; Sara, ao seu lado, tagarelava sem parar. Não prestava atenção ao trânsito, nem ao rosto sisudo da amiga.

    Joana reduziu o veículo e entrou com tudo numa rua lateral. O carro perdeu a estabilidade e rodou. Parecia ter vida própria. Ambas gritaram de susto. Joana segurou firme o volante, sem frear, até que pararam atravessadas no meio da rua, sobre um monte de areia.

    Um menino sem camisa, pele queimada de sol, largou a enxada, subiu numa cerca de arame e gritou:

    — Ei, ei! Não podiam ter ido pela areia! Tinham que seguir o trilheiro!

    As duas desceram do carro, desoladas, observando os pneus afundados na areia.

    — Vocês tinham que vir pelo chão batido. Na areia o carro roda. Não sabiam, não? — perguntou, rindo.

    — Tá, mas e agora? Como vamos sair daqui, se estamos atravessadas no meio da rua?

    — Pera aí, vou ajudar vocês.

    Correu de volta para o lote onde carpia e trouxe dois pedaços de madeira.

    Quase meio-dia. Sol a pino. Duas mulheres finas, enfatiotadas em roupas sociais, bolsas e saltos. Joana sentiu o rosto arder diante da figura ridícula que faziam, mas concentrou-se em ajudar o menino a encaixar as madeiras sob os pneus traseiros.

    Ele garantiu que, ao dar ré sobre as tábuas, manobrar o carro e endireitar os pneus sobre a terra firme, tudo se resolveria.

    A destreza com que explicava, somada aos apetrechos prontos para o improviso, pareceu muito costumeira ao garoto, pensou Joana.

    Antes que completasse o raciocínio, ele emendou:

    — Me dá uns trocados pela ajuda? Vocês estão indo lá na mãe Luzia, né?Então, não abandonem o chão batido. Na volta, saiam pelo lado direito. É só andar duas quadras, entrar na rua onde tem um borracheiro na esquina, mais três quadras, virar à esquerda e pronto: já estão no asfalto!

    Boa sorte! E podem acreditar: ela é boa, mesmo!

    Joana olhou para Sara e resmungou baixinho:

    — Que guri intrometido… Só faltou dar as previsões! Como sabe que estamos indo à cartomante?

    Sara apenas deu de ombros.

    — Vamos. É isso que interessa.

    Joana e Sara trabalhavam juntas, chefe e secretária. Mas, naquele momento, era Sara quem comandava.

    Não eram íntimas antes da aventura em que estavam metidas. Tudo começou assim, sem mais nem menos:

    Um suspiro desolado, um olhar atento, uma pergunta — e pronto. Joana estava em lágrimas, e Sara se tornara sua “protetora”.

    Homens. Pois então… Era esse o motivo da inusitada cumplicidade entre as duas.

    Joana, até onde Sara sabia, era muito bem casada e feliz. Pudera! Era bonita, chique, perfumada, e ainda por cima, chefe!

    Sara era jovem, solteira, bonita e livre. Tinha um “enrosco”, como chamava o homem que há mais de dez anos aparecia e sumia quando bem entendia.

    Pronto. Foi isso que as uniu.

    Sara, cliente contumaz da tal cartomante para onde iam, achou que Joana deveria fazer uma “consulta”. Confidenciou quantas vezes mãe Luzia já a ajudara.

    Se seu homem sumia por uns dias, ela ia logo à consulta. Vai que fora trocada por outra?

    Uma suspeita, e lá ia Sara quebrar o encanto de quem ousasse disputar seu amado.

    E, por garantia, levava champanhes, perfumes, sabonetes de luxo e outros mimos, que deixava aos pés da “sua pomba-gira.”

    Tudo isso ela contou à Joana quando, com seu olho clínico, a observou certa manhã: grandes olheiras e suspiros contínuos.

    — Joana, você está com encosto!

    — O quê?

    — Nunca ouviu falar? Encosto, mau-olhado, feitiço?

    — Já ouvi… Mas não mexo com essas coisas.

    — Aí é que está. Se não mexe, não se protege. Dá nisso!

    — Nisso o quê?

    — Vamos sair. Vem conversar comigo ali fora, perto das plantas, da natureza.

    Joana não retrucou. Sentiu-se reconfortada por uma pessoa simples como Sara perceber seu estado e se dispor a ajudá-la.

    De repente, estavam unidas. Em suas diferenças, surgira algo em comum, embora Joana continuasse reservada, sem se abrir como Sara fizera.

    As inquietações de Joana eram de outra natureza. Limitou-se a dizer que passava por um período de reflexões e sensações desconexas, em seu casamento. Poderia alguém estranho lhe dar alguma resposta ou ajuda?

    Sara, sambada nas rodas de mãe Luzia, logo a convenceu:

    — Se bem não fizer, mal também não fará! Vamos!

    Esse era o contexto em que se encontravam.

    Chegaram.

    Sara entrou primeiro e conversou com mãe Luzia. Esta saiu e recebeu Joana.

    — Entre, Joana. Você é ainda mais bonita pessoalmente.

    — Não entendi… — disse ela, constrangida.

    — Sente-se, disse a mulher indicando a cadeira em frente. Joana sentou-se e a cartomante tomou o seu lugar à mesa. Sem jeito, passeou os olhos pelo altar na parede, com os orixás e elementos afins. Abaixo, cada uma em um lado da mesa. E esta repleta de copos com água, fotos, santos e velas acesas.

    De repente, seu semblante mudou e Joana arregalou os olhos, espantada! No centro do mesa, um copo com água e uma vela acesa ladeavam uma foto emoldurada, onde ela e seu marido sorriam felizes…

    No lo creo en brujas…

    ✒️ Assinatura

    Maria Elza

  • A Casa do Rio Vermelho

    “A comparação envolve confrontar a sua vida, ou um aspecto dela, com a de outra pessoa, procurando pontos de semelhança ou diferença. “

    Fui ao Aurelio buscar o sentido correto do que é comparar. Que bom eu ter tido essa preocupação!

    Fiquei muito feliz com o que eu descobri: não me comparo, não devo me comparar e se eu o fizer, jamais vai ser no sentido literal da palavra! 

    O que me levou a essa reflexão? Foi um passeio despretensioso que fiz: Fui novamente à Casa do Rio Vermelho.  E lá, mais uma vez eu me impregnei, me apaixonei e me senti tão íntima do grande escritor, dono da casa: Jorge Amado.

    Ali, andando pela casa, vendo o seu ambiente, seu quarto, sua sala, sua cozinha, suas cartas, seus objetos pessoais, eu novamente o admirei, como se eu fosse uma garotinha, a quem abrissem o quarto de uma moça. Adulta, linda,dona de si e do mundo.

    Sentada nos degraus da sala de leitura,  ouvindo trechos dos romances que me encantaram em diversas fases de vida da mulher que sou, eu percebo o  caminho real de formação e desenvolvimento pessoal  que adquiri  através dos livros. O gosto pelo ler me levou a escrever. E se por um instante eu quase caí na tentação de me sentir pequena diante de tão vasta riqueza que existia ali, nas dezenas de livros escritos por ele, foi só um minuto de falsa modéstia.

    Os grandes autores, como Jorge Amado e tantos outros foram os responsáveis em alimentar a minha alma, com tudo de maravilhoso que aprendi, e que hoje me faz sentir emoção ao adentrar em um museu literário. Isso não tem preço! 

    Agora, que a vida anda mansinha pelo meu corpo cansado, que os olhos precisam de mais luz e grau para enxergar, e que a pressa foi deixada lá atrás, eu posso sentar e ouvir com calma e com a alma, as histórias que fizeram e sempre farão parte de mim. 

    Maria Elza

  • Dia de Algodão-Doce

    Sobre o mistério de viver com os olhos encantados e o coração desperto.

    Se o homem , esse ser racional , se apegar apenas ao pensamento e desacreditar dos mistérios e belezas que há no mundo, estará morto, embora vivo.

    Sonhar, comover-se, sentir-se maravilhado com pequenos ou grandes mistérios, sorrir das delicadezas inesperadas, espantar-se, sentir gratidão ou culpa são manifestações que nos conectam uns aos outros e dão sentido à nossa vida.

    É aquele instante que, de repente, nos olhamos surpresos e sorrimos ao mesmo tempo.

    Ou que choramos pela dor do outro; ou nos comovemos com atos de heroísmos, vitórias e conquistas.

    O mundo é um grande celeiro para alimentarmos a nossa vida interior, basta que tenhamos um coração “vivo”!

    Vamos de histórias:

    Há quem conte os degraus antes de subir uma escada. Há quem só se sinta tranquilo se alinhar os talheres na mesa. Uns somam os números das casas; outros evitam pisar nas linhas do chão.

    São rituais pequenos, manias inofensivas. Dá a impressão de que a pessoa se organiza por dentro, como se o mundo só fizesse sentido a partir de certas repetições.

    Cada pessoa tem sua forma de lidar com o caos. Alguns o enfrentam com listas; outros, com orações.

    Eu, confesso, traduzo o mundo em comparações.

    Vejo bichos nas expressões humanas, metáforas nas situações, poesia nas coincidências.

    Hoje, por exemplo, vivi um dia de algodão-doce.

    Estava na missa. Era dia do meu aniversário.

    Ajoelhada, olhos baixos eu  agradecia a Deus por mais um ano de vida. Ao levantar a cabeça vi um menino que vinha sorrindo em minha direção.

    Pareceu-me vagamente familiar…

    Meu neto?

    Surpresa, olhei para o corredor por onde ele entrou e vi outro neto… e mais outro… depois o pai, a mãe, minhas filhas e seus filhos, nora, genro.

    Levantei do banco da igreja e percebi: estava cercada!

    Filhos, filhas, netos! Todos ali reunidos, como que guiados por um mesmo chamado silencioso.

    Uma onda de amor me envolveu.

    A riqueza da vida interior proporciona experiências lindas até na simplicidade.

    Dia de algodão-doce, com certeza! 

    Maria Elza🌷

  • Idade nova

    Quem vem aí? Eles, os setenta e três anos.

    Um novo eu? 

    Não sei, porque ainda me desconheço.

    Sei como sou agora…

    Não sou adepta de incógnitas. Preciso de certezas, de verdades. Mas percebo, consciente, que nem sempre elas estão disponíveis. E talvez nunca estejam.

    Viver nessa dualidade, porém, não é ruim. Ao contrário: dá sabor ao viver.

    Hoje, quando olho para trás, me lembro de tantas fases vividas, épocas onde perdia o sono, que me levaram a psicólogos, terapeutas, ciganas ou cartas de tarô, e em como elas se diluíram no tempo.

    As águas que antes corriam agitadas agora se tornaram calmas. Percorrem veias e artérias com a tranquilidade de quem já aprendeu o ritmo da vida.

    Os pensamentos, antes urgentes, hoje se acomodam em serenidade.

    Nesta fase, a calmaria se fez trono. A paciência encontrou seu espaço. Os hormônios se aquietaram. E aquilo que parecia vital, urgente, tornou-se simples. Resumido numa expressão que liberta: “E daí?”

    E daí que sigo. Ainda não gosto de charadas, não me aprazem conversas de duplo sentido. Prefiro as verdades.

    Ainda que cada vez menos encontremos certezas, é nessa busca que o ser humano encontra a razão de viver.

    Eu, que ainda me desconheço nesta idade nova , mesmo porque o rosto envelhece a cada ano, almejo que o espelho me devolva o olhar de sempre: talvez mais sereno, mas ainda encantado com a beleza da vida.

    Maria Elza 🌹

  • Acontece…

    Acontece de, às vezes, ela esquecer de beber água…

    Acontece de refazer o trajeto dentro de casa. Um, dois, três passos tentando lembrar o que ia fazer…

    Acontece de o nome de um livro fugir, de um autor se esconder num canto da memória.

    E, entre um esquecimento e outro, ela suspira e diz baixinho:

    “Não me demoro padecente no que chamam distração.”

    Mas vejam só a que isso nos levou:

    — Vizinha, posso entrar?

    — Oi, Dona Iva, pode sim.

    — Olha só… soube que a senhora é escritora e vim lhe pedir uma ajuda.

    — Na verdade, Dona Iva, eu escrevo mais para mim mesma.

    — Ué, como assim?

    — Ora, a senhora não faz crochê? Já não me contou que faz por fazer? Que um dia pode ser presente, outro pode virar venda, ou simplesmente ficar ali, guardado no seu zelo? Assim é a minha escrita.

    — Ah, mas tenho certeza de que a senhora pode me ajudar. Quem escreve, lê, e quem lê, entende as coisas da vida.

    — Pois bem, vamos lá. O que é?

    Aí é que está. O pedido dela foi tão inusitado que, até o momento em que escrevo esta crônica, continuo tentando me lembrar!

    Sabe o quê? Isso é reflexo da atualidade, dessa gourmetização da velhice!

    Ora, não nos deixam envelhecer em paz ! É “ressignificar”, é “empreender”, é se “botocar”, é fazer academia!

    E as rodas de conversa? Sei! Nosso papel é ouvir e validar coachs e experts naquilo que só leram ou ouviram falar. Preguiça é o que me dá.

    De repente , acho que há uns poucos anos , nos descobriram!

    Ou talvez nós sejamos um novo “nicho”!

    Nem me acho tão velha assim, e já estou com saudades de um tempo que ainda não vivi.

    Daquelas cenas que eu via e invejava: duas ou mais velhinhas sentadas em suas varandas, ou embaixo das árvores do jardim (sempre em frente às casas), “jogando conversa fora.”

    E quando chegavam os filhos, netos e quem mais viesse, aí a vida se movimentava.

    Era briga pelo banheiro, o cheiro gostoso vindo da cozinha, as novidades do dia, a televisão ligada, o alvoroço bom.

    Essa é a velhice que eu queria na alegria do entardecer. Do dia e da vida.

    Ah, sim! O que mesmo que Dona Iva pediu? Esqueci completamente!  

    Acontece…

    Maria Elza 🌹

  • Acalento

    Ao escrever, eu namoro, flerto, me apaixono.

    Por quem? Por elas, as palavras.

    Já perceberam como elas chegam?

    Afoitas, apressadas, querendo passar à frente umas das outras.

    Delas, sou fã, parceira e amiga.

    Pois venham, achem seus lugares, enfeitem, enfeiem, traduzam, confundam.

    Ahhh, as palavras…

    Com o seu poder, destroem impérios, apaziguam corações quebrados, animam os desesperados, fazem felizes os apaixonados.

    E os sons? Variados, engraçados, escrachados…

    O ritmo? Esse é um capítulo à parte!

    Arranham as letras, como a palavra arara, por exemplo,

    ou são sedutoras, como veludo.

    A intensidade de grito, a elegância de néctar.

    Acho surpreendente também como elas se tornam moda, autoridade, prestígio.

    Vou exemplificar com o que tenho ouvido: “ponto focal”.

    Alguém poderia me explicar o que seria um ponto não focal?

    Me lembra muito o “estado da arte”, que em época passada, era uma expressão obrigatória no linguajar de quem queria soar moderno, no mundo corporativo. 

    Mas essas não me ocupam a mente.

    Eu gosto mesmo daquelas que me acalentam.

    Falando nisso… olhem a lindeza da palavra acalentar!

    Ela tem um som que embala, um jeito de colo, um gesto de abrigo.

    Parece que, ao pronunciá-la, o mundo sossega.

    E o coração também.

    Maria Elza🌷

  • Enxurrada

    Enxurrada

     Maria Elza G. Gonçalves20.09.2025

    A Enxurrada

    Quem morou em cidades do interior, em tempos idos, vai se lembrar da enxurrada. Do barulho, da intensidade, da cor, do tempo que durava.

    Hoje, talvez, poucas crianças tenham visto, ou até mesmo ouvido falar dela. Esse fenômeno da natureza não era o evento em si, mas a consequência. Ainda assim, tinha tanta força que me deixava suspensa na janela, olhando. A causa era a chuva torrencial.

    Quando amainava, virava pingos esparsos, ou garoa fininha. Só então poderíamos sair de casa. Quando a enxurrada já tivesse diminuído, até se tornar uma fina lâmina de água que seguia em busca de seu destino final.

    Do qual eu não fazia ideia. Mas sabia que levava tudo em seu roldão: gravetos, brinquedos esquecidos na porta das casas, pintinhos distraídos, caso a galinha não tivesse tempo de protegê-los.

    E toda sorte de tralhas e sujeiras que encontrava pelo caminho.

    Por que me veio essa memória?

    Pelo cuidado.

    O cuidado e a responsabilidade que devo ter ao escrever as crônicas do meu cotidiano.

    Escrever é ato solitário.

    Mas, ao soltar o texto, ele deixa de ser meu e toma vários caminhos, pode circular pelo mundo virtual, ficar estagnado em uma gaveta, virar papel de embrulhar…

    Essa é a razão que me fez pensar no cuidado… ao escrever não devo me comportar como a enxurrada: bela, intensa, mas misturada ao lixo que recolheu pelo trajeto.

    Quero ser o fio de água que desce pela rua depois da tormenta.

    Manso.

    Sob a leveza da garoa fina.

  • Modo Economia de Energia

    Vamos falar de bateria social? Para mim, está cada vez mais difícil não prestar atenção, calibrar, recarregar ou mesmo optar se devo usar essa tal ferramenta.

    Todos os dias eu percebo o quanto ela está se tornando indispensável e necessária em nossas vidas.

    Em muitas situações parece existir um desgaste nas relações sociais, talvez pelo cansaço de se expor ao outro, ao julgamento, às interações forçadas.

    Quando mais jovem, eu ouvia contarem que a pessoa estava ficando “rabugenta.”

    Coisas do tipo: não liga não, ela agora deu de falar o que bem entende, sem filtro e sem papas na língua!

    E eu morria de medo dessas pessoas, “sem papas na língua”.

    Bom, considerando que fui uma entre tantos irmãos, oriunda de família grande, pais ocupados e práticos na função de suprir e educar os filhos, tios e tias intrometidos em nossa vida e rotina, eu meio que optei por não ser a mais vista, nem a mais ouvida e nem a mais falante no dia a dia daquele caos chamado família.

    E quem não aparece, não se estabelece, não é? Vivi isso na adolescência e durante mais alguns poucos anos…

    Mas a vida exigiu que eu mudasse, e ao entrar no mercado de trabalho e viver as relações corporativas, por muitos anos fui considerada a colega, ou a chefe, de língua afiada.

    Sem rodeios, eu dizia o que achava daquela situação, ou do comportamento, da falta de atenção, do erro primário ou não.

    De constrangida, passei a constrangedora.

    Hoje, como uma boa observadora que sou, noto que voltei aos primeiros anos da minha vida de adulta.

    Prefiro me fazer de “sonsa”. Se recebo uma observação dura, tipo: “Nossa, como você engordou”, faço de conta que aquela fala não me afetou. Embora eu me sinta mal ou injustiçada.

    A voz no tom mais alto, a observação ferina, a falta de noção, a invasão de privacidade,continuam aí, fazem parte do mundo, das relações interpessoais.

    E eu, por comodismo ou covardia, calibro a minha bateria social.

    Evito quem já conheço como ácido, me afasto de rodinhas de sorrisos falsos e alfinetadas, prefiro a conversa em dupla, bloqueio até motoristas de Uber não simpáticos.

    Sou daquelas pessoas que conhecem os vizinhos, mas não adoram as conversas “inofensivas” entre si.

    Estou trabalhando muito sobre o convívio real, mesmo porque estou longe de me tornar como os monges, que cultuam o silêncio.

    De forma consciente construo a minha maneira de ser, busco o equilíbrio nas interações reais, evito fazer do emoji diário o substituto para falar ou saber como a pessoa está.

    O problema está em “escolher” quem eu acho que merece isso de mim…

    Aí entra a questão central de trabalhar a minha pouca disposição em ampliar o meu radar amistoso.

    De todo modo, sinto que ainda quero fazer jus a não ter só a falsa aparência de pessoa maravilhosa, tranquila, amena, bondosa, de fácil convívio, aquela que é “um amor de pessoa”.

    E assim sigo: um monge de batom, um ser iluminado que finge não ouvir desaforos.

    Tudo em nome da paz… ou da minha paciência, que está sempre no modo “economia de energia”.

    Porque, no fim, quem tem bateria social fraca, precisa saber onde vale a pena gastar os últimos 3%.

    Maria Elza

  • Reflexões XXVI – Aula diária

    Maduro é o “nome” que se dá a quem está entre 40 e 60 anos.

    Velho/Idoso/Terceira Idade, são os títulos que se dá a quem tem 6O,70, 80, 90.

    E os anciões?! Sim, os que tem idades entre os 90 e até mesmo acima de 100 anos. Temos anciões, sim! Sabemos dos famosos, mas e os idosos anônimos que vivem pelo mundo à fora?

    Estamos envelhecendo mais, a medicina avançou e o mundo também se modernizou, em todos os aspectos. 

    Estou Velha, Idosa e na Terceira Idade mas, não deixo de aprender, pois a vida é uma escola e TEMOS AULAS TODOS OS DIAS! 

    Maria Elza🌷

  • No Nada, o Tudo!

    Costumo rezar sozinha.

    Não por falta de fé coletiva, mas por necessidade de compreender o sentido da prece: se é pedido, agradecimento ou louvor.

    Nas igrejas e templos , percebo a oração como um ato comunitário.

    Já em casa, no silêncio, ela se transforma em diálogo íntimo, sem medo nem pressa.

    Essa percepção nasceu dos meus intervalos de “nada a fazer”.

    Paradoxalmente, nesses vazios sempre encontrei invenção e força.

    A vida me exigiu muito cedo: de menina curiosa a mulher adulta, mãe de quatro filhos, de cuidada a cuidadora. 

    Entre tarefas e cansaços, descobri nos pensamentos e nas preces uma forma de preservar a sanidade.

    Hoje, quando paro para divagar, também observo o mundo:

    as preocupações das pessoas, a política que interfere em suas vidas, as esperanças ou frustrações, diante do futuro.

    Nesse cenário, a prece mostra a sua força e valor.

    Rezar não apenas pelas suas necessidades individuais e íntimas, por si e pelos seus ; que ela seja extensiva, coletiva : pela chuva, pelos desamparados, pelos que sofrem injustiças, pela humanidade, enfim.

    É um gesto que acalma a mente e fortalece o espírito.

    Não me envergonho de reconhecer o valor dessas pausas.

    Ao contrário: me aplaudo.

    Trago comigo amor-próprio, antídoto contra julgamentos dos que pensam de forma contrária.

    Manoel de Barros dizia que algumas pessoas parecem carregar “água em peneira”. Apenas existir.

    De certo modo, essa é a nossa tendência, até que despertemos.

    Até que tenhamos consciência.

    Nos instantes que pareciam não servir para nada, encontrei a diferença entre rezar em silêncio ou em coro, com a comunidade. Mas sobretudo, rezar. Diariamente, com a consciência e o coração. Hoje eu posso dizer: no meu nada, a oração se fez tudo.

    Reze… Confie e reze. Dessa forma a sua percepção de vida não se tornará em apenas “um dia após o outro”. Acredite!

    Maria Elza
  • Sonhos Juvenis

    09/08/25

    Eu queria amar! Quem manda ficar lendo livros românticos? Não devo culpar os escritores. Não eram heroínas épicas, grandiosas, orgulhosas, princesas.

    Nem moças descendentes de famílias tradicionais, preparadas para encontrar namorado entre os filhos dos frequentadores das altas rodas, da elite, ou filhos de amigos poderosos como os próprios pais, também. Casamentos entre iguais, diriam as interessadas mães.

    Se minhas heroínas fossem essas, eu não teria criado falsas ilusões. Embora eu deva confessar: lia tudo que me caía às mãos!

    Tanto é que sei distinguir as grandes heroínas das moças comuns. As do meu universo, eu via, conhecia, mesmo que fosse só de passagem, e, de certa forma, eu me assemelhava a elas.

    Colegas de escola, filhas de senhoras conhecidas, de donos de lojas, de pessoas a quem se dava bom dia ou boa tarde, e diriam: passou aqui a filha de fulano, ela já é uma mocinha.

    Esse era o mundo ao qual eu pertencia. Fisicamente.

    Porque, em pensamentos, eu vivia grandes amores, conhecia novas cidades, era razão de disputa entre rapazes. E o herói sempre se apaixona pela mocinha. No caso, eu. Eu e meus sonhos juvenis.

    Sonhava com o amor selvagem, sensual, e a imagem de quem seria o homem amado mexia com meus sentidos.

    — Onde você está com a cabeça, Anita?

    — Oi, professor, em nenhum lugar. Estou aqui.

    — Não respondeu à chamada. Podia te dar falta.

    — Desculpe, professor. Presente!

    Não respondia por estar viajando… em suas mãos, em seus braços, nos músculos da perna que se adivinhavam debaixo do linho branco de sua calça.

    “Que homem bonito”, pensava.

    Sorte tem a prof. Marta em ser casada com um homem desses.

    De onde saíam esses pensamentos? Ah, com certeza, dos hormônios em rebuliço em meu corpo de adolescente.

    Mas a principal fonte era dos livros de amor que passavam de mão em mão entre os colegas da escola.

    — Trouxe?

    — Calma, vou terminar no recreio e te dou. Não consegui ler ontem. Minha mãe estava na costura, como sempre, mas meu pai ficou em casa.

    — E eu tenho só dois dias para ler. Sábado meu pai chega da fazenda.

    — Tá bom, tá bom.

    Na verdade, a forma como despertamos para o amor, a paixão ou o que chamamos de fraquezas humanas não faz a menor diferença.

    A natureza e o homem, esses têm suas próprias ordens e leis. Quem poderá definir onde começa um ou outro?

    Bom mesmo é lembrar-me da época. Dos devaneios. Da imaginação. Oh, juventude! Como o viver era leve!

    Maria Elza.

  • Estou Pobre de Heroínas.

    Neste site, onde publicamos crônicas, poemas, contos e reflexões, existe uma aba chamada Autores. Lá está a nossa descrição: quem somos, o que nos qualifica como escritores, nossa formação.

    Enfim, um retrato resumido de cada um.

    Tenho filhos, netos, família e amigos. Estudo. Publiquei livros de contos e crônicas, além da minha autobiografia. Tenho três graduações, fiz pós-graduação e posso afirmar: estudar foi e, ainda é parte importante de quem sou.

    No entanto, minhas referências como autora em “nosso site” são as pautas que me inquietavam quando decidi me dedicar exclusivamente à escrita: envelhecer e parar de trabalhar.

    Dois dilemas que me ocupavam a mente, provocavam reflexões e despertavam temores.

    Águas passadas…

    Aposentei-me entre os cinquenta e oito e os sessenta e seis anos.

    Nesse intervalo, flertei com a leveza de não ter horários, com a liberdade de escapar da rigidez hierárquica, da dureza das opiniões e de tudo aquilo em que me transformara como funcionária pública.

    Passei a ser uma estagiária sênior.

    Gostei! E, quando cansei, deixei de vez a vida pública e me tornei aposentada.

    Quanto ao envelhecer, só me dei conta quando troquei o batom vermelho pelo “cor de boca”; quando substituí os saltos pelos tênis, seja por conforto, seja por questões físicas.

    Aos sessenta e nove anos, saudei a minha velhice com um poema. Fiz isso com galhardia, consciência e verdade.

    Resolvidos, portanto, os dilemas da idade e do tempo ocioso, restava-me outra inquietação: quem seriam, agora, as minhas heroínas?

    As heroínas!

    Aquelas que, das páginas dos romances, nos forjaram, inspiraram, despertaram inveja ou compaixão.

    Mulheres que nos fizeram pensar não só em nós mesmas, mas no mundo, nas relações, em nossos direitos…

    Ou aquelas de quem apenas copiamos modelos de roupas ou frases de efeito.

    As mocinhas destemidas, submissas ou valentes, lindas e amadas.

    E também as que sofriam, ou faziam sofrer, a quem condenávamos ou aplaudíamos.

    Também conhecemos personagens que, mesmo em sua feiúra ou pequenez, nos fascinaram a ponto de não conseguirmos abandonar a leitura antes do fim.

    Mulheres descritas de forma nua e crua, com falhas humanas, como aquela que, ao perder a beleza e os prazeres da carne, passou a comer sem parar até se tornar obesa em Shangri-la, o Horizonte Perdido?

    Ou a governanta cruel de Primo Basílio?

    O que dizer de Madame Bovary, no misto de idealização romântica, insatisfação crônica e busca por relações insustentáveis?

    Tudo mesmo já foi dito, escrito, lido?

    Não haverá mais heroínas que possam me inspirar?

    Ou será que elas continuam escondidas nas entrelinhas, aguardando que eu as descubra, como quem abre uma janela e deixa entrar um sopro de vento novo?

    Quero ainda me surpreender, enternecer, admirar…

    No meio da multidão, no silêncio dos asilos, nos cabelos brancos exaltados pelo modismo, eu busco, eu quero, eu preciso.

    Onde estão minhas heroínas?

    Maria Elza

  • A Troca

    Na quietude da noite, em meio ao escuro do quarto, eles iniciam uma conversa.
    Uns indignados, outros seguros de si, e alguns, incrédulos.
    Como todos a conhecem, não poderia ser diferente.
    —  Naturalmente, diz o preto, eu me
    garanto; vou com ela aos mais diversos lugares, do escritório às noitadas, restaurantes e bailes. Comigo ela fica tranquila, sabe que não sou inconveniente.  Dou segurança e conforto. Portanto, serei o último a ser trocado ou nem isso, podem apostar!
    — Querido, presta atenção!
    Sabemos o quanto você a atende  e, por isso, acaba sendo o preferido. Mas não  pense que é pela sua cor.
    Eu por exemplo!
    Também vou a todos os lugares, sou seguro, discreto e tudo mais.
    — Alguém me nota?  Só se for para perguntar onde ela me encontrou. E suas amigas ainda dizem: com esse não tem erro! A cor não é o ponto da questão, já que sou considerado pardo.
    — Verdade! eles dizem, ao mesmo tempo.
    — Eu não sei de nada, pois sou a companhia certa dela para irmos em casamentos, batizados e ocasiões especiais. Estranho seria se não fosse assim. Só os brancos me entenderão!
    Eles estavam ali, no quarto dela, discutindo, buscando entender o que havia.

    Tudo aconteceu muito rápido.


    Há pouco tempo, ela ficava dois ou tres dias em casa, resfriada talvez; aos finais de semana ia à praia, ou então apenas descansava em sua rede com os pés descalços, lendo um livro. E eles permaneciam tranquilos a aguardando.
    Depois, ela passou a quase não sair mais de casa. Separou peças do guarda roupa, colocou em sacolas, etiquetou, limpou gavetas, caixas de quinquilharias e foi arejando o seu quarto.
    Na manhã que a amiga foi buscar as sacolas de doações, eles entenderam tudo.
    Seriam descartados!
    E essa foi a razão da surpresa e da conversa noturna.
    — Ela não nos traiu, disse o preto.
    Mesmo quando trouxe para casa os baixinhos disfarçados, marrentos e cheios de si, ela nos revezou entre eles.
    — Embora cada vez menos nos procurasse, um deles resmunga com um muxoxo.

    Nada mais havia a ser dito.


    A discussão terminou, a Reflexão se impôs e disse:
    — Imaginem como não deve ser fácil para ela nos deixar ir embora.
    Somos amados, bons, fortes e de qualidade. Ainda podemos ser úteis e
    parceiros de outras mulheres.
    E ela?
    O Amor responde:
    — Fizemos parte da sua vida e amar significa deixar espaço para o novo.
    Nada é descartado ou trocado. Nem coisas e nem pessoas.
    Ela está bem.
    E vocês também ficarão. 
    Portanto, entrem em suas caixas, vamos!
    — De fato, disse o mais antigo…
    E aos pares, foram se acomodando.
    É o ciclo da vida, resumiu o amarelo.

    Maria Elza

  • Calendário

    E lá vamos nós para mais um daqueles dias “disso” ou “daquilo”, que não conhecíamos, mas que brotam do calendário com a maior certeza.

    É dia do beijo, dia do abraço, dia do irmão, dia nacional do homem (15 de julho).

    Há dias que eu aplaudo. Sem trocadilhos. Entendo que são mesmo necessários, que devem estar marcados nos calendários como forma de lembrar a importância do que se comemora.

    Dou como exemplo o dia 13 de novembro. Adivinhem de que é? Dia Mundial da Gentileza!

    Sim, e gentileza precisa ser comemorada, lembrada e, sobretudo, praticada.

    O bordão “gentileza gera gentileza” precisa ser real. Devia mesmo circular entre as pessoas. Podia “pegar”, como se pega um resfriado: bastava passar perto, estar no mesmo ambiente.

    Exagerei? Pode ser…

    Retrocedo. Serei gentil com minhas ideias.

    De todo modo, penso que  devíamos contabilizar, anotar, conferir as demonstrações gentis. E copiar, imitar, fazer igual, introjetar, tornar um hábito.

    O mundo ficaria bem mais ameno. A hostilidade seria a exceção. E, quem sabe, o “dane-se” entraria em extinção.

    Então, senhores, vamos proclamar mais o que agrada ao espírito, o que nos dignifica como seres humanos e nos coloca na dimensão de pessoas afáveis e cordiais.

    Tenho certeza de que essa prática tem o poder de desarmar muitos gatilhos…

    Ah, em tempo: hoje, 20 de julho, é o Dia do Amigo.

    Sendo assim, caro leitor, vamos nos cumprimentar: Feliz Dia do Amigo!

    Maria Elza

  • Minhas Histórias – Semente, Flor e Fruto

    Nossos pais nos educam no dia a dia, no convívio familiar. Na escola aprendemos a ler, ter cultura, cidadania, socializar. É a nossa formação inicial para a vida. Ali iniciamos a formação do caráter que vai definir o adulto que nos tornaremos.

    Já a literatura, para além do prazer da leitura, atua na sensibilidade, na imaginação moral e na capacidade de compreender a complexidade humana, e também forma a pessoa que nos tornamos, de forma mais abrangente, na dimensão da vida, do mundo.

    Ler amplia o horizonte; sem sair de casa interagimos com pessoas diversas, conhecemos países e outros continentes, somos colocados frente a frente com dilemas, vivências e exemplos de vida. 

    Ao elaborar questões existenciais, vivenciar as angústias, os erros e dúvidas dos personagens, tanto dos vilões quanto dos heróis, vamos forjando a nossa própria personalidade. A ética, os valores e a consciência passam a ser naturais, nao algo que se ensina. Isso foi o que eu vivi e vivo. Sem falsa modéstia.

    Tive a sorte de nascer em um lar improvável: um homem culto e uma mulher simples e guerreira. A noite e o dia, o sol e a chuva.

    Meu exemplo de vida era ver minha mãe em sua luta diária : muitos filhos, dificuldades, poucas perspectivas de mudança. E meu pai, na batalha para pôr o pão na mesa.

    Foi dali, daquela família, que eu saí para o mundo.

    Não pronta, mas com roteiro e bagagem.

    A mim cabia ter coragem.

    A natureza e a juventude seguiram o curso natural da vida. Tão natural que, ainda adolescente, engravidei e me casei aos 16 anos.

    Me culpei, nos castiguei…Casamento às pressas, desengano aos poucos.

    Cenário pronto para repetir o ciclo de vida da minha mãe.

    Mas eu tive mais do que ela.

    Conheci o mundo através dos livros. Aprendi que heroínas não se fazem sem audácia e sem lutas.

    E eu era uma delas, pois sentia, com uma certeza febril, que era semente, flor e fruto. Mesmo que no íntimo houvesse sustos e medos ainda desconhecidos.

    O estudo e o amor pelos livros me deram conhecimento e condições para saber que meu destino podia ser melhor.

    O espírito, grávido de emoções… a vida exigindo força e vigor.

    O equilíbrio incerto e os desafios áridos. 

    Estudar, lavar roupas, ajudar nas tarefas das crianças, estender fraldas nos varais como bandeiras brancas ao vento, cuidar de vacinas, piolhos, resfriados e espinhos no pé, estudar, pesquisar, ler, cumprir prazos, apagar a luz, cair na cama e dormir.

    Heroínas diversas, bandidas, distintas, rasteiras, rameiras, donzelas e santas. Centenas delas, madrugada adentro, à luz de um lampião.

    Vivi isso por longos onze anos. Planta rasteira. Flores. Frutos.

    Desistir? Nunca!

    Pensamentos de derrota? Muitos!

    Resiliência, teimosia, orgulho?Constantes, fortes, intensos. 

    Juventude, saúde, corpo jovem e forte. Determinação, “estofo moral”, vontade férrea, fé.

    Viver e vencer exige gritos e não admite sussurros.

    A audácia, a valentia, o movimento se sobrepõe; o sapo é engolido.

    A literatura clareia a mente, a esperança e a fé preenche o coração.

    As dúvidas e respostas norteiam a jornada.

    Filhos criados, primeira infância vencida, segundo grau completo, faculdade, concurso, liberdade financeira, a vida segue, o tempo não espera.

    Sentimentos diversos, “cãs prematuras”, décadas fugazes, lembranças esmaecidas, tristezas esquecidas, alegrias conquistadas, família, amigos, filhos, netos, leitores. 

    Escrever…ler…A vida é um livro, as linhas retas são as mestras e nas entrelinhas se encontra a riqueza dos espantos genuínos, constatações estranhas e descobertas surpreendentes.

    Sigamos! Ainda há muito a ouvir, falar e dançar. Até que desça o pano, somos os atores deste espetáculo chamado vida, de quem somos os convidados especiais!

    Maria Elza

  • Minhas Histórias – Tempo de Quaresma

    Ilustração ChatGPT

    Há dias venho pensando. Em quê? No tempo, esse estranho tão íntimo de nós. Culpado, amado, detestado. Ele simplesmente é.

    Nunca, em toda minha vida, me ocupei em entender ou julgar o período de tempo, chamado Quaresma.

    Não precisava pensar. Vivia-se a Quaresma!
    Lembro-me da infância… Meu pai, minha mãe, abuelas, tios e primos, todos paraguaios de origem. Nesse espaço de dias, a vida ganhava um tom especial. Para nós, crianças, era uma época de brincar com os primos, comer coisas gostosas e ser quase invisíveis para os adultos, ocupados com a Quaresma.

    Durante quarenta dias, em nossa casa e na de outras famílias, acontecia a “reza do terço.”

    Alguém puxava a oração e todos seguiam. Minha lembrança ficou impregnada do sotaque e do ritmo cantado: “Dios te salve, reina, llena de gracia”, “En el nombre del Padre, del Hijo y del Espíritu Santo”.
    Esse era o ponto alto dos dias da quaresma: rezar em família, com vizinhos e amigos, ora em casa de um, ora de outro. E todos participavam do ritual, que anunciava a chegada da Semana Santa, período santo do calendário da Igreja Católica Apostólica Romana.

    Minha saudade é longínqua… parece pertencer a outra vida.
    Ainda sou emotiva, arquivo belezas, enfeito lembranças. Mesmo que só eu saiba.

    A vida tem outro ritmo, as pessoas têm seus próprios interesses, e quase ninguém quer saber das coisas do tempo que não conheceram.

    Escrevo e me surpreendo. Como assim? Como essas mudanças aconteceram? Se estou aqui rememorando o que vi e vivi, quando e como tudo se transformou? As crianças e adolescentes de hoje terão memórias afetivas? O que estão arquivando como lembranças?


    Ao escrever e me fazer essas perguntas, não pretendo criar polêmica nem impor meus pontos de vista. Apenas organizo minhas ideias, num misto de lembranças, imaginação e invenção. Nesse redemoinho de pensamentos, entre o real e o irreal, descortino meus contentamentos, dilemas e contradições.
    Sei que me arrisco, mas, como já disseram, “se minhas palavras ecoarem em ao menos uma pessoa, respirarei aliviada: não estou só”.


    E seguirei buscando, na vida e na imaginação, o que me preenche a alma. 

    Hoje estou me banhando em águas de saudades…dos dias da Quaresma da minha infância!

    E você? Também tem a sua tradição familiar ? De todo modo eu digo:
    — Se você comunga da fé católica, sei que o tempo da Quaresma é tão forte e significativo, tanto para você, como é para mim!

    E isso é o que meu coração deseja!

  • Realidade x Fantasia

    Ilustração por ChatGPT

    A história de um homem que lê romances nos leva a indagar: quais são os limites entre a realidade e a ficção?

    Sim, porque deve haver esse limite! João tem trabalho, esposa, filhos, contas a pagar, mãe a visitar, futebol aos sábados e todas as minudências que se entrelaçam e constroem o seu cotidiano.

    Seria ele capaz de viver totalmente a realidade da vida ou, ao contrário, andaria com a cabeça nas nuvens, dialogando longamente com os personagens dos contos e romances que lê?

    João é ajudante de marceneiro. Seu trabalho é colar, cortar, pregar — um ofício concreto, também do ponto de vista mental.

    Ele tem o hábito de ler.

    Lia romances longos, livros de muitas páginas. Mas isso foi antes de ser o João que se tornou…

    Nem lembra quando mudou.

    Mas sente que precisa ler, espairecer a mente, respirar…

    E é isso que aqueles pequenos livretos trazem para sua vida: bangue-bangues, espiões, luxúrias, mulheres, falta de pudores, conflitos, brigas de poder e tantos outros universos tão distintos daquele em que vive.

    Além disso, por serem de bolso, podem ser lidos em pé, encostado no muro enquanto espera o ônibus — ou no banheiro.

    João não quer que nada o impeça de mergulhar em outros mundos.

    Ele precisa da vida que há nos livros.

    O mundo da ficção o rouba da sua rotina… Ao ler, seu universo se amplia e ele esquece quem é.

    João, então, anseia pelo seu tempo.

    Quando, ao meio-dia, com o triste prato nas mãos, almoça no alpendre — o corpo mal alinhado na cadeira, mastigando por hábito o arroz com feijão — sua mente frenética revive as peripécias do marido indolente ou as fofocas das esposas entediadas do romance que está lendo.

    Mas a realidade está ali: é a Maria, sua mulher; o Joãozinho, seu filho; são os colegas de trabalho, a mãe que se preocupa com ele; as pessoas reais, a vida, enfim.

    A vida onde o corpo está presente e a mente, ausente.

    Distrai-se relembrando o gatinho sapeca que pertence ao garoto da história que está lendo, e sorri.

    Ou dá asas à imaginação tentando descobrir se a protagonista vai trair o marido, ou se o diretor de filmes realmente produzirá e lançará ao sucesso a jovem atriz com quem flerta.

    E, nessas horas, suas sobrancelhas falam por ele.

    Só ele não percebe o quão transparente é!

    Ainda assim, quando a luz do dia se esvai, Maria não sabe dizer se João está de fato cansado ou se quer apenas se recolher para viver, a sós, sua vida submersa.

    A vida real corre frouxa: o jardim cheio de carrapichos, mais uma ninhada de gatos, as calças do filho com a barra já nos tornozelos.

    A natureza modifica os dias — o sol quente do verão dá lugar ao céu azul que prenuncia o outono.

    Maria já levou João três vezes ao parque, sempre sozinha.

    E assim a vida vai passando.

    Até que, um dia, cansada da mesmice, Maria se olha no espelho de um jeito estranho.

    E, assim que João sai para o trabalho e Joãozinho para a escola, ela sai de casa, toma o ônibus e dirige-se apressadamente para os arredores da cidade.

    Sem preâmbulos, aproxima-se do parque de diversões, onde os brinquedos estão sendo desmontados e colocados em um caminhão.

    — José, José… já resolvi. Vou para onde você quiser!

    — E o menino?

    — O pai vai cuidar. Fica tranquilo.

    Isso é tudo que João precisa — diz Maria, ficando na ponta dos pés para receber o beijo de José.

    Ele adora a vida de faz de conta, e eu quero a vida real.

    É isso, José!

    Quero viver o meu romance!

    Com você! Vamos?

    Maria Elza.

  • Felícia e a Madrugada

    Acordei…

    Felícia se achegou, ronronando.

    Olhei o visor do celular e apenas passei a mão nela, a minha gata, amiga e companheira.

    Ela acordou… Mas, na dúvida se eu também dou minha noite por terminada, não faz nenhuma menção de se levantar. Mas isso é o que ela quer. Assim que eu colocar o pé no chão, ela já estará lá adiante…

    Nem a olhei, mas sei.

    É madrugada…não é hora dela comer.

    Me acomodo e fecho os olhos… Se ela tem seus truques, eu também desenvolvi os meus.

    A convivência, a rotina, fazem dessas coisas.

    Eu e ela não brigamos, nem criamos traumas.

    O que não é tão comum entre pessoas, ah não!

    Como assim?

    Ora, se não há conflitos, os experts em palestras, cursos, imersões e demais produtos para destravar “gatilhos”, curar a criança interior, ressignificar e todas essas maravilhas… não sobreviveriam!

    A rede social nos acena com tudo de que precisamos para viver bem.

    Se não estivermos “alinhados”, a solução está aí, ao nosso alcance. Em suaves, ou nem tanto, parcelas mensais.

    Pelo volume de terapias, cursos e tratamentos alardeados, os humanos, já deveriam estar a um passo da perfeição.

    É inadmissível que nós, pessoas esclarecidas e atualizadas com as inúmeras soluções disponíveis, ainda não estejamos “terapeutizados” e vivendo prósperos e felizes! E dormindo bem…

    Mas o que Felícia tem a ver com isso?

    Nada. E tudo.

    A sua postura nobre, o olhar de esfinge, o desdém ao ver que me aconcheguei de volta aos lençóis… tudo me mostra que a serenidade é um luxo.

    É madrugada.

    “Não nos levantaremos ainda”, penso, suspirando.

    Ela apenas abaixa a carinha nos lençóis e fica com os olhos semiabertos.

    Serena. “Quem está com insônia não sou eu” é o seu recado.

    Resolvi aproveitar o tempo e procurei alguma leitura interessante no celular.

    Lixo.

    Anúncios de coachs, vendedores de pós (não me entendam mal!) e chás para reumatismos, gastrites, quedas de cabelo, impotência; e o que mais você precisar. Lixo…

    Mais uma vez, olho a hora no mostrador do celular.

    Ela avançou, mas o sono não retornou…

    Continuo a me ocupar no infinito mundo virtual, até que chego ao Threads…

    Não. Não posso chegar ao fundo do poço.

    Felícia? Plácida e serena, dorme.

    Não é ela que tem insônia. Ela não tem truques.

    Ela não é humana…

    Cubro a cabeça e retomo o velho e eficiente conselho dos meus avós:

    Contar carneirinhos.

    Felícia dorme…

    Maria Elza.

  • Existir ou Exibir-se?

    Em tempos de redes sociais, todos sabem de tudo.

    Há os que entendem mais de determinados assuntos e se tornam mentores ou especialistas disso e daquilo; os que vendem cursos, os que criam clubes de assinaturas para seguidores fiéis, os novos ricos ensinando como ser um “farialimers”, os ricos tradicionais mostrando a arte de se exibir com classe… e por aí vai.

    Essa é apenas uma das muitas faces do mundo virtual.

    No outro extremo, existe a antítese: perfis que promovem festivais de conteúdos inacreditáveis.

    Partem do ridículo ao nonsense, passando pelo bizarro,  causando vexame e a famosa “vergonha alheia”. 

    De maneira informal utiliza-se o termo “brain rot” para designar aqueles que são contumazes e até viciados nos conteúdos dessa categoria. É como um “apodrecimento cerebral”, pois não acrescenta nada ao intelecto e este se habitua ao conteúdo repetitivo e sem esforço mental, uma vez que a intenção de quem o produz é chocar, provocar, chamar atenção com o inacreditável, com o esculacho.

    E nesse jogo de aparências, quem realmente vive? Quem apenas se exibe?”

    Nos dois exemplos, a mola propulsora é a mesma: exibir, ver, ser visto.

    Alimentar-se de views, de seguidores, de patrocínios, de fama.

    Ensinar, aprender, fazer dancinha, engolir larvas… qualquer ideia maluca serve, desde que gere cliques.

    O mundo virtual é impalpável. Inodoro. Descartável.

    Com um clique, algo ganha o mundo, acumula milhares de seguidores, fama, patrocínio, dinheiro. E, da mesma forma, some da cena. Pode ser cancelado, esquecido, substituído. Deixa de existir.

    Isso dá uma sensação de impunidade. Ou de liberdade absoluta. Ou de qualquer outra coisa que você possa imaginar.

    Porque no mundo virtual, não há limites.

    Ou há?

    Maria Elza.

  • 1ª Viagem

    Rio de Janeiro

    Jovem Mulher Com Mala Na Mão Indo Embora Por Uma Estrada De Campo ...

    Crônica de Maria Elza

    Quando menina, sonhava em conhecer o mundo.

    Ao olhar o horizonte, sentia vontade de alcançar o que houvesse atrás daquela linha: um país, um planeta, um destino onde eu colocara minha alma e os sonhos de felicidade. Muitas vezes atravessei, em pensamento, as fronteiras das minhas próprias fantasias.

    Até que, afinal, tive a oportunidade de ir ao encontro do que entendia ser “a linha do horizonte.”

    Eu tinha 28 anos, uma jovem mãe de quatro filhos, cujos sonhos nada tinham a ver com a realidade. Mas, por um feliz acaso, pude viajar pela primeira vez, deixando para trás as parcas luzes da cidadezinha onde nasci e cresci. Primeira viagem de avião, coração cheio de expectativas. Meu destino: Rio de Janeiro.

    E conhecer o novo, pelas mãos do meu primo João, tornou tudo mais leve e precioso. Gostei de imediato do codinome: Cidade Maravilhosa.

    Os arranha-céus, viadutos, estátuas, o trânsito… tudo era inusitado, extravagante. Histórias surpreendentes, fatos inacreditáveis! O riso partilhado, o arregalar de olhos. Ah, meu guia… ninguém jamais ocupou o seu lugar! Com quem mais somos iguais, senão com os nossos iguais?

    Visitamos o Museu do Catete, entrando pelo pátio dos fundos, passamos pela garagem de carruagens e desembocamos no frenesi de uma grande avenida. O antigo e o novo, lado a lado: encantador!

    Outro episódio inesquecível foi o almoço na casa de uma pessoa à qual se referiam com deferência.

    Uma senhora distinta, da qual sempre diziam: “É a madrinha do seu marido”, como se me lembrassem: comporte-se à altura.

    Chegamos perto do meio-dia, eu e João. Nenhum sinal de correria na cozinha, nada da algazarra alegre que sempre marcou os encontros de domingo na minha família do interior, onde a mesa é farta e variada. A conversa girava em torno do trânsito, do tempo, das novidades da metrópole. Eu, como esposa do afilhado, sentia-me importante: era a visita.

    Até que a anfitriã disse com naturalidade:

    — Vou preparar uma massa para nós.

    Seguimos com ela até a cozinha, dispostos a ajudar. A cena me deixou intrigada: panela de água no fogo, uma lata de molho retirada do armário, abridor entregue ao meu primo, toalha de mesa nas minhas mãos. Em pouco tempo, o almoço estava servido: uma travessa de raviólis pré-cozidos, cobertos com molho pronto, acompanhados de torradas.

    Guardei aquela experiência como uma lição: almoço de domingo, para mim, só o da minha grande família.

    Ainda nessa viagem, tive meu primeiro contato com o mar. Toquei a água com a ponta dos dedos e os levei à boca, só para confirmar se era mesmo salgada.

    João, cheio de sonhos como eu, ensaiava uma peça de teatro. Ao pôr do sol, com o oceano ao fundo, sentou-se aos pés de um monumento e recitou o monólogo de sua estreia.

    Foi indescritível!

    Eu, uma jovem curiosa diante do mundo, entendi ali que vivia o sonho mais incrível da garota que fui.

    E mesmo que décadas tenham se passado, a sensação e a emoção da minha primeira viagem permanecem as mesmas.

    Maria Elza

  • Minhas Histórias – Minha Família
    A trajetória da minha vida teve como principal característica a família e o senso familiar. Minha origem, ancestralidade e descendência foram e são os maiores valores que eu tenho. Contar as historias, lembrar datas, costumes e vivências para ultrapassar gerações! Estes são os meus filhos e suas famílias. Que Deus os abençoe, como me abençoou ao me tornar mãe!
  • Após a Tempestade

    Um raio seguido do ribombar de um trovão iluminou o entardecer por vários segundos. As frestas das janelas batiam, o vento zunia, a água da chuva caía forte jorrando com grande estardalhaço nas calhas de contenção, sobre a marquise do prédio.


    Paula acordou com o barulho do temporal. Custou a situar-se no tempo e no espaço. Celular sem bateria, o dia indo embora. Como assim? Era entardecer quando aconteceu tudo e agora noite ainda?
    Ela saiu do quarto e ficou olhando para a chuva pela janela da sala, absorta em seus pensamentos.

    Como um autômato olhava sem ver.
    Abriu a geladeira, pegou um refrigerante, sentou-se e olhou de verdade, para a chuva que caía.

    Que ainda cai”, ela murmura. Sorveu lentamente o líquido marrom do copo e fez uma analogia: “escuro como eu”.


    Sentiu frio, ergueu os pés na cadeira e enrolou-se em seu roupão, a cabeça enterrada entre os joelhos. Uma imagem desoladora.

    Uma mulher, uma cozinha fria, sem panelas ao fogo, nem um café fumegante, menos ainda, um gato ronronando.
    Olhou o copo vazio, percebeu que não faria diferença se tivesse tomado água…


    Continuava desconcertada, enrolada em si mesma, sem saber o que fazer. Paula nunca se sentiu tão só. Para quem ligar, como enfrentar o que houve?
    Os braços em volta das pernas, deitou a cabeça e rememorou tudo.

    Estava escurecendo, talvez fosse dezoito horas. O movimento da rua molhada, não estava tão característico, como era em todos os dias em que deixava o prédio.

    Era sexta-feira e ela saiu mais cedo do seu escritório. Havia deixado o carro rente à calçada, já com o objetivo de pegar menos trânsito. Entrou rapidamente em seu automóvel, e ao manobrar a marcha a ré sentiu que bateu em algo. Não foi uma batida tão forte, mas ouviu o barulho de alguma coisa cair.
    Olhou pelo retrovisor, uma roda de bicicleta rodava e rodava no ar.


    Pisou fundo no acelerador e se afastou do local, espiando amedrontada para os lados.
    Nunca imaginou fugir de um acidente. Mas o pavor gelou seu sangue e ela saiu rapidamente imaginando as manchetes: “Advogada atropela e mata ciclista”.


    Dirigiu por algumas quadras, entrou em uma ruazinha sem movimento, e encostou o carro, sem desligar. Respirou e inspirou o ar até diminuir as batidas do seu coração. Enxugou as mãos em seu casaco. Gotas de suor brotavam de sua fronte, apesar do ar condicionado do carro ligado.


    Minutos depois retomou seu caminho, em lágrimas, mal enxergando as luzes das ruas ; em sua cabeça ecoavam vozes acusadoras. Por que não parou o carro e foi ver o que aconteceu? Teria sido uma bicicleta estacionada na calçada? E se o baque que ouviu foi de um corpo? E se a pessoa morreu?


    Chegou em seu prédio, entrou e olhou o seu jeep. Mal se percebia um arranhão, com pequeno descascado na lataria. Ela o estacionou ao contrário, com a traseira para a parede e subiu rapidamente.
    Tomou um banho, engoliu dois comprimidos para dormir e caiu em sua cama.


    E agora, 24 horas depois, ela se dá conta de tudo o que aconteceu

    Sentada em sua cozinha, frente a frente com o acontecido, sem saber que atitude tomar e quais seriam as consequências.

    Toca a campainha. Paula estremece. Pensa em fugir, sair pela porta dos fundos, descer as escadas de incêndio do prédio, esgueirar-se pelos vãos de encanamentos de água e gás e fugir, fugir!


    No entanto, sabe que não fará isso. Ela suspira e mesmo sentindo temor do que virá, o medo impregnado em cada fibra e músculo do seu corpo, resignada, ela vai até a sala abrir a porta.

    No vão da porta, de short de ciclista, capacete oval na cabeça, camiseta manga comprida colada ao corpo, luvas cobrindo o dorso da mão, um rapaz desconhecido.
    — Oi! — Paula, não é? Ela faz um sinal afirmativo com a cabeça.
    — Sou o Gustavo, seu vizinho.
    — Paula abre a boca, mas não sai nem um som.
    — Gustavo sorri e pergunta — Posso entrar?
    — Entra, por favor.

    Ficaram ali, um olhando para o outro, em pé no meio da sala.

    — Então, Paula. Desculpa, deixa eu me apresentar: sou a “empresa” que está mobiliando a sala 105, e já sei que você é a Dra Paula, advogada da sala 108, portanto, breve seremos vizinhos de escritório. É um prazer conhece-la.

    — Prazer, ela diz estendendo a mão, no rosto uma expressão confusa e de temor.

    — Vim pelo acontecido ontem.

    — Ontem?

    — Sim. Quando você derrubou a minha bicicleta naquele temporal.

    — Eu, eu…Paula gagueja…

    — Peguei seu endereço com o porteiro que me ajudou. Como vê, já estou pedalando de novo. Isto é, estava ate que a chuva engrossou. Precisava te dizer que não houve nenhum grande estrago.
    Paula tenta se desculpar, a fala sem nexo, mas o rapaz se adianta e sorrindo diz: devo te confessar que eu não devia ter deixado minha bike em local proibido. Além de ser sinalizado!
    Então estamos quites, ok?


    O suspiro dela foi muito expressivo. Alívio, vergonha, todo o stress. Caiu em choro. Gustavo percebeu o estado dela, pegou em sua mão e a conduziu ao sofá. Alguns segundos e ela se recompôs. Ele a olhava, penalizado. Sem saber o que fazer ou falar, olhou para a cozinha e apontou para a garrafa de café.

    — Posso?

    — Hoje não fiz café.

    — Deixa que eu faço. É meu pedido de desculpas, pelo acontecido.

    Paula abriu mais a cortina da sala, a chuva havia parado e como por encanto, um restinho de claridade do dia iluminou o ambiente.


    Ambos olharam para a sacada onde o último raio do sol sumiu no horizonte.
    Sorriram e foram para a cozinha fazer o café.

    Maria Elza

  • É a vida!

    É a vida!

    🗓️ Publicado originalmente em 10/03/2023

    D. Neuza conta a sua história e dá risada. A Beth acompanha com os olhos e de vez em quando esboça um sorriso. É evidente em sua face a admiração que tem pela irmã. As outras mulheres que estão nessa roda são de idades iguais ou próximas a Neuza, apenas duas são bem mais novas.

    De vez em quando ouvem-se risos, depois palpites, silêncio e novas risadas. É lindo ver a cumplicidade, a confiança e a interação entre todas. 

    E o que conta ela? Ahhh, o tema é a difícil e complexa vida amorosa do ser humano. E mais ainda quando os pretensos namorados se encontram na terceira idade, onde os eflúvios da paixão se misturam à análise fria e lúcida da situação financeira, familiar e de saúde de cada um dos envolvidos.

    Como Neuza foi separada, depois viúva, ao aposentar-se teve o tempo e a vida ao seu dispor.

    Voltou à cidadezinha onde cresceu e havia saído após casar-se. Foi como quem visita um tempo, tão distante, que quase não se reconhece nele.  Mas a sua origem estava ali, a pegou pelas mãos e Neuza encontrou uma nobre ocupação. Ajudar e revezar o cuidado com a única irmã que nunca deixou de morar ali na casa da família, a Beth, no atendimento da mãe idosa.

    Resolveu ficar.

    A novidade espalhou-se. Vieram as amigas da mãe, as antigas colegas, mocinhas na mesma época dela, e por viuvez ou separação voltavam para o lugar de onde saíram. Aprareceram também os ex-paqueras ou namorados, os amigos dos irmãos, enfim, em uma cidade pequena um forasteiro é uma novidade, mas uma antiga moradora é um evento! Principalmente para os que viveram a infância e juventude na mesma época. A casa voltou a ser animada, sua mãe sentiu voltar o vigor em seu maltratado corpo, Beth teve um “refresco” no cuidado com a mãe e assim estavam os dias. 

    Entre os “rapazes”todos eram amigos entre si e trocavam suas impressões sobre a Neuza, que havia sido até rainha do baile da primavera quando jovem. 

    E foi um tal de passar para dar um oi para a sua mãe, a D. Biquinha, ou tomar um café para relembrar os velhos tempos, uma desculpa ou outra e lá estavam entrando ou saindo os antigos jovens da cidade, hoje cada um com sua cota de lamúria, aposentado ou fazendo bico para completar a renda, uns morando com filhos, outros sozinhos. O tempo havia passado para todos. Só não passava a camaradagem e forma de viver das cidades pequenas.

    Neuza era simpática, falante e se dava bem com todos.

    Entre as visitas, teve um que tomou uma atitude estranha.

    Fernando, um dos antigos rapazes da época de Neuza trouxe uma caixinha de chá e foi falando:

    — Neuza, vou deixar aqui e passo para dar bom dia e tomar uma xícara de chá com vocês, tá bom?

    Ela estranhou, mas disse tudo bem.

    Durante o dia entre seus afazeres foi lembrando que Fernando era um dos rapazes mais disputados, e que ela nunca deu atenção a ele.

    Lembrou-se também que nem ele demonstrava interesse nela.

    Beth, sua irmã, achou que matou a charada.

    — O que Fernando está fazendo é flertar com você, Neuza!

    — Onde? Nunca me deu bola quando jovem! Bem capaz! E eu nem dei entrada nenhuma, falou com cara de zangada.

    — Quem nunca me olhou por mais de cinco segundos, agora quer tomar chá comigo todo dia? Ahhh, mas não mesmo! Você está “viajando.”

    Foi para o quarto, e pelo sim, pelo não examinou seu rosto ao espelho e ficou pensativa próxima à janela, olhando sem ver.

    Passava em sua mente o período pós viuvez, onde sentiu-se invisível por uns tempos, até retomar o cuidado com a pele, com o corpo e recuperar o sentimento bom de se sentir bonita.

    “Enfim, uma paquera é uma paquera, e aqui onde não tem nada de lazer, até seria bom ter uma companhia. Pelo menos ele é amigo dos meus irmãos e podemos ir ao cinema, shoppings nas cidades vizinhas, ter um pouco de atrativo nos meses que pretendo ficar aqui. Não vou me jogar de cabeça, apenas dar uma abertura e ver no que dá.”

    E assim se passaram trinta dias. Pelo aplicativo de conversa, Fernando era galanteador e se mostrava muito interessado, mas não passava disso.

    Até que em um dia, Neuza falou de forma direta com ele.

    — Já não sou mais a menina de antigamente. Eu me casei, você sabe, separei-me depois dos filhos adultos, depois fiquei viúva. Já vivi algumas curtas ilusões, e no momento estou com meu coração livre.

    E você, Fernando? Qual a sua real situação? Aqui é uma cidade pequena, você sabe que eu poderia perguntar para uma ou outra pessoa e retiraria a sua ficha em dois tempos. Mas não quero isso.

    Gostaria que me falasse honestamente sobre sua vida passada, para que eu conheça o homem que você se tornou. 

    Prefiro assim e pode ficar à vontade em se abrir comigo, não estou aqui no papel de julgadora do seu passado. 

    Ele reviveu sua vida amorosa, falou dos filhos, todos adultos, gostava da vida noturna, sair com os amigos e viver a surpresa que poderia existir ou não nessa fase de vida; sendo assim, teve uma boa lista de “amigas”, mas todas de pouco tempo.

    Namorar mesmo, ter compromisso, foram só a esposa e duas namoradas. 

    Já era aposentado, tinha um salário que bancava seu estilo de vida, e conservava os velhos amigos de infância, com os quais ia pescar, sair para dançar ou fazer um churrasco e ficar jogando conversa fora. 

    — Neuza, você seria a mulher ideal, estável financeiramente, madura mas ainda bonita, se dá bem com nossos amigos…

    Sinceramente, eu penso que faríamos um bom par.

    Podíamos namorar, aproveitar o tempo, as alegrias e a felicidade que a vida ainda pode nos reservar.

    Fernando parecia muito sincero. Neuza aceitou, pois comungava das mesmas ideias dele.

    Só a camaradagem e a amizade já eram certeza de dias felizes.

    Ah, os humanos! Uma minúscula promessa de amor incendeia a alma adormecida… Mesmo que o coração se vangloria de ser estéril, um vento anunciando a chuva faz brotar a flor; a solidão já se fez solitude, os amigos preenchem a vida, a amizade é preciosa… mas nada substitui o brilho que o amor tem.

    Esse que rejuvenesce o sorriso, a pele, o cabelo e principalmente o olhar de Neuza.

    Ela resplandeceu em todos os aspectos depois que aceitou namorar com Fernando, e este, por sua vez, mostrou-se cortês, educado e apaixonado. Por exatos três meses ele se embriagou no olhar onde se via refletido. Até que começou a faltar aos encontros, não atender aos telefonemas de Neuza e passou a ter outros compromissos.

    — Durou muito, os amigos disseram quando ele sumiu. 

    A princípio, Neuza não acreditou que Fernando havia mudado com ela dessa forma. Depois da surpresa inicial ela resolveu pôr um fim ao namoro.

    Mandou um recado por seu irmão para que Fernando atendesse ao telefone. Fernando ouviu calado tudo o que Neuza lhe disse, não se desculpou, não disse sim e nem não, apenas entendeu que o namoro acabou e desapareceu da cidade.

    Em pouco tempo, Neuza se recuperou e seguiu vivendo a sua linda história de mulher independente e bem resolvida. Descobriu que o brilho que traz no olhar é seu, e não é reflexo de nenhum espelho. Suas amigas, a quem ela e sua irmã Beth vieram visitar após a morte de sua mãe, e a quem ela estava contando esta história, todas se sentiram representadas por ela.

    — Fez bem! Imagine numa época dessas, ser passada para trás, como uma mocinha ingênua. Nem pensar!

    Fernando? Voltou com uma antiga namorada. 

    Como Narciso segue em busca da sua perfeição imaginária e de quem possa lhe suprir essa ilusão momentânea. 

    É a vida, diria o filósofo, é a vida.

    03/03/2023

    Em “Crônicas”

    04/10/2022

    Em “Crônicas”

    30/11/2022

    Em “Crônicas”

    O ofício de escrever

    Média final

    SOBRE O AUTOR 

    Maria Elza G. Gonçalves

    Maria Elza G. Gonçalves

    Maria Elza G. Gonçalves tem 69 anos, é funcionária Pública Aposentada do Estado de MS, é formada em Administração e em Direito, com especialização em Auditoria. Estudou Contabilidade Pública. Fez curso de Jornalismo na Escola do Senado. Foi casada. Tem 4 filhos e 10 netos. Desde 2020 dedicou-se integralmente à escrita. Já lançou 3 livros físicos e um e-book. No momento faz o curso com a Casa do Contista. Mora em Campo Grande-MS.

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  • Aquela noite

    18/04/2023

    A noite estava chegando e trouxe consigo um ar estranho.

    Nada era como sempre foi. Não íamos sentar em nosso banco para o recreio diário.

    Todos dentro de casa, jantar cedo e ir deitar. Como se houvesse algo oculto.

    — Mas já?

    — Sim. E quietinhos, sem uma conversa. Vou levar a lamparina. Não façam barulho, nada.

    Olha que seu pai que tá mandando, mamãe disse, saindo do quarto.

    — Ah, então tem mesmo alguma coisa, cochichei com minha irmã.

    — Eu notei…

    Os irmãos adultos estavam conversando e calaram-se quando chegamos perto.

    — Bico fechada! sentenciou baixinho o irmão do meio.

    — O que foi, que tá acontecendo?

    — Nada que é da conta de vocês, retrucou o outro.

    Aí eu soube, pelo tom da voz, o olhar, a rapidez da resposta. Era grave, muito grave.

    Do lado de fora, ao lado do quarto, meu pai conversava baixinho por sobre a cerca com o vizinho. Olhei pela fresta. Estavam no escuro. Nem acenderam os cigarros. Fato inédito.

    Todos nos recolhemos, e nem era hora ainda…

    Os irmãos mais velhos, acostumados a ir sabe-se Deus onde, nessa noite não saíram.

    Mas também não deitaram. Foram para os fundos; cheiro de café, conversa sussurrada; às vezes a voz do meu pai alteava, minha mãe intervinha e a conferencia lá para o lado da cozinha continuava.

    Barulho característico de um Jeep passando em frente de casa.

    Meus olhos quase não piscavam para eu não ser traída e cair no sono, fixos nos vãos  das paredes por onde entravam nesgas de luzes dos veículos que agora voltavam. Ainda pela nossa rua? Meus ouvidos atentos.

    De repente, vozes abafadas na casa do vizinho. Portão batendo. Do nosso quarto não saía nem um pio.

    Como a escuridão era total eu sabia apenas de mim. Acordada, ansiosa, temerosa. Do quê? Ignorava. Sabia apenas que algo grandioso ou terrível  fez com que meu pai nos mandasse para a cama, assim que a noite estendeu sua enorme capa sobre o nosso mundo, chamou meus irmãos maiores e minha mãe lá para os fundos, ouviam uma falação chiada num radinho de pilha. O vizinho fazendeiro, cujo filho era perfumado e bem arrumado, de alguma forma se igualou a nós, ali por sobre a cerca.

    Sim, estivemos sob o mesmo medo ou incertezas. Embora moradores da mesma rua e vizinhos existia uma enorme distância entre nós.

    Éramos pobres, poucas roupas, crianças pequenas, minha mãe costureira, meus irmãos assim como meu pai eram apenas os “pedreiros”

    Dormi.

    Acordamos e algo havia mudado. As conversas entre os vizinhos não eram como sempre foi, se dando bom dia e varrendo as frente das casas. Uma ou outra frase eram por sobre a cerca dos fundos.

    Recebemos não sei como, um aviso sobre não haver aula naquele dia. E a notícia de que o filho do vizinho havia sido levado para prestar esclarecimentos.

    Mais uma notícia: o padre esteve preso. Do anoitecer ao amanhecer, quando foi solto e devolvido à paróquia.

    Nossos professores estavam detidos na sede da Cia pertencente ao exército.

    Pouca coisa mais eu me lembro, ou ouvi. Sei que após aquela noite ficamos dias e dias só dentro de casa.

    Meu pai nao largava o radinho de pilha, que colado ao ouvido parecia ser a salvação ou perdição do que quer que acontecesse. Na semana seguinte as revistas semanais e jornais voltaram a circular, mas para nós isso não fazia diferença.

    A mudança se deu em meus irmãos maiores e em meu pai. Algo os deixou pensativos e calados.

    Eu? Só entendi que o filho do nosso vizinho foi preso porque encontraram não sei que livros em seu quarto. Morri de medo: embaixo do meu colchão estavam os meus tesouros: Seleções, Nosso Amiguinho, Vida e Saúde…

    —Deixa de ser besta, guria, foi o que minha mãe falou. Ela estava triste, eu percebi… Acho que foi o susto…

    Meus irmãos? Nada aconteceu com eles, pois eram apenas,” uns ignorantes ajudantes de pedreiro”!

    Maria Elza

  • Minhas Histórias – Crônica para meu neto

    Crônica para o meu neto.

    Eu tenho um neto que me mostrou a força que eu não sabia que tinha…

    Nasceu com um problema de saúde. A princípio me assustou…

    Mas depois me fortaleceu. 

    E essa força não era física…

    Era inexplicável…

    Era a força do instinto, um instinto que não é o materno, 

    Um instinto “vóterno”…

    Eu atravessava de um bairro a outro, a pé, para ajudar a cuidá-lo

    LMe fez “mudar” e acampar em sua casa para ajudar a cuidá-lo…

    Por fim, mudei-me literalmente de casa, pois eu precisava trazê-lo para mais perto de mim, para ajudar a cuidá-lo…

    Porquê? Porque eu acreditava que só o meu cuidado o acalmava…

    Que só minhas mãos minimizavam suas dores e cólicas…

    Que meus braços transmitiam um calor anestésico que o fazia dormir…

    E também para que sua mãe descansasse um pouco…

    E aquele neto , aos um, dois anos, me ensinou o que era resiliência…

    O que era determinação, 

    O que era amor à organização,

    O que era comando…

    Aquele bebê, sabia por mim e pela sua mãe que teria mais um período de hospital, de dores, de algo maior que nao podíamos evitar e que nos fazia sofrer…

    E em uma aula de força (física e espiritual) ele puxava a sua bolsa de bebê, para perto da caixa de brinquedos e ia escolhendo e jogando na bolsa os que levaria para a “luta”; da mesma forma abria a gaveta, escolhia e ia colocando na bolsa as roupas escolhidas para levar.

    Era uma força em miniatura.

    Era uma Graça em forma de criança.

    Meu neto cresceu, tornou-se um adolescente e como tal, quase o perdi.

    Não por problemas de saúde, pois esses foram todos resolvidos.

    Mas para um mundo ao qual eu não pertencia. Um mundo paralelo ao meu.

    Um mundo proporcionado talvez por mim mesma. Numa casa, num celular, num carro onde certamente participei da aquisição, como bem material.

    Mas do qual eu fiquei de fora, pois eu não conhecia, eu não pertencia.

    Não havia diálogos.

    Não contávamos  histórias um ao outro.

    Não ríamos  juntos.

    Eu me perdi dele, ou ele se perdeu de mim? 

    Nada disso! Reinventei-me. Aprendi a jogar vídeo game, a ser “descolada”, a saber a linguagem do momento, a navegar na internet, a ouvir podcast, ver streaming, a ser atual.

    Ah senhores! Vocês não imaginam a força de uma avó!

    Reencontrei a mesma força, o mesmo elo, e o mesmo neto!

    Nada estava perdido, pois onde há amor os elos não são rompidos!

    Acreditem, as avós são quase eternas! 

    Lucas Jacques, como eu te amo!

    Da sua avó, Maria Elza

  • Terceira Idade I – Família e Cuidadores

    📅 Publicado originalmente em 20 de dezembro de 2022

  • Terceira Idade II – Comportamentos
  • Terceira Idade III – Cuidados com a pressão arterial
  • Terceira Idade IV – Sonhe
    Sonhar não envelhece! Enquanto estivermos vivos temos poder sobre os nossos sonhos! Se usarmos a sabedoria, a calma e respeito temos a chance de recebermos de volta o que merecemos!
  • Terceira Idade V – Você tem um hobby?
  • Terceira Idade VI – Não somos formigas!
  • Terceira Idade VII – Viaje nas memórias boas.
    Maria Elza🌷
  • Live sobre 3ª idade
    www.instagram.com/tv/Cf5DXt5INOH/ https://www.instagram.com/tv/Cf5DXt5INOH/?igshid=YmMyMTA2M2Y=
  • O Peralta
    Meu cachorro Mussum

    Peralta ( Crônica)

    Quando ele chegou era daqueles que não escondiam a origem. Nunca nos enganou. Quando falo assim no plural é por força de expressão, porque eu mesma não me envolvia com essa área. Não tinha tempo, nem interesse e nem paciência.

    Mas não havia como ignorá-lo.

    Era muito intrometido, andava pela casa toda sem a menor cerimônia, até quando se cansava e ia tirar o seu plácido cochilo.

    Devo confessar que essa época foi um período muito difícil para mim. A casa cheia. A sala de jantar, que ficava estrategicamente posicionada, não me deixava escapar das exigências de todos. Se eu viesse pela sala me pegariam lá; se eu saísse do quarto, idem, ao sair da cozinha, também. E ele por ali, circulando livremente! Óbvio que eu o culpava por quase tudo! O marido, os quatro filhos, os dois netos, a empregada e ele. Todos tinham suas necessidades. E só eu era a mãe. Sim, porque todos esperam que a mãe seja onipotente, onipresente, com um estoque infindável de soluções para toda a espécie de problemas ou necessidades.

    Enfim! Ele foi crescendo e tento me lembrar das várias etapas desse crescimento, mas sinceramente, não consigo. Tadinho.

    Vejam vocês a minha falta de atenção.

    Lembro-me de que, às vezes, o alvoroço familiar era tanto, que eu me escondia, ou me fingia de ocupada lá para os fundos. Lá pelo menos havia um cheirinho bom de uma árvore guerreira. Era um pé de canela. E era guerreira, porque sendo grande, a cortavam, coitada. Deixavam só o tronco. Quinze dias depois estavam lá as cheirosas folhinhas verdes. Ela era persistente. E me acalmava.

    Ao sair ao quintal, vinha o cheiro bom da canela.

    Já a casa por mais que fosse faxinada, nunca parecia limpa, não absorvia o cheiro de limpeza, de alfazema, lavandas, nada. 

    Eram tantas diferenças de ladrilhos, de pinturas e remendos, que nada a melhorava.

    Vejam vocês quantas lembranças eu tenho!

    Mas do crescimento dele não me lembro. Só do tamanho que ficou. Enorme! Incrivelmente alto. Pernalta mesmo! Ele reinava ali na frente da casa, junto aos netos e ao avô deles. Se achava o quinto filho ou o terceiro neto.

    Nessa ocasião compramos nosso primeiro carro zero quilômetro. Eu ainda não era segura ao volante, mas naquela manhã eu me aventurei a dirigir o carro novinho em folha de cor vermelha. Até que olhei pelo retrovisor e lá vinha ele correndo, de língua de fora, bem ao lado da porta do carona. Quase morri de vergonha! Que boba que eu era!

    Bom, se ele se achava no direito de seguir o carro da família, e não conseguiam segurá-lo, ele se achava no direito de sair correndo atrás de quem quer que passasse sobre rodas em nossa rua.

    E nesse vuco-vuco misturado a minha distração, ninguém o corrigiu. E ele só na diversão dele.

    Um dia, ao chegar do expediente, notei algo diferente. Olhei o quadro que me era familiar e percebi a tristeza que tomava conta de todos.

    Eu gelei ao olhar a cena e conferir mentalmente quem estava faltando. O vazio e o silêncio que reinava naquele pedaço de calçada, outrora tão movimentado, tinha um motivo. 

    Só aí eu me dei conta que tanto eu, quanto ele, nos amávamos. 

    Aquela mania de querer deitar-se embaixo da cadeira que eu ocupava, o olhar caramelo me acompanhando quando eu saía de casa, a malemolência ao me acompanhar quando eu saía a caminhar… 

    Ao nosso jeito meio torto, existia amor entre nós!

    Já era tarde.

    “Nosso cachorro preto”, pernalta e peralta, chamado Mussum havia sido morto!

    Alguém se incomodou com a peraltice dele correr atrás de ciclistas ou distraídos que passavam por nossa calçada. Deram-lhe veneno.

  • Reflexões I – Cuidado x Impaciência
    Maria Elza🌷
  • Reflexões II – Visita ao Médico
    Ânimo Maria Elza🌷
  • Reflexões III – Preguiça de Socializar
    Preguiça e Desânimo
  • Reflexões IV – Estou encolhendo?
    Idade x Altura
  • Tatiane

    (Conto invertido: Antes do Baile Verde de Ligia Fagundes Telles)!

    Morro. Só pode ser ela aqui neste quarto. Sinto seu hálito gelado e, em vez de frio, meu corpo derrete-se em suor. Tenho febre. É uma sensação estranha, um tremor interno… A morte está aqui, à espreita, eu sinto.

    Tatiana já esteve aqui… olhou-me. Como é triste quando nos olham assim meio de longe, não querendo se aproximar.

    Meu suor escorreu dos meus carapinhos brancos e desceu sobre meus olhos. E ela ali nessa proximidade distanciada, não querendo se comprometer. Deve achar que chorei. Há tempos não choro mais.

    Não sei qual o ocorrido para seus cabelos ficarem verdes; nas pernas eram meias, eu sei, e os olhos também estavam cheios de tinta verde. Mas até o cabelo?

    De todo modo, ela veio. Olhou-me do alto, estava de salto.  Não sei se queria me ver bem ou morto.

    Na incerteza e na inutilidade própria, saiu.

    Passaram-se os minutos, ouvi a rua se enchendo, o vaivém das pessoas. O que está acontecendo? Que dia será hoje?

    Lembrei! É carnaval! É isso! Por isso ela estava verde. Hoje é o Baile Verde! 

    Não! Ela não vai ao baile de carnaval e me deixar aqui morrendo. Ou vai?

    Talvez mande a Lu aqui.

    Ela sempre se aproveita por ser a patroa e manda a  empregada fazer o “serviço sujo”.

    E o fato de eu morrer no dia do Baile Verde só pode ser sujeira, ela deve achar.

    O relógio do corredor bate; as horas passam, o barulho da rua aumenta. O que estará fazendo Tatiana? Morro… Sei disso…estou nesta cama há meses, estive na cama do hospital outro tanto… nunca me senti assim.

    Num escuro amedrontador, pegajoso, vou e volto…Nem Tatiana, nem Lu. Não saíram ainda. Não ouvi os passos descendo as escadas. O barulho da rua aumentou. Devem estar arrumando as fantasias. Isso! Estão arrumando as fantasias. Logo uma delas ou as duas vêm me ver. Fecho os olhos. Um cansaço me abate…”Ó jardineira, por que estás tão triste?”… agora mesmo ela vem me ver.

    Ela não vai me deixar morrer sem que eu veja como deve estar linda com sua fantasia do Baile Verde. Ela vai fazer questão de me mostrar.

    A minha filha Tatiana

  • Colcha de Retalhos

     

    Tantos eram os seus papéis! Esposa, mãe, sogra, nora, professora, chefe de família, amiga e mentora de todos ali daquele pedaço de mundo.

    Um povoado onde o desenvolvimento não chegara, a lida nas lavouras eram rudimentares, não haviam escolas e nem médicos ou hospitais. Onde a vida resumia-se em existir e seguir pelo nascer e por do sol. Ali ela assumia o papel de destaque, fruto de seu senso de responsabilidade, mais sabedoria intuitiva e espírito de observação.

    Perguntas simples ou complexas eram a ela que levavam. Sua autoridade moral era inquestionável.

    Mais uma palhoça para a nova família que se formava… Onde, de qual lado colocar a porta? Amanhã, quando o sol nascer…

    Cedo, lá está ela, explicando porque a entrada da “casa” seria daquele lado. — Onde o sol nasce? Então marque aqui e levantem as paredes com a porta de entrada. Para que pegue o sol da manhã.

    A esposa não quer lavar a roupa do marido?

    Diga a Leonora que a estou chamando. Vinha a mulher e depois de chegar da lida viria o marido. Chegavam acanhados ou envergonhados ao chamado da “senhora”.

    Ninguém sabia como e o quê acontecia nessas ocasiões a cada um dos cônjuges. Mas todos sabiam que o problema fora resolvido, pois nos dias seguintes ouviam- se os risos do casal harmonizado. A chama do sexo fora reacendido, com as palavras certas ditas por ela ao marido e à mulher.

    Criança teimosa? Adolescente preguiçoso? Mulher brigando com sogra, marido não respeitando os dias férteis da esposa já cheia de filhos?  Ela era a grande mãe daquela comunidade. Ensinava as mulheres jovens a cozinhar, admoestava as idosas para não fomentar discórdia com as noras.

    Dava aulas de asseio para meninas na puberdade, mandava ensinar a profissão eterna naquele lugar aos meninos. Arar, plantar, conhecer sementes, manejar a terra.

    Se percebesse  dois rapazes olhando para a mesma moça, o seu papel era sondar para qual deveria direcionar a donzela e formalizar o compromisso. Determinado dia, haveria na capelinha do local os casamentos comunitários. 

    Em seu papel de esposa do proprietário e patrão ela cumpria com maestria o que era esperado. O seu casamento fora combinado como de costume. Mas a diferença entre ela e o marido era abissal. Sendo assim, ela teve os quatro filhos homens e seguia ainda cumprindo com o papel de mulher sem jamais ter amado seu marido. Este, por sua vez, tinha um apetite voraz por ela. A enchia de perguntas depois do coito., Nao bastasse despir-lhe o corpo, queria desnudar sua alma. Jamais conseguiu.

    — Que há no mundo além deste vilarejo? – Ela se perguntava, olhando o horizonte nos seus momentos de descanso, entre o entardecer e a noite,

    Logo sua mente voltava para as questões práticas.

    – Quando virá algum presbítero para substituir D. Gregório?

    – Estamos há seis meses sem uma celebração profunda. Não devemos deixar as pessoas sem o alimento da alma, refletia. Assumia mais essa função, pois mandava limpar a capela, tocar o sino aos domingos e ela mesma fazer uma leitura da Palavra e ao seu modo a transmitir a todos os que moravam em suas terras.

    Mesmo com tantos afazeres ela sentia falta de uma conversa mais profunda, queria ter com quem trocar idéias e não apenas falar, administrar, corrigir.

    Ela era visitada. As mulheres simples da comunidade vinham lhe pedir conselhos, trazer queixas…E por sua vez, a “Senhora” não tinha onde ir. Existia como um abismo respeitoso em relação a sua pessoa.

    Mulheres riam em seus afazeres, andavam em duplas, a vida apesar do inverno, das dificuldades, de tudo que levavam ao seu conhecimento naquela relação de subalternas, não as faziam tristes ou desanimadas.

    Ela sentia ser diferente.

    Sua sede não era de água. Sua sede era do tamanho do mundo, do que havia no mundo. Os anos passando e só um objetivo traçado. Quando completasse 40 anos, procuraria uma boa moça para tomar como a segunda esposa de seu marido. Eram os costumes. E ultimamente vivia para alcançar esse dia.

    No íntimo, não suportava mais viver, se conformar e apenas sonhar com um mundo que não era aquele.

    Sentia que deveria fazer melhorias para os colonos, sonhava em se aprofundar em leituras, aprender técnicas novas de irrigação, conseguir métodos mais modernos de cuidar da terra.

    Quanto a si mesma esperava pelo dia que seu corpo descansaria daquela submissão carnal ao casamento.

    E nem lhe passava pela cabeça que talvez o seu vazio não fosse de livros, e sim a falta do amor, da paixão, de sentimentos não conhecidos por ela, mas intuídos.

    Todas as mulheres do mundo têm um pouco dela dentro de si.

    Ou não são amadas como sentem que é o amor ou têm responsabilidades acima de suas forças em manter o casamento, a família.

    Ou obedecem ou são julgadas. O que fazer? Falar. Escrever. Sonhar. A cada dia as suas aflições, diz a Palavra.

    A mulher tem em si vários universos. É como uma colcha de retalhos. Uma linda, amorosa e colorida colcha de retalhos!

  • Pedido Negado

    Diana recusou o pedido de casamento. O seu “não”  quase foi gritado, de tão firme.

    – Como ela teve coragem? – Lara fala baixinho.

    – Cara, ele saiu vermelho e com um jeito de quem estava prestes a chorar.

    – Não exagera, Paulo – diz Eduarda.

    – Será que ela marcou com ele aqui? No local de trabalho? – -Estranho- diz o Adriano

    – Se foi isso, aí então ela não está boa da cabeça – diz Lara. 

    Por quê? Essa é a pergunta de todos eles.

    Diana era uma mulher independente. Seu viver era o mosaico colorido dos seus papéis. Como estudante, fez mestrado às sextas feiras a partir do meio dia, sábado durante o dia e parte da noite e, aos  domingos até o meio dia.

    Era chefe. Chefiava a equipe de uma revista institucional. Reuniões, decisões, pautas, uma loucura saborosa.

    Também era mãe. Trabalho ou preocupação em tempo integral, esperava-se disponibilidade para sorvetes, ler gibis e assistir a filmes infantis.

    Amiga. Chamadas pelas maiores urgências, novidades, ou só um choppinho 

    Se eu seguir descrevendo, vai parecer que a vida de Diana seguiu a receita esperada nas melhores famílias. 

    Adolescência singela e feliz, sem nenhum sobressalto , fim da meninice e entrada na vida adulta de uma forma tão natural que não deixou traumas, ou nenhuma marca em sua psiquê.

    Uma vida sem temores, dúvidas, tragédias. Bom, ela era tão bem resolvida que até se esquecem que ela ficou viúva bem jovem. Seu marido morreu em um acidente na estrada.

    Então, quando ela começou a sair com o representante da sucursal de Belo Horizonte, se acostumaram com o casal e, essa era a razão de todos estarem tão surpresos com a recusa de Diana.

    Ainda mais que o fato ocorreu ali no escritório, praticamente diante de todos.

    De sua sala, Diana vê que é o assunto principal entre todos e resolve chegar junto ao pessoal.

    -Sei que estão curiosos,- Diana diz. Então vamos ao óbvio. – Ninguém tem garantia de nada- ela começa.

    — Amor e vida não é uma equação matemática. Somos humanos. Por quê ficaram tão surpresos? Não quero me casar. Júlio sempre soube disso! 

    — Mas, Diana – ousa Lara. – Estamos falando de sentimentos. Não somos irracionais como os animais, e só esse fato já nos torna diferentes.

    – Sim – diz Diana. Mas essa diferença não garante que um dia não haja no homem um comportamento que possa vir a ferir, ou machucar outro ser humano, seja ele quem for. Eu não pretendia magoar o Júlio. Mas se a única forma de ele entender que não quero me casar nem com ele e nem com ninguém foi eu falando o “não”, tão alto que até vocês ouviram, o que posso fazer? Não quero me casar mais! Eu sempre deixei isso bem claro!

    O mundo psíquico dos seres humanos é indecifrável.

    Não. Ela não maltratou fisicamente o homem com quem se relacionava. Mas a dor que causou nele ao lhe dizer “não”, foi como uma punhalada. Afinal, estavam juntos há mais de um ano. 

    — Diana, quem é você, afinal? – pergunta Lara.

    — Eu adoraria responder assim de bate pronto,  e dizer sem o menor pudor: sou uma mulher que ama fazer sexo! Essa resposta os chocaria? Ou então, eu poderia dizer: sou normal, não tem nada de extraordinário em mim. Talvez eu devesse responder de forma enigmática:  essa é uma resposta que vocês não entenderiam.

    O burburinho começou a se formar com todos falando ao mesmo tempo, e Diana os interrompe 

    — O que vocês não sabem, é que cada resposta tem um pedacinho de mim! Chega de papo! Ao trabalho, a sessão de psicanálise acabou, diz Diana rindo. Saiu girando sobre seus saltos, voltou para sua mesa, dando fim ao intervalo do café.

    Na verdade, Diana lutou e venceu muitas batalhas até ter hoje esse perfil de uma mulher de sucesso.

    Foi uma composição de fatores que a tornou uma fortaleza como alguns acham, ou uma esfinge, como outros murmuram.

    Só ela sabe que, a duras penas, conseguiu sua segurança, sua independência, e o quão forte é a sua certeza:

    Ela está bem e pretende se manter onde e como está!

  • A Vó de Maria
    Maria sabe que não é tempo de vacas gordas. Sabe por saber; ninguém precisa avisar. Basta olhar a manhã: o café é pouco, o copo é leve, o pão é quase um sussurro. Mas Maria descobriu uma palavra nova. Frugal. E achou tão bonita que a repete em silêncio, como quem guarda um tesouro dentro da boca. Minha refeição é frugal, diz para si. E essa beleza, arrancada da aula de português, lhe adoça o vazio do estômago. Aprender, para ela, tem gosto próprio. Gosto que alimenta o corpo magro, mesmo que, lá pelas tantas, a fome volte a beliscar. Na escola, há leite no recreio: um leite em pó de cheiro áspero, que a faz apertar o nariz para vencer a náusea. Fazer o quê? É assim a vida. Ela sabe. Sabe por saber; ninguém precisa falar. O almoço, a mãe serve direto no prato. Travessas à mesa para quê? O alimento vem contado, como quem reparte o que a terra permitiu nascer. Colheres medidas de arroz, de feijão, um pedaço tímido de legume, carne quando o dia deixa. E Maria nem pensa em reclamar se o pai e os irmãos ganham um pouco mais. Quem trabalha precisa comer mais. Ela sabe. Sabe por saber; ninguém precisa falar. Também sabe que nada dura o sempre. Nem o pouco, nem o muito. Nem a seca, nem a fartura. E isso adoça o caminho. A ida à escola tem seu brilho, o grupo voltando a pé, rindo, inventando histórias, é um pequeno oásis. A casa, com pai, mãe, irmãos e avó, às vezes aperta, às vezes afaga — e tudo isso é vida. Maria sabe. Sabe por saber; ninguém precisa falar. Ela acredita no estudo. Tem fé no que virá, no que pode mudar, no que ainda dorme dentro do futuro. Aprendeu isso com a avó, que viveu o bastante para dizer: não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. E a avó sabe. Sabe por saber; ninguém precisou lhe falar. A avó de Maria também aprendeu o nome bonito que agora descreve o chá com beiju que as crianças tomam antes da escola: refeição frugal. E pensa, como a neta, que é palavra bonita demais para um problema tão antigo. Porque a fome tem muitos motivos: chuva pouca, trabalho raro, tempos escassos; mas dói sempre do mesmo jeito. E é por isso que ela se alegra ao ver Maria estudar nomes, ideias, mundos. Um dia, esse saber pode abrir portas onde antes só havia parede. Um dia pode ser força contra o vazio do prato. Porque o nome pode ser bonito, mas a dor da barriga não muda. Sim, isso ainda há de mudar, ela sonha. Sonha quieta. Em silêncio. Ninguém precisa saber. Maria Elza🌷
  • Capitu Moderninha

    (Conto Invertido – Personagens de Dom Casmurro)

    Capitu bem cedo sabia o que queria. Ela almejava conhecer o amor, viajar pelo mundo, viver intensamente. Ahhh, mas filha única como era não seria assim tão fácil esses seus quereres todos. Ela tinha mãe e pai conservadores. Que também tinham seus sonhos! Não que Capitu terminasse o colegial e fosse para a capital estudar, ser uma professora, ou até diretora de uma grande escola. Não! O que os pais dela queriam era que aos dezoito anos ela estivesse noiva de um rapaz bom, um advogado talvez, como era o Dr. Bentinho, filho do Dr.Bento e sua esposa D.Sofia, um casal de prestígio na sociedade local. Se depois o marido lhe permitisse continuar os estudos e fazer carreira como professora, aí já seria sob o “comando” do marido pensava seu pai.

    Capitu estava cada dia mais linda, os dezessete anos desabrocharam naquela menina com tal esplendor que não havia na cidade quem não se encantasse e especulasse quem seria o eleito dela. E o puxa-saco do José Dias vendo o interesse de Bentinho pela garota, insinuou que ela tinha um quê de falsidade ao dizer “porque com aqueles olhos de cigana, olhando meio por baixo, de forma oblíqua”.

    Deu a entender que ela parecia não querer se comprometer, mas demonstrava os prazeres que teria o afortunado a quem ela escolhesse.

    Bentinho se aconselhava logo com o agregado da família, aquele que parece subserviente, mas na verdade e um invejoso. Capitu por sua vez estava encantada com o encanto que causava nos rapazes.

    Imagine, ela sorria consigo própria, até o zé ninguém e puxa saco de estimação do Bentinho, o José Dias acha que um dia eu possa olhar para ele! Bom, olhar eu olhei, mas só para me divertir com aquele bocó, pensou Capitu.

    Ela continua relembrando desse dia: “Acontece que o Zé Dias, é claro, foi contar ao amigo Bentinho, não é? É bem típico dos mal amados querer disseminar desconfiança naqueles a quem eles amam e invejam, como é ali aquela amizade!.”

    “Eu vou é curtir essa fase da minha vida pensa ela. Logo vou fazer dezoito anos e aí acabou a graça. Enquanto Capitu estava se divertindo com o sucesso que fazia, Bentinho foi ficando inquieto e desconfiado de que ela não o levaria a sério.

    Enfim, Capitu e Bentinho se casaram, o melhor amigo de Bentinho, o Escobar foi o padrinho e a vida seguiria normal, não fosse o ciúme que o bebe despertou no inseguro pai.

    Mas como assim? Começou pelo nome do bebe: Ezequiel – o verdadeiro nome do compadre, já que Escobar era sobrenome. E seguiu com o monstro que tinha sido plantado por José Dias sobre a índole de Capitu. E quanto mais o menino crescia, mais detalhes de semelhança entre o bebê e o Escobar atormentava Bentinho.

    Sendo assim resolveu perguntar a Capitu qual era a verdade. Ela o traiu com o compadre Escobar? O filho não era dele? Porque José Dias tinha desconfiado da sua forma de olhar?

    Ahhh Bentinho! Como você é bobinho! Acha mesmo que Capitu vai entregar a você a verdade, que é dela e só dela?

    Ainda mais agora que não se sabe de onde ela conseguiu as tais gomas de mascar que estavam na moda lá pela capital e que finalmente chegara ali, naquela cidade?

    Capitu agora quando coloca o chiclete na boca, se transforma! Ela imagina quantas coisas mais que esse grande mundo tem para lhe oferecer?

    Sim, pois se uma bolinha cor de rosa lhe dá tanta satisfação, certamente haveria muitas outras coisas que ela gostaria de experimentar um dia!

    Sendo assim, ela masca o chiclete, dá de ombros, arremessa a cabeleira preta para o lado, olha bem para ele e diz:: “Ora Bentinho, por quem me tomas?”

    Crônica reversa de

    Maria Elza

  • Meu Príncipe

    (Conto baseado em uma cena do filme Uma Linda Mulher)

    Adriana, Lidia e Sonia são amigas inseparáveis. Desde a escola primária, vivem grudadas umas nas outras.

    – Adriana, pede pra sua mãe deixar você dormir sábado aqui em casa?

    — Mas e a Lídia? 

    — Ela já confirmou. A avó dela deixou.

    — Tá bom, amiga. Vou ver se a convenço.

    Com a noite das meninas confirmada, Sônia  pegou o caderno de perguntas e respostas e queria passar a noite descobrindo tudo que pudesse sobre os meninos.

    As perguntas eram simples, mas poderiam dar muitas pistas.

    — Gosta da sua letra?

    — Seu sorvete favorito?

    — Cor favorita?

    — Qual foi a última coisa que comeu hoje?

    Também havia perguntinhas não tão bobas, e essas eram a curiosidade das meninas. Aquelas que dariam uma pista sobre o pensamento dos garotos para a vida futura. 

    Nesse tempo onde os jovens eram ainda tão inocentes, há muito ficou para trás. Lidia tornou-se aeromoça e risca os céus desse mundão a bordo dos mais potentes aviões. Segundo  diz, ela mesma proporciona os luxos, as fantasias e o glamour de que tanto gosta.  E ainda provoca as amigas dizendo não trocar  sua vida de solteira por nenhum amor de comerciais de margarina! 

    Lídia está em seu terceiro casamento.

    Segundo suas próprias palavras, ela não tem preguiça de recomeçar e nem arquiva traumas. Logo parte para outro relacionamento, se o anterior  não deu certo.

    A Sónia é uma advogada de sucesso, bonita, tem uma carreira consolidada. Está sempre aguardando um príncipe encantado, mesmo já em seus quarenta e poucos anos. Quando menina,  era a mais interessada no caderno de perguntas.

    Sonia idealiza o amor. Ah, o amor. O que dá frio na espinha, o que faz o coração bater descontrolado, o que seca os lábios de nervoso…

    Ela sempre acha que encontrou o homem ideal.  Até que o príncipe se revela um sapo.

    Sendo a mais romântica, toda vez que inicia um namoro, não demora nada, o homem em questão vai se afastando aos poucos, até chegar na famosa frase: a gente se vê! 

    Ela já conhece todas as saídas estratégicas dos homens: a mãe adoece; vai viajar a negócios; não é a hora certa para um relacionamento sério; e por aí vai.

    Mas seu sonho não acaba com o fim  do namoro. Seu desejo de um grande amor pra vida toda, esse é o que faz com que ela trabalhe, estude, se arrume, viaje, vá a shows e peças de teatro. 

    Em uma noite dessas, ela viu  um homem lindo, de smoking, cabelos grisalhos, tentando manobrar um conversível. Ele ligou, pisou no acelerador para arrancar e o carro morreu. Tentou de novo e nada. 

    Sônia se aproximou e perguntou: — Precisa de ajuda? 

    Ele apertou os olhos para enxergá-la melhor.

    Sônia, os cabelos ruivos cacheados descendo em cascata por seu ombro,  olhava de cima do salto 15 para o carro e para o homem, sem entender bem porquê ele a olhava  admirado.

    Teve uma vaga impressão de que já o tinha visto antes . 

    Ele estendeu a mão e se apresentou.

    —Prazer, Ricardo Jaime.

    Ela sorriu e entrou no clima.

    — O prazer é meu, Sônia Petra

    Ricardo disse:

    — Para que lado você vai?

    — Ali logo na esquina tomar um táxi.

    — Se não se importar, posso acompanhá-la?

    — Sim, sim sem problemas

    E foram andando e conversando.

    Mas em seu íntimo Sônia já tinha decretado: é esse o meu príncipe!

    Sorri lembrando-se de um filme lindo onde a moça encontrou o amor de forma idêntica ao que acabara de acontecer!

    Quer que eu dirija pra você o seu carro?

    Você sabe?

    Sim! Ja fui manobrista, ela diz sorrindo.

    Então tá! E lhe estende a chave

    Ela abre a porta do carona, ele entra.

    Ela toma o volante e sai dirigindo maravilhosamente bem! Aumenta a velocidade, olha para ele e pensa consigo mesma:

    O príncipe encantado é ele! Sonia fica feliz só em sonhar! Afinal, sonhar não custa nada, ela pensa.

    Maria Elza

  • A Casa do BBB

    Sonho em entrar no BBB. E já me inscrevi, fui entrevistada, a emissora local me deu apoio, fiz o vídeo. Achei que seria chamada. Mas não fui.

    Ainda!


    O BBB existe há 21 anos. Estou ficando velha. Desde os 30 anos eu quero ir. Sei o quanto eu ia ser muito querida pelos colegas e pelo público.
    Cozinho que é uma beleza, gosto de trabalhar, faço doces, pães, biscoitos. Lavo banheiros, roupas, limpo casa. Já fiz curso de chef, de cabeleireira, de auxiliar de enfermagem. Sou muito boa, mesmo! Eles não iam se arrepender de me por na casa.

    Tenho nome de santa. Minha mãe me deu esse nome porque era muito devota de Santa Terezinha. Aquela das rosas, não a outra. Então meu nome é Terezinha. Mas me chamam de Terê. Ia ser um tal de Terê pra cá, Terê pra lá. Eu sonho com minha estada lá na casa do BBB.


    Eu não ia fazer feio, meu corpo é de falsa magra e tenho uma altura até boa.
    Eu esquematizei tudo na minha cabeça. Banho rápido, não quero atrapalhar os outros, nem perder tempo. O dia que eu entrasse, ia fazer trancinhas, assim eu poderia lavar os cabelos, soltar e ficar do jeito que eu gosto. Nem ia disputar cabeleireiras com as colegas. Não acho bonito ficar de roupão. Ia levantar e vestir roupa como se eu estivesse aqui fora. Maquiagem eu ia querer só em dia de festa.

    Outra coisa boa é que sou forte. Já carreguei muita lata d’água na cabeça, cuidei de idoso, fui babá. Todo mundo ia querer fazer parceria nas provas. Nas festas não consigo imaginar como eu seria, tenho dom pra cuidar dos outros. Acho que ia cuidar de quem se embebedasse, limpar vômito, tirar de perto quem estivesse discutindo, tentar apaziguar. E ia dançar muito também! A música entra em meu corpo! Aproveitar, né? Ahhhh, os vestidos de festa eu ia gostar, gente! Gostar muito! Iam cair que nem uma luva em meu corpo. Já falei: falsa magra, minha colega me explicou. Parece magrinha, mas tem peito e bunda. E tenho, mesmo.


    Só sei que tenho, mas até me esqueço. O que sei do meu corpo foi de quando era mocinha, que logo já me meti com um cara que me embuchou de primeira e no fim de cinco ou seis anos me largou com quatro filhos pequenos, desdentada, peito e bunda murchos que só, de tão magra que eu estava.
    Mas me recuperei, tratei os dentes, estou bem, Graças a Deus
    E de lá pra cá, o que eu mais precisei foi de mãos, pés e pernas pra cortar essa cidade de lado a lado fazendo faxina nas casas das pessoas, pra sustentar os meninos.


    De tudo isso eu tive muita sorte de serem meninos. Se fossem meninas eu não ia ficar sossegada de deixar ora na casa de uma ou de outra parente. Agora eles são homens, cada um bonitão e já com mulher e filhos. Hoje eu trabalho pra ajudar eles a cuidar dos meus netos e netas.

    Então vocês já sabem por que eu quero entrar no BBB. Quero uma casa pra mim e uma pra cada filho. Casa simples, mas casa própria. A minha quero que seja cor de rosa.
    Igual a rosa da mão de Santa Terezinha.

    Tenho certeza de que ainda vou entrar e vou escutar muita gente dizendo: a Terê merece ganhar, ganhou a prova do líder porque é forte, ela é gente boa, cozinha bem, ela tem que ganhar!


    Ah, vai ser um dia lindo! Bem capaz até de eu chorar, quando abrir o telão e eu ver lá todos os meus filhos, noras e netos! E se alguma patroa minha for, aí sim, minha alegria ia ser completa! Todas elas sabem do meu desejo,a dona Ana, me falou:
    — Terê pode se preparar que eu vou lá ver você! Vou na final, claro! Terê, você vai ser a vencedora!
    A Eleonora não quis escrever a carta.
    — Faz Terê. Igualzinho como ta me falando, passa pro papel esse brilho nos olhos. Eu corrijo e até te ajudo a fazer a inscrição no site. Mas escreve seu sonho, Terê! Vai ficar bonita a tua carta!

    Escrevi.

    Imagina que elas até cuidam se a TV fala o meu nome!
    Eu sei, mesmo ninguém falando, eu sei que todos que me conhecem também esperam junto comigo o dia do meu sonho acontecer!
    Ir para a casa do BBB!

    Maria Elza

  • Piscinas Vazias

    Que tristeza me dá ver as piscinas vazias! Não, elas não são sem águas. São piscinas sem gente! Sem jovens, sem crianças, sem adultos.
    Sem risadas, sem nada e nem ninguém! Porque fico triste? Elas estão ali confiadas aos seus cuidadores e estes limpam, filtram, colocam os produtos , e lentamente vão retirando as folhas secas caídas das árvores próximas; ora um louva-a-deus desavisado, ou um bichinho afoito pela água; um fio de capim vindo do corte da grama e outra pequena mariposa… E assim se vai levando a pá de cabo comprido, num vai e vem caprichoso.
    O cuidador de piscinas apenas faz o seu trabalho ou reflete sobre ele?
    Não sei. Mas eu reflito.
    E penso no sonho de consumo de mais da metade das famílias da minha cidade.
    Uma piscina para se refrescar, brincar, curtir, num sábado ou domingo, com os amigos ou com as famílias!
    Seria divino ter uma piscina em casa, ou mesmo nas amigas ou vizinhas chegadas.
    Crianças acaloradas, cheias de energia e em turmas fariam tchibum com algazarra, gritaria; mergulhariam e sairiam lá à frente.
    Brincariam de peixinho, disso, daquilo. Os adultos estariam aos guarda-sóis conversando, rindo. Um sábado ou domingo refaria o ânimo e a energia para enfrentar a semana.
    O que aconteceu com as famílias? Onde ficam as crianças? Um dia essas piscinas já viveram risos, correrias e saltos em suas águas? Foram palcos de festas em seus arredores?
    Não há como eu saber. Sei o que vejo da minha janela: A Tristeza das Piscinas Vazias!
    Limpas. Mas vazias

  • Olha o Passarinho

    As crianças na década de setenta tiveram um ou mais de um, com certeza! Pode ter sido colorido e grande. Pode ter sido retângulo pequeno em preto e branco.

    Não era barato. Nem era comum. Era uma oportunidade surgida lá de vez em quando. E quando era de carneiro? Um acontecimento! Vinha o retratista com o animal pintado de vermelho, que puxava uma carrocinha. Colocava-se a criança dentro para tirar a fotografia. Confesso: ficavam lindos!

    E a época em que se fazia com cinco ou seis poses em um quadro só:  dedinho na boca, cabelo penteadinho para trás, gravata borboleta, chapéu.

    Meninas de laçarote no cabelo, mãozinha debaixo do queixo, olhar para o horizonte…

    Outras vezes, era na escola, com a bandeira brasileira na parede e o globo terrestre sobre a mesa.

    Não era para qualquer um. Custavam caro. Pobre não fazia.

    Ocasionalmente vinham uns que aproveitavam o que já havia e pintavam à mão, copiando e ampliando. Esses então eram quase artistas e caríssimos! 

    Como os tempos mudaram! Tudo bem, já se vai meio século. Mesmo assim é uma mudança muito significativa! Em épocas de caras e bocas, de cair de ponte para achar o melhor ângulo de selfie, milhares delas num arquivo de celular, não deixa de ser um salto da humanidade, como disseram da chegada do homem à Lua! 

    Os antigos geralmente ficavam nas paredes das salas, em cantinhos organizados, sobre o piano, se na casa houvesse um, sempre em lugar de destaque. E quando chegavam visitas eram mostradas… esta é fulana, aqui foi quando meu irmão chegou da guerra, aqui quando ele entrou para o jardim de infância, aqui quando eles vieram para o Natal. 

    Lembro-me de um que foi rigorosamente organizado. Três irmãos soldados. Esse era daqueles pintados. Dificilmente, em razão da idade, estariam os três no quartel. Mas era o orgulho dos meus pais. E quando não concordavam com a pintura copiada? Era o ano todo os senhores de terno e gravata vindo conversar para cobrar e a família resistindo.

    Lindos mesmo eram os das madames da sociedade! Enormes! De tinta a óleo. Esses eram poucas pessoas que tinham. As senhoras posavam para os fotógrafos. Para que eles terminassem o retrato tirado na máquina.n

    As máquinas tinham seus mistérios, só os fotógrafos as viam; eram aquelas que tinham uma cobertura preta de tecido e eles colocavam a cabeça dentro dessa capa para bater a foto, e espocava a luz intensa do flash. 

    Retratos, fotografias, monóculo, binóculo, preto e branco, colorido, com molduras de madeiras, molduras de gesso trabalhado, às vezes, dourados. A arte de parar o tempo! A época do: Olha o passarinho! 

    A vontade de eternizar o momento!

    Retratos

  • Traga o Mate

    Linhas coloridas, brancas, carretéis com formato de cones.  Tesouras que faziam roc, roc ao deslizar nos tecidos mais encorpados, obedecendo o trajeto comandado por aquelas mãos já calejadas.

    No chão, caixas para juntar as arestas e retalhos, que ao fim do dia seriam separados para uso futuro ou descartados, como as bandeirolas  multicoloridas ao fim das festas juninas. Carretéis de linhas já vazios eram disputadíssimos pelos meninos. Seriam as rodas dos tratores que puxariam outros objetos, tais como latas de leite ou caixas vazias de chá ou o que a imaginação mandasse. Quanto mais carretéis houvesse, maior seria o “carregamento”. 

    Sobre a máquina de costura, alfinetes e agulhas espetados num gatinho feito de tecido e enrodilhado em si mesmo, além de um dedal, fita métrica, giz.

    Nas prateleiras enfileiradas em uma parede, havia grandes carretéis de sianinhas, fitas, fechos-éclair, vidros com botões variados que pareciam caramelos.

    Um grande espelho bisotado, com moldura escura encostado à parede em  ângulo, onde se podia ver o corpo todo, ficava  sobre um tapete. 

    Era uma sala média com inúmeros  objetos interessantes. Mas não era de livre acesso, assim como os outros cômodos da casa. 

    Ali era a “oficina de costura” de nossa avó.

    Um mundo encantado a que pertenci durante o final da infância e o começo da “meninice”. 

    Como eu tinha acesso? Ah, eu era privilegiada por ter desenvolvido uma qualidade ou destreza, eu não sei bem! Ou talvez eu fosse a preferida dela! O que sei é que eu amava aquele universo! Mas a verdade é que eu era uma excelente carregadeira de mate.  Eu aprendera a fazer um bom chimarrão. Sabia que não deveria colocar mais água do que o necessário, senão a erva ficaria nadando na cuia; não poderia ser pouca água, senão o mate já chegaria seco, não poderia ser tão quente que pudesse queimar a boca de quem o tomasse, e nem frio para que não se perdesse a graça de tomá-lo. Encher uma cuia de mate era uma arte!

    E durante esse período de tempo em que eu atendia minha avó, meus olhos iam cuidando o que estava indo para as caixas de descartes e eu já separando mentalmente o que me interessaria. Tecidos de florzinhas se sobrepondo aos listrados e estes, por sua vez, misturados aos xadrezes. Um sem número de estampas, cores, texturas.

    Eu era premiada em escolher primeiro os retalhos que seriam depois transformados em roupas de bonecas, ou seriam trocados por alguma coisa que outra irmã tivesse. Tudo naquela sala me enchiam os olhos e hoje sinto me aquecer o coração.

    Também era uma sala de segredos. 

    — Põe mais uns gravetos no fogo e espera a chaleira chiar—Dizia minha avó.

    Era como uma senha. Senha para que eu saísse da sala. Algo seria conversado ali que criança não poderia ouvir.

    Eu fazia o que ela mandava, saía por uns momentos até que ela chamasse.

    — Pode trazer o mate!

    Ocasionalmente era uma sala de luto. Chegavam sempre em duas, a viúva e a filha, a mãe e a avó, duas irmãs…Elas não traziam alegrias. Vinham tristes e encolhidas como se estivessem com frio. Minha avó sempre tinha uma palavra de consolo, entre ouvir sobre o ocorrido e anotar detalhes das roupas.  Essas clientes não demoravam. Só o tempo mesmo para tirar as medidas. Nem havia prova. A roupa era aprontada rapidamente e, no outro dia, lá ia um menino entregar as tristes encomendas. 

    Era uma sala de festas! Gravidez?

    — Olha esta revista, é clássica — dizia minha avó. —— Ah, mas essas já são para o fim da gravidez, agora vou querer este modelo, não acha mamãe?—perguntava a jovem mãe. 

    — O que acha? — Perguntava à sogra. A sogra geralmente dizia: você que sabe, querida. 

    Nessas ocasiões geralmente vinham as três.

    A grávida e as duas avós. Nesse dia não tinha hora certa de mate. A avó dizia que seria só depois que “as visitas” fossem embora.

    Por três gerações eu vivi e absorvi a atmosfera desse mundo encantado. Uma sala onde não se costurava apenas roupas!

    Encantado por ser um ambiente onde as almas femininas, como as linhas se entrelaçavam e se reconheciam na dor, na tragédia, na doçura e na alegria.

  • Sonhos

    As colinas faziam parte dos dois sonhos. Na verdade, não eram propriamente colinas. Havia longos trechos planos, algumas pedras ou rochas que formavam os aclives, e novamente a planície.

    O proprietário da primeira casa escolhera a parte plana ao fundo do terreno para construir o casarão. Sendo assim, havia uma alameda em suave relevo que levava ao portão principal. O jardim era enorme, o pátio impecável e os canteiros de flores de variadas cores ornamentavam a amplitude e beleza do verde gramado que reinava absoluto desde a casa até o grande portão branco da entrada.

    Não havia plantas altas que escondessem a visão magnifica do jardim tanto para quem estava no interior da residência, como para quem chegasse ao portão desta. O espaço convidava à contemplação da natureza em seu esplendor; sem fontes, topiaria e nem desenhos geométricos como nos jardins de Versalhes. O cuidado e capricho dos jardineiros fizeram jus ao belo projeto da casa que se via rodeada pela paisagem cheia de flores e plantas compondo de forma natural um maravilhoso conjunto.

    A casa era de uma beleza simples com seu telhado ocre, suas paredes brancas e os arcos que formavam uma varanda estreita em toda a sua volta. 

    Cozinha, sala de jantar, biblioteca tinham largas portas laterais que abriam para o jardim, e eram de fácil acesso. Os móveis eram escuros,  de madeira nobre e finamente entalhadas com arabescos e flores.

    A cozinha lembrava aquelas medievais, com muito cobre nos utensílios que brilhavam pendurados em prateleiras abertas.

    A poucos metros dali, um lindo caramanchão com todo o conforto de mesa de chá, poltronas, tapetes e almofadas demonstrava ser um lugar convidativo para reuniões festivas e descansos felizes em uma atmosfera de esplendor e opulência.

    Essa foi a visão que tive. Foi tão real que ao voltar pela sala de jantar, passei os dedos para sentir os pequenos tachos metálicos que ornamentavam os espaldares das cadeiras. E senti.

    Da outra residência eu não vi o interior. Sei que a porta ficava ao canto e não no meio da construção. Saindo da porta, descia-se alguns degraus e logo uma calçada não muito larga, de pedras, dava continuidade a um caminho ornamentado por plantas assimétricas em toda a sua extensão.

    As plantas pareciam ter nascido e se misturado naturalmente, flores vermelhas escuras, azuis, laranjas, amarelas, lírios, desciam serpenteando em volta da alameda de pedra. Quem estivesse descendo pela calçada em declive, e voltasse o olhar para apreciar a residência ou dar adeus a quem o levara à porta, no plano mais alto do terreno teria a visão da bela residência branca, com a porta principal e varias janelas de madeira trabalhadas em um modelo de treliças com arcos, como dos castelos medievais.

    Além disso o olhar poderia perder-se no magnífico cenário composto pelo verde do gramado que parecia abraçar aquela residência e era tão perfeito que mais parecia um campo de golfe.

    Ao continuar a descida, à direita via-se uma linda pontezinha de madeira, ladeada de arbustos chamados de bambu de jardim e samambaias variadas, em uma profusão de vários tons de verde, digna de um quadro.

    Ouvia-se um burburinho e mais adiante estava -se às margens de um riacho de agua cristalina, com múltiplos peixinhos coloridos que passeavam sobre as pedras logo abaixo da superfície. O ar parecia diferente. Acreditei que ali era o Paraíso! Foi tão nítida essa percepção que nem precisei tocar em nada. A magia se encontrava no ar.

    M.Elza

  • A Garota e Avó e as Estrelas

    — Vovó, olha como o céu tem muitas estrelas hoje!
    — Oi?
    — O céu, vó! Tá cheinho de estrelas. Tô com medo!
    — Medo? Medo de quê, Anita?
    — Medo de você, ou a mamãe, ou o Pedrinho virar  estrela e ir morar no céu.
    — Anita, de onde você tirou isso?
    — Ah, vó, eu sei que quando as “gentes” morrem viram estrelas e moram no céu.
    — Eu não estou te entendendo –

    — Vou te falar o que é. Às vezes, na escola, tem uma amiga e a gente fica sabendo que a vó, ou a tia, ou uma “gente” daquela amiga morreu. Aí a professora, ou a tia do lanche, fala assim: “Não fica tristinha. Ela virou estrela e foi morar no céu”. Então hoje eu olhei o céu e vi muitas, mas muitas estrelas. Tô com medo, vó, as “gentes” tão virando estrelinhas, então nós também vamos? Por isso a gente não sai mais, não vai na aula, anda com essa máscara, e não tem mais festa de aniversário?É isso, vó? É por causa dessa doença, desse vírus?
    — Realmente, você tocou num assunto triste e bonito. Triste porque fala de mortes, e bonito porque fala de estrelas. Mas vou te contar uma história e você vai entender melhor de estrelas e de pessoas
    — Oba! –a garota bate palmas!
    E a avó começa a história:
    – Existia uma cidade onde morava uma garota, e quando ela ia deitar olhava para o céu estrelado e se sentia amiga das estrelas.
    Ela não sentia medo, porque o avô dela tinha ensinado uma coisa pra ela.
    — O quê, vó?
    — Ele contou que tem uma magia entre as pessoas e as estrelas. Elas sempre vão ser amigas.
    — Que legal, vó!
    Passaram os anos, a menina foi crescendo, tornando-se mocinha e depois uma linda jovem. Já as estrelas, elas brilham, brilham, até que elas explodem em estrelinhas novas chamadas de supernovas. Como se elas estivessem grávidas de muitas novas estrelinhas. Não é bonito imaginar isso?
    — Uau, muito bonito!
    — Mas ainda não era hora de a estrela brilhar até nascer as novas estrelinhas.
    — E aqui na Terra também não era hora dessa moça morrer. Mas o que aconteceu com ela nao era normal. Ela sumiu por uns dias, não estava em seu quarto, não olhava as estrelas.
    E a estrela inquieta procurando por sua amiga. Existiam muitas meninas que olhavam estrelas. Mas muitas meninas não significava “a menina”! Nisso chegou o momento de a estrela brilhar muito , explodir e criar as estrelinhas supernovas.
    O seu chamado pela menina foi tão forte que aconteceu duas coisas ao mesmo tempo.
    Nasceram as estrelinhas e a jovem que sumira por estar doente não voltou para sua casa.
    A jovem havia morrido!
    Tudo na mesma hora! A estrela sofreu muito, porque aí ela conheceu a dor que era perder alguém. As estrelinhas supernovas ficaram murchinhas, perdidas lá naquele céu grandão, já estavam sem a mãe, que só pensava na garota.
    Ela sofria igual gente aqui da Terra sofre quando alguém vira estrela.
    – Que triste – disse a garota!
    – Não, não se entristeça – falou a idosa. – Calma!
    – O que existia entre a estrela e a menina não era amor? Era, você sabe que era.
    — E quando existe amor nada acaba!
    – Como assim? – Quis saber a garota
    – Porque a magia do amor não deixa nada acabar, entendeu?
    — Não, diz Anita.
    — Vou te explicar, vem cá.

    A mãe da garota também ficou muito triste quando ela morreu.
    E resolveu fazer um canteiro de flores perto da janela do antigo quarto onde ela dormia.
    Uma planta que dava flores e perfumava a noite.
    Essa planta representava a garota.
    E toda noite ela solta seu perfume e abre suas flores para mostrar a sua beleza e encantar as milhares de estrelinhas supernovas que brilham no céu! — Uau – exclamou a garota! Entendi!
    Por causa do amor da garota e da estrela, agora existe uma flor linda e cheirosa que se abre de noite, pra encantar as estrelinhas do céu.
    — Isso! O amor não acabou e por isso não existe separação entre quem está na Terra ou quem está no céu!

    Então, as pessoas que viram estrelas, as estrelinhas chamadas de supernovas e a magia do amor não deixam tristeza nem separação.
    Uma história de amor. Onde nada acaba porque a magia do amor permanece para sempre.
    – Gostei – disse a garota batendo palmas.
    – Eu também – falou a idosa, eu também!

  • Um Viva aos Dezessete!
    Vinham todos juntos. Moravam para o mesmo lado e estudavam na mesma escola. O grupo era composto de oito adolescentes. Cidade do interior é assim. Vizinhos são colegas, amigos são vizinhos. Mãe é comadre de outra mãe, pais trabalham na mesma companhia, a vida é coletiva. Mas o grupo não era homogêneo. Havia os sub-grupos, ou duplas, trios, cujas afinidades eram particulares, dentro do todo. Exceto João. Ele era unanimidade. Pertencia ao grupo. Era requisitado e bem relacionado com cada um dos colegas. Até o dia que o João se descobriu ciumento da Ana. Assim, do nada, ele fechava a cara quando a Ana ficava em dupla com o Antonio, conversando animadamente ou rindo com ele. Pedro chegou ao lado dele e perguntou: O que foi? João gesticulava, passava a mão no rosto, fazia sinais repetidos mostrando que era todo dia, todo dia. Pedro pediu calma a João. Chegaram à escola e cada um entrou em sua sala de aula. No recreio poderiam ficar juntos ou não. Ao termino da tarde, eles desciam todos para o mesmo lado da cidade. Sabedor que seria dessa forma, Pedro aproveitou o intervalo para continuar a sós a conversa com João. Este estava isolado no pátio da escola, caminhando e chutando as pedrinhas que separavam os canteiros da calçada. Cabisbaixo, andava e chutava, como se falasse sozinho. Pedro chegou ao seu lado e começou a falar, logo indagando de João — Está com ciúmes de Antonio? — Mas por quê? Alguma vez Ana te deu a entender alguma coisa que não fosse amizade? — Ou vocês já tiveram algo? Fez sinal com os polegares em formato de coração. Levou as mãos à boca e beijou o dorso. Abaixou-se e rabiscou com os dedos na terra. Levantou e raivoso jogou a pedrinha que pegara no chão. Pedro parecia querer tirar uma resposta de João a qualquer custo e se demonstrava furioso e com pressa em saber. A inflexão da sua voz, a urgência das perguntas, a sua falta de sutileza, a sua maneira de falar, tudo não condizia com o que poderia ser um apoio a João. Estranha essa posição de Pedro. Como se o acontecido tivesse passado por cima da sua autoridade. Mas que autoridade? Sobre Ana ou sobre João? Ou haveria outros pequenos poderes entre os integrantes do grupo e estes haviam sido violados? Aquele era o ultimo ano do segundo grau. Logo o ano letivo acabaria e o grupo se desfaria. E foi o que aconteceu. Anos de convívio, sonhos, camaradagem ficaram para trás no tempo e no espaço. Tornou-se uma lenda um quase namoro entre Antonio e Ana. Ou Entre Ana e João. Faziam também especulações se Pedro tivera um interesse em João. Eram tantas as possibilidades! Jovens! O amor, os pensamentos, a doçura e a poesia do amor misturados com a juventude e a inocência. Quando os sentimentos são mais importantes de tudo que é dito ou não dito! Como diz o poema de Violeta Parra Viver a los dezessiete Lo que puede el sentimiento No lo ha podido el saber Ni el más claro proceder Ni el más ancho pensamiento Todo lo cambia el momento Cual mago condescendiente Nos aleja dulcemente De rencores y violencias Solo el amor con su ciencia Nos vuelve tan inocentes! Maria Elza
  • Nelson às Avessas

    — Oi, vai desocupar?

    — A vaga? Sim, só um minutinho.

    Logo chega um garotinho e entra no carro de Diana.

    O carro do rapaz estava com o pisca alerta ligado, ele afasta-se um pouco para que ela possa sair.

    Ela dá um tchauzinho e arranca com o carro. Não sem antes olhar pelo retrovisor e reparar bem no modelo e cor do veículo.

    Ah, pensa ela, o que é bonito é para ser olhado!

    — Bom dia! — Diana está pegando pão no balcão e volta-se para olhar quem era.

    Ele. O rapaz do carro.

    — Bom dia. Parece que gostamos do pão fresquinho, não é?

    Ela sorri e vai para o carro.

    Desta vez é ele que sai até a porta e fica olhando ela sair com o carro. Diana está curtindo a situação.

    — Lídia, tudo bem?

    — Tudo amiga, e você?

    — Lidia, me diz uma coisa: você assistiu àquele seriado chamado a Engraçadinha?

    — Claro, amiga! Quem não ficou ate as dez horas esperando pelo horário que o seriado ia passar?

    Era tanta expectativa, não sei se de um conto de Nelson Rodrigues, ou se era baseado em alguma obra dele e tal.

    — Por quê?

    — Menina, eu estou num tesão que estou me sentindo a própria Engraçadinha!

    — Ahahah, não me diga! Mas você tá falando dela na segunda fase? Porque tem ela mocinha ainda. E depois ela já na faixa dos trinta e poucos. Como você, né dona Diana?

    — Lidia do céu! O que é isso? Serão os hormônios? Não sei não, mas eu te falo: estou por um triz pra sair com um rapaz de uns 20 anos, lindo, moreno, sensual e que tem me dado umas olhadas que eu chego a amolecer as pernas, só de imaginar a pegada.

    — Caracas Diana! Tá desse jeito? E aquele seu conservadorismo todo? Não foi você que detonou a pobre da Carmem, quando o marido dela descobriu que ela estava tendo um caso com o mecânico?

    — Lidia por isso estou te ligando… para você me por um pouco de juízo ou clareza nas ideias!Parece que eu não sou mais eu. Meu corpo é só instinto, desejo, luxuria. Faz tanto tempo que não tenho mais isso! Pensei que eu estivesse morta para os prazeres da carne, mas não! Nunca me senti mais viva!

    — E o Pedro?

    — Que tem o Pedro?

    — Sei não Diana… dizem que mulher solta cheiros, uns tais de feromônios. E que homem tem faro e percebe quando ela tá traindo ou querendo trair. Sei lá.

    — Não, Lidia. O Pedro é tranquilo. Não tem interesse, não tem ciúme, só mesmo o trivial, de quinze em quinze dias, para cumprir tabela. Lembra quando as meninas da faculdade falavam que não devíamos namorar os melhores da sala? Quem é muito estudioso, não curte sexo.

    — Só você, Diana, pra me lembrar dessa fala das meninas!

    — Olha, amiga, não vai adiantar eu te falar nada. Mas não me deixa de fora das novidades, tá bom?

    — Ah não! Já vai desligar, Lidia? Poxaaa.

    — Tenho horário, amiga. Amanhã conversamos mais, tá bom?

    — Ok!

    ***

    — Oi, Diana! Tá sumida. O que anda fazendo?

    — Oi, Lidia! Andei ocupada. Vamos tomar um café?

    — Vamos.

     

    — E então amiga? Quais são as novidades?

    — Amiga, andei revendo um filme que era um fetiche meu. Daí peguei um livro enorme e fui reler algumas partes… Bom, posso te dizer que o livro foi um impacto tão forte em mim, que parece que eu despertei de uma letargia, não foi nem sonho, nem pesadelo. Era como se eu não estivesse presente… como se eu voltasse de algum lugar dentro da minha mente, onde eu não me reconhecia.

    — Vou resumir: voltei a ser quem sempre fui, estou feliz, adoro minha vida e até passei a frequentar as novenas das quartas-feiras, com minha mãe. Depois saímos, tomamos um café, eu a deixo em casa e vou leve e feliz para a minha.

    — Estou bem, Lídia, como se eu tivesse achado o meu lugar certinho no mundo.

    — Você? Sempre tão inquieta, tão curiosa…Não acredito. — E aquele gato? Aquela situação toda que você me contou?

    — Ah, amiga… foi como eu te falei. Eu me equivoquei. —— Achei que precisava por um pouco de ação em minha vida. Que seria capaz de viver um romancezinho banal, só pelo prazer da mentira, do oculto.

    — Aí eu olhava pro Pedro, tão lindo, tão ocupado com seus processos, tão gente boa…Comecei a repensar a minha vida. Resolvi fazer um “estudo de caso”.

    — Peguei aqueles filmes bem pornôs, assistia e ficava com uma espécie de ressaca moral. Outros eu me enojava. Outros eu achava tão sórdidos que eu parava de assistir. Fui tendo uma overdose de personagens promíscuos, vadios, sem moral, sem escrúpulos.

    — E ai? — Aí revi o filme que mexia muito com minha imaginação. Um romance quente, incrível, sexy, assistido há uns quinze anos atrás, e desde então eu o acariciava como um sonho a ser realizado.

    — Ah, até já sei qual é. Você já tinha me falado desse filme. É o Ladrão de Corações, não é?

    — Esse mesmo!

    — E aí? Aí que eu pude colocar os personagens reais no enredo e não gostei do que poderia acontecer…

    — Nossa! Você foi fundo mesmo em sua dúvida!

    — E que mais?

    — O livro. Desse nem vou falar. Só pelo nome você vai saber: Madame Bovary. Lembra quando o lemos para o trabalho de Literatura? A polemica que deu? Era a sociedade repressora? Ela seria uma mulher que obedecia aos seus instintos mais primitivos? A forma como ela foi descrita, a crueza como a sociedade a julgou, o seu fim melancólico, tudo calou fundo em minha alma.

    — Sabe por quê?

    — Descobri que não sou nem a engraçadinha e nem a bonitinha mas ordinária. Ainda sobrava em mim a característica juvenil de querer infringir, sei lá.

    — Mas não suportei pensar que eu ia engrossar as estatísticas de lares desfeitos, casais de faz de conta, mulheres que traem seus lares, seus filhos, seus maridos. — Foi isso, Lidia!

    — Caraca, Diana! Ganhei a aposta!

    — Que aposta?

    — Que fiz comigo mesma!

    — Hahaha! Você ainda tem essa mania Lidia? Só você mesmo

    — Vamos amiga?

    — Vamos! Embora falar de outras coisas!


  • A Loira Do Banheiro

     

    — Alguma coisa deve ter acontecido com ela no banheiro. 

    — Seria no banheiro de casa? Ou no da escola? Talvez no banheiro de uma estação de ônibus. E se era passageira e não olhou o número do próprio ônibus antes de entrar no banheiro?

    Na estação, ficam dez ônibus com motoristas impacientes apressando as pessoas para partir.

    Aí você entra em um dos ônibus e não vê ninguém conhecido, desce e vai entrando em outros, até que finalmente encontra seu ônibus e senta com uma cara de quem nem estava apavorado com a possibilidade de ser abandonado na estação.

    — Pode ter sido nessa ocasião e nesse banheiro que aconteceu alguma coisa com a Loira do Banheiro.

    — Também penso que talvez possa ter sido no casamento dela, porque ela está sempre de branco.

    — Ou então num hospital, e ela saiu com o lençol branco que a cobria para ir ao Banheiro, onde tudo aconteceu, e por isso ela usa o lençol até hoje.

    Dizem que ela gosta muito de banheiros de cinema, de escolas, de parques… Dos lugares onde há mais pessoas, pra que a correria e a gritaria seja bem grande.

    — Eu acho que ela precisa de plateia!

    — Eu mesma nunca a vi. Mas conheço um monte de meninas e meninos que a viram. Talvez quando eu estudava e ia ao cinema e aos parques, ela ainda não aparecia para ninguém. Não sei.

    — O que sei é o apavoramento que ela causava, não há quem a tenha visto que não conte como foi. Uns ficam com tanto medo, que contam pouco, e outros não param de falar de todos os detalhes que se lembram.

    — Então, a Loira do Banheiro foi uma lenda urbana que surgiu entre as décadas de 1970 e 1990. Depois ela sumiu.

    — Ahh, ia me esquecendo do mais importante: o que dava pavor e medo eram dois chumaços de algodão ensanguentado tapando suas narinas.

    — Olha, quer saber? Eu acho que na verdade ela nunca existiu

    — É… Pode ser. Na verdade, lembrei-me dessa história quando fui limpar o banheiro do apartamento e encontrei um chumaço de cabelo loiro no cesto de lixo.

    — Cabelo loiro no lixo! Sim! Hoje o Antonio vai ter que me contar direitinho que história é essa de Loira do Banheiro. Ah, se vai!

  • O Trajeto

    Cansada, tarde da noite a moça atravessa a pé um triângulo de ruas, para finalmente chegar à avenida onde passam os coletivos.

    Ela sabe que não deveria fazer esse trajeto, mas só de pensar em aguardar quarenta minutos por outra condução para chegar ao mesmo ponto, lhe dá o impulso necessário para, mesmo que de salto alto, “trotar” por aquelas ruas desertas e cortar caminhos.

    Ela evita as calçadas, onde as árvores frondosas as tornam sombrias, os recipientes de lixo atrapalham, os muros escondem cachorros e os tapumes abrigam desocupados ou bêbados.

    Sendo assim ela anda, anda e anda batendo seu salto no asfalto. Que emana ainda o mormaço do sol inclemente da tarde.

    Evita pensar, ela se abstrai.

    Seus passos ressoam cadenciados e sua atenção concentra-se em seus pés e em  seus cadernos e bolsa bem presos em um dos braços.

    Na realidade, se lhe perguntassem, talvez a moça nem soubesse responder porque escolhera aquele caminho. Chegar vinte minutos antes ou depois em sua casa, não era assim uma questão crucial. Todos estariam dormindo. Ninguém esquentaria o seu jantar, nem lhe massagearia os pés. Não há desconsolo em seu andar, o toc, toc ritmados dos seus saltos é a sinfonia naquela rua ora iluminada, ora escura.

    Chega ao ponto de referência, a praça onde as ruas juntam-se em um pequeno círculo, com uma estátua inócua ao meio, dois ou três bancos e algumas plantas, em um arremedo de jardim. A partir desse local basta andar alguns metros e ela chegará à avenida onde tomará sua condução.

    Poucos minutos depois, o ônibus pára, rangendo os freios e ela embarca. Não há surpresa nem alegria nessa ação. Procura um lugar e senta-se. Ao olhar em volta, rostos desconhecidos a observam.

    Nota a curiosidade dos passageiros, e estes por sua vez também lhe são estranhos. Homens com a barba do dia seguinte já aparecendo, a olham de esguelha procurando descobrir em suas roupas, em seu rosto, em seus modos, que espécie de moça subiria num ponto de ônibus deserto àquela hora da noite. Os cadernos em seus braços não informam nada, nem se é aluna ou professora.

    As mulheres com sacolas cheias sabe-se lá do quê, fingem não vê-la, afinal é moça e ainda bonita, parece nada ter em comum, nem mesmo a empatia de ser mulher, como elas. Os rapazes semi-bêbados estão mais interessados em pilhérias uns com os outros.

    Por uns instantes ela se desconhece e  esquece o que faz ali, por aquele não ser o ônibus do seu horário habitual. Tudo por ter resolvido cortar o caminho.

    Não faz a menor diferença. Suspira. Recosta-se no banco e fecha os olhos. O ônibus continua seu trajeto.

    Segundos depois, já refeita, ela se ajeita melhor, respira fundo e sequer solta o ar, quando sente uma respiração ofegante em sua nuca e uma voz dizendo: Moça…

    Maria Elza 🌷

  • Medo

    Luiz descia a rua assoviando. Mais uma quadra e meia chegaria em sua casa. O bairro era escuro, poucos postes de iluminação, o dia ainda no lusco-fusco do alvorecer. Ele era porteiro de um hospital e estava vindo de seu plantão noturno.

    Antes da esquina onde morava, Luiz passou em frente ao que fora uma mercearia, agora abandonada, quando seus pés toparam em alguma coisa grande e, desse tropeço, quase foi ao chão.

    Aprumou-se, virou a cabeça  para ver o que era. Como a varanda da antiga mercearia  estivesse na penumbra ele se aproximou mais, para conferir no que havia esbarrado.

    Quase desmaiou com o que viu. Deu dois passos para trás, cambaleando colocou as mãos na cabeça, olhou para um lado e para o outro e dirigiu-se rapidamente para um orelhão que ficava na extremidade oposta da calçada.

    Luiz acabara de encontrar um corpo!

    Um corpo de mulher!

    Sem titubear ele ligou para o numero da policia.

    As viaturas chegaram buzinando meia hora depois e foi aquele movimento de curiosos, todos com olhares incrédulos.

    Jovem, nua, com os braços abertos em formato de cruz, os pés um sobre o outro, como do calvário, amarrados por um pedaço de pano estampado talvez rasgado das próprias vestes da mulher.

    Após várias fotos e todos os levantamentos de praxe recolheram o cadáver e Luiz seguiu dentro da viatura.

    Durante o dia, a padaria do bairro foi o ponto de encontro onde as noticias eram passadas entre os moradores. Todos eram unanimes em contar que Luiz estava bem e em sua casa. Ele apenas deu seu depoimento e foi orientado a ficar à disposição da policia.

    O corpo foi identificado como de uma garota dos arredores que costumava beber em companhia dos homens ate tarde da noite. Dai em diante as historias iam aumentando, mas nada havia de concreto que levasse ao motivo do crime, ou ao criminoso.

    O cotidiano se desarruma em ocasiões que fogem à normalidade. Os velhos que faziam das calçadas seu lugar de passar o tempo, enquanto a casa era organizada e o almoço feito, não apareceram; os bebados a quem pouco importa o tempo, mudaram de boteco, as crianças não brincaram pelos arredores e, até os cachorros que modorram ao sol, transitam e brincam entre si, pareciam diferentes. O ar da morte é inexplicável. E morte violenta é mais ainda.

    Antes que passasse esse período estranho, ou o fato caísse no esquecimento, eis que menos de um mês depois, ao escurecer, uma empregada domestica pedalava sua bicicleta por um atalho, que a faria ganhar tempo para chegar em casa, quando foi vista correndo como doida, até cair desmaiada na porta do primeiro casebre da rua.

    Os moradores a ampararam, deram-lhe agua para beber, foram buscar sua bicicleta que ficara jogada, enquanto aguardavam a cor voltar ao seu rosto e ela poder contar o que havia acontecido.

    Não precisaram mais esperar! As crianças descabeladas, descalças, sem camisas, moradoras do local, vieram do campinho onde jogavam bola  gritando: “Tem um morto, tem um morto”!

    Sim senhores! Um rapaz morto, braços abertos, pés sobrepostos e amarrados, tal qual a mulher que Luiz encontrara dias antes.

    Nada se compara ao que aconteceu daí em diante. Televisão, repórteres, jornalistas, mães apavoradas, escolas sem aulas, o pânico se instalou naquela cidadezinha de menos de 20 mil habitantes.

    A capital mandou reforço policial, rondas, batidas policiais, toque de recolher, a vida em suspenso, sem aulas nas escolas, a semana perdida

    O assassino já tinha uma alcunha: “Defensor da Moral”. Mas ainda faltava ser identificado e preso.

    Desta vez o morto fora um rapaz, cuja sexualidade gerava fofocas e olhares. Um jovem que vivia com a família, nunca se metera em nada ilícito, educado, bom filho, que trabalhava na construção civil. Pois ali mesmo, no atalho que levava ao canteiro de obras em que era ajudante de pedreiro, ele foi morto. Não estava nu, apenas sem camisa. A posição em que foi encontrado não deixava duvidas: fora morto pelo mesmo assassino da jovem de dias atrás.

    A policia deu batida nas casas, fez interrogatórios, pediu riqueza de detalhes dos prováveis suspeitos.

    Quem namorara a moça? Com quem ela vivia? Tinha desafetos? Essas eram as perguntas do primeiro caso. Com o rapaz do segundo caso, como era de apenas 18 anos, as perguntas foram: brigou com alguém? Devia dinheiro? Estivera fora da cidade? Nada! Nenhuma pista.

    Passaram-se dois meses e como dizem “viuvo é quem morre”, infelizmente a vida foi voltando ao normal na cidade.

    Já não se viam mais tantos policiais, a vida noturna no pequeno quadrilátero igreja, prefeitura, praça, correios voltou a ser ponto de passeio de transeuntes, apenas a mãe do pobre rapaz ainda chorava sua morte.

    Quanto a primeira vitima, como  não era  natural da cidade, não despertou tanta comoção.

    Não se ouvia mais nada nas rádios, nem televisão, nenhuma notícia.

    Mas as investigações estavam adiantadas nos bastidores policiais. Entre o meio já corria a versão de que o assassino seria um  psicopata. Um psicopata! Isso tornava o caso mais amedrontador. Significava que não havia motivo para o crime, qualquer pessoa poderia ser uma vitima em potencial. Outra característica era de que assassinos dessa natureza gostam de ser noticias,  ser lembrados, mostrar a sua esperteza, enfim.

    Eis que acontece uma nova morte! Tres meses depois da  primeira jovem, dois meses do segundo caso, sem nenhum suspeito dos crimes, surge o terceiro caso!

    Uma estudante de 13 anos! Uma menina!

    Deixada na mesma posição dos outros dois, na mata, perto do caminho da escola. Nesse caso, um menino com quem a garota estava vindo da escola e talvez iniciando um namoro viu um homem vindo na direção deles e saíram correndo.

    Ela saiu para um lado e ele para outro. Infelizmente a garota foi pega e morta. Mas o jovem que estava com ela viu e deu a  descrição de quem era o assassino.

    E isso fez com que fosse descoberto.

    Dentro de sua casa, mãe trabalhando fora, aos 16 anos a mente de um psicopata havia aflorado.

    “psicopatas e sociopatas possuem muitas características em comum. As duas condições resultam em indivíduos imorais, mentirosos, inteligentes e manipuladores, por isso muitas pessoas utilizam os termos como sinônimos”.

    Todos na cidade já sabiam quem era o assassino e a causa dos assassinatos. A causa era o seu julgamento moral. Ele julgava e matava. A prostituta, o rapaz solitário, a namorada. Tudo devidamente registrado em um caderno. Um justiceiro da moral e dos bons costumes. Uma mente doente.

    Ele foi preso e tirado da cidade. A policia temia pelo seu linchamento.

    Luiz foi liberado da restrição de não sair da cidade, assim como  os moradores do subúrbio onde a segunda vitima fora encontrada. O rapazote que estava com a ultima vitima e sua família mudaram-se de lá.

    No quarto do assassino foi encontrado uma lista de nomes de pessoas, desenhos macabros, livros de exorcismo e mais vários objetos que denunciavam a sua condição mental.

    Como era menor de idade ficou na ala psiquiátrica de um hospital geral. Mas o medo que provocava fez com que o levassem para outro abrigo de menores delinquentes, onde também não foi bem vindo.

    Atualmente está no presídio estadual, onde atormenta os oficiais de segurança, pessoal da enfermagem, juizes, defensores e todos os profissionais que precisam lidar com ele.

    O seu olhar, as ações, e o seu histórico de crimes falam por si. Medo é o que ele causa!

    Medo…

    Maria Elza

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Domingo

    Sol quente, areia queimando os pés, algazarra, sucos, cervejas, caranguejos sendo quebrados, socados com um martelinho de madeira, numa busca frenética pela carne branca e rija dos crustáceos.

    Na mesa, umas oito pessoas falavam e riam. Era uma alegre e típica família que viera aproveitar um domingo na praia.

    Queijo coalho” ouviam-se ao longe os gritos dos vendedores que caminhavam pela areia  com seus fogareiros, garrafinhas de melaço, saquinhos de orégano, trazendo a “iguaria” onde sabiam e reconheciam seus prováveis clientes.

    Geralmente onde há crianças a venda é certa! Paravam, balançavam o fogareiro, as fagulhas do fogo se avivavam com o vento, aí com uma destreza só,  eles viravam o palito de queijo entre os dedos e num instante o cheiro bom de queijo assado tomava conta daquele pedaço de praia.

    Olha o amendoim, gritava outro, e passava a xicarazinha de amendoim torrado  com três ou quatro amostras  ou então a castanha de caju, que chegava a ser docinha de tão boa, num fundinho de copo de plástico. Vai querer, vai querer? O amendoim no saquinho de papel pardo, o garoto recebia o seu pagamento e seguia seu caminho.

    Olha o picolé, olha o picolé, gritava outro e ia chegando e juntando a gurizada em volta do carrinho.

    Além das guloseimas, o espaço também era lugar de venda de bijuterias, cangas, tatuadores de henna, vendedores de camisetas e geralmente brinquedos e novidades que fariam sucesso apenas em um verão, mas que encantava as crianças.

    Quase onze horas, lá vinha o menino com o peixe vermelho cru cheio de condimentos, oferecendo aqui e ali, ‘num instantinho estará assado.”

    Ahh, acompanha a farofa, o vinagrete, vem numa telha ou casca de bananeira, dá para até seis pessoas. Se a senhora quiser podemos trazer uma porção de batatas fritas, até que o peixe fique pronto, mas não deixe de pedir o peixe porque a senhora não vai comer nada igual,” explicava o garoto da barraca acostumado as lidas de vendas e que conhecia bem onde faria sucesso com a sua cantilena.

    O desfile de ofertas não tinha fim!

    — Esse menino não passou aqui agorinha?

    — Perguntou a senhora a sua sobrinha.

    — Não, não era esse, aquele foi, esse está vindo. Tia quantas cervejas a senhora já tomou?

    — Ah, mas é praia, e só uma vez ao ano! Interveio o tio.

    — Que é isso, menina? Me respeite!

    Praia?

    Sim, lá estava o mar em seu balanço, no ir e vir das ondas, ora chegando junto das pessoas, ora voltando para sua imensidão solitária.

    Parecia também querer participar da festa, da comilança, do fuzuê, da gritaria, da lambuzeira de óleo de bronzear, de gurizinho ranhento, da mocinha de biquíni feliz porque já estava com peitinho; da senhora alegre de cerveja e da folga que tirou da cozinha, em um programa alegre com marido, netos e sobrinha, os pés enfiados alegremente na areia fofa da praia.

    O mar era testemunha e se alegrava com os garotos que plantavam bananeiras na areia, com os rapazes que jogavam futebol, os senhores que andavam e carregavam os tênis nas mãos. Naquele vai e vem das ondas, o mar era o astro daquele espetáculo.

    E o domingo foi indo, indo, as pessoas juntando seus guarda-sóis, seus apetrechos de praia, até que não sobrou mais ninguém e o mar ficou sozinho.

    A lua havia subido no céu e lá de cima prateou a imensidão da água, que ficou com uma cor chumbo iluminado e as ondas faziam um murmúrio suave ao ir e vir deixando um rastro de espuminhas brancas.

    E nesse vai e vem sereno elas lambiam a areia, como se quisessem se impregnar da alegria e da algazarra daquele festivo e movimentado dia, em que as pessoas esqueceram seus problemas, suas rotinas, para apenas aproveitar um dia de domingo!


    Maria Elza🌷

  • Paixonite

     

    Seu Alberto era um homem bonito. De barba cerrada, bem feita, um cheiro bom de lavanda. Manco de uma perna, distraído  ia e vinha do serviço a pé. Seu sapato adaptado lhe dava um  caminhar seguro, apesar da diferença de tamanho entre suas pernas.

    Naquele bairro trabalhadores e alunos saiam cedo para o expediente e para a escola, que também era administrada pela mesma companhia.

    A entrada da escola era um quarteirão abaixo do portão principal da empresa. O movimento era grande: colegas de serviço, colegas de escola, pais e filhos seguiam juntos pela estrada de chão.

    Todos os dias da semana essa era a rotina. Chegando à escola, filhos davam um “até logo” aos pais, um “tchau” a um vizinho, talvez um beijinho no avô e entravam alegremente ao pátio escolar.

    Os adultos seguiam mais um quarteirão, atravessavam uma avenida asfaltada e faziam fila no portão da companhia, para bater o ponto e começar o seu dia de trabalho. Uma vida comum.

    Seu Alberto era um dos trabalhadores. Seus dois filhos estudantes iam junto.  Laura era filha da vizinha deles, colega dos meninos, sendo assim  todos faziam esse trajeto.

    No meio do primeiro semestre, em plena sala de aula, Laura sentiu cólica. Conforme já orientada por sua mãe, falou baixinho com a professora e foi dispensada mais cedo da escola. Sua mãe  habituada a ver as meninas se tornarem mocinhas, logo imaginou que sua filha Laura ficaria menstruada e já tivera aquela famosa conversa cheia de recomendações: que não deveria mais andar por aí descalça, nem subir em árvores, e mais uma série de conselhos.

    Dia seguinte, Laura teve sua primeira menstruação. Mal ela entendia o que acontecera , de todo modo sentiu-se diferente, talvez importante, na verdade, um misto de sensações a deixou pensativa.

    Seus seios que despontavam como minúsculos grãozinhos tornaram-se doloridos e ela passou a carregar os cadernos agarrados à sua blusa, pois achou de repente que todos a olhavam.

    Antes das férias do meio do ano, Laura já havia despontado como uma mocinha, perdeu o ar infantil e parecia mais bonita.

    Foi nessa época que ela reparou de uma forma diferente em seu Alberto. Olhou-o como se só agora o visse, prestou atenção em sua barba bem feita, no cheiro da lavanda, e passou a preocupar-se em não perder o horário da ida à escola.

    Ela passou a observá-lo como homem.

    Para quem  nunca fora  de ir à casa da família de seu Alberto, ela agora achava um jeito de ter o que fazer ou levar para a esposa ou os filhos dele.

    Ou uma manga madura, ou mostrar os pintinhos que foram chocados naquela semana, ou pedir para olhar os porquinhos que haviam nascido, pois sua mãe criava galinhas e seu Alberto criava suínos; desculpas e assuntos em comum é que não lhe faltavam.

    Nessa paixonite, notou a pele dele bem lisinha e que, ao fazer a barba, aquela parte do seu rosto ficava com uma linda cor azulada. Observou seus cílios espessos e também que suas sobrancelhas eram  tremendamente bonitas.

    Percebeu os seus cabelos bem pretos e cacheados. Ela viu tanta beleza nele! As suas roupas eram limpas e bem passadas.

    Sua esposa não era linda, nem parecia ter sido quando mais nova. Já seus dois filhos garotos eram bonitos como o pai.

    E assim ela divagou por alguns dias. A palavra correta seria sonhar. Já se delineava em Laura a característica romântica. Então ela sonhava. E se fosse ela a esposa? E se fosse ela a mãe dos garotos? E se fosse com ela que ele dormisse?

    Nem para sua irmã com quem confidenciava assuntos secretos ela falou dele. Ela guardou para si a sua primeira paixão de mulher.

    Em um sábado pela manhã, ela ouviu os grunhidos aflitos dos porcos da casa de seu Alberto.

    Correu para a cerca, subiu em uma cadeira e na curiosidade de saber o ocorrido, ficou na ponta dos pés e olhou por entre as folhas das árvores.

    Seu Alberto, sem camisa, e com uma faca ensanguentada na mão, observava sedento o porco que acabara de matar. Sem dó, nem piedade.

    A paixão de Laura não suportou essa cena e acabou ali mesmo.

    Morreu junto com o suíno!

     

  • O Estrangeiro

    Um estranho. Para as pessoas distraídas, apressadas, pensativas, envolvidas em seus pensamentos ou problemas, em que mudar a marcha do carro vem a ser um ato automático, o rapaz parado ali naquele cruzamento praticamente não existia ou era apenas isso: a figura de um estranho.

    Nem sequer era olhado pelo retrovisor ao ficar para trás. Em vez de empatia despertava irritação, talvez…

    Um ninguém.

    Gabriela é o nome da garota que passa todos os dias naquela esquina e o viu ao olhar para ele. E teve curiosidade em saber porquê, quem, desde quando, o rapaz vive nessa situação de mendigar uma moeda, um trocado. Ela criou um enredo e dia após complementava a história imaginada sobre o estranho.

    Como ele era? Um rapaz banal. Nem alto nem baixo, moreno, jovem, cabelos pretos, roupas bem usadas, tipo de dias de uso. E um cartaz nas mãos onde estava escrito a sua nacionalidade e um pedido de ajuda.

    Não, a garota não se interessou por ele, não o achou bonito, nem charmoso, ele passou a ser percebido por Gabriela, a moça do carro, simplesmente porque coincidia do sinal fechar e ela ter de parar justo onde ele fazia “ o seu trabalho.”

    Como em um flashback, ela o imaginava em tempos atrás, em sua terra natal, conversando com seus colegas, fumando um cigarro, falando do governo, questionando o presente, talvez o futuro.

    O sinal abria e Gabriela seguia seu caminho e o esquecia.

    Mas no dia seguinte, ao ir para faculdade, novamente ela passava por lá e enquanto aguardava o sinaleiro abrir, dava asas à sua imaginação.

    Pensava como e porque o rapaz abandonou a sua vida e veio ser um pedinte numa rua de outro país? O que o levou a isso? Que desgraças fez o jovem juntar suas coisas e vir para tão longe da sua terra de origem? O lugar onde nascemos e vivemos é algo tão nosso, ela pensa.

    Tudo é familiar…os bosques, os rios, as planícies, as rochas. É o trajeto para a cidade onde mora a avó, a tia. É o amanhecer e o escurecer. É o cheiro do mato molhado pela chuva. São os barulhos dos bichos na mata, o trânsito, são os amigos, são tantas coisas…

    Teria vindo só? Ou viera com um grupo, talvez? Teria sido iludido, com promessas de trabalho? Fora enganado? Como ele viera parar ali, naquela esquina?

    Em uma cidade onde não havia praias, nem indústrias, nem empregos, que sequer era uma grande metrópole… Gabriela como estudante de Administração fazia suas análises.

    O semáforo abria, ela seguia seu trajeto e pelo resto do dia o esquecia. Mas na manhã seguinte, lá estava ele, com sua roupa surrada, seu cartaz nas mãos, passando por entre os carros, catando as moedas dadas ou até jogadas no asfalto. Ao fechar o semáforo ele voltava para o canteiro. E Gabriela penalizada continuava com seu pensamento: o país é mais do que só uma palavra…

    Passaram-se os meses, Gabriela notou que ele já não vinha só. Trazia consigo uma garota grávida. Jovem como ele, a barriga já bem aparente; ela se acomodava no canteiro, à sombra de uma arvorezinha e ficava olhando a vida acontecer, tanto para os transeuntes, como para os motoristas, naquele vai e vem diário.

    Ali, no meio da grande avenida, com uma garrafinha de água nas mãos e esperando. Tantas coisas ela esperava! Era o bebê que estava em sua barriga de uns seis meses de gravidez, era um emprego para o marido, era talvez juntar dinheiro para voltarem para casa. Gabriela ficava penalizada pela garota. Tão jovem e tão carente de tantas coisas!

    Abriu o semáforo e no instante em que Gabriela olhou pelo retrovisor, naquele lapso de segundo, o jovem e a garota se olharam e sorriram um para o outro. E ali no meio da grama alta do lugar foi como se acendesse uma luz, emanada dos olhos e sorrisos do casal.

    Nesse momento, Gabriela compreendeu o sentido de tudo e foi tomada por uma sensação de paz.

    E também sorrindo seguiu seu caminho pensando: que país, que nada!

    Maria Elza

  • O Casarão

    O trem, aos poucos, foi diminuindo a marcha; o barulho das rodas de ferro misturava-se ao chiado dos freios…

    Adélia acordou as crianças, um menino de cinco anos e a garotinha de dois anos. Paulo, seu marido, pegou as malas, sacolas, e a bicicleta do vagão de carga. Quando o trem parou as pessoas desceram, uns abraçavam eufóricos os parentes, outros buscavam o carro de praça, outros colocavam a mochila ou mala nas costas e saiam andando.

    Final de viagem, cansaço, alegria, pressa, surpresas.

    Ela desceu do vagão e ficou parada na plataforma, as mãos dos filhos menores em cada mão sua. Paulo vinha andando com as bagagens, Adelia aguardava pronta para pegarem o carro de praça e irem para a nova casa.

    Afinal chegaram à cidade onde iriam morar! Ele havia sido contratado por uma grande empresa e fora buscá-la para começarem vida nova.  

    Uma alegria só! Grandes promessas, bom salário, plano de saúde, auxílio moradia, tudo que uma jovem família podia sonhar!  

    Com Paulo tudo era assim. Ele era o mais prestigiado, ele ganharia bem, ele daria uma vida de conforto à  esposa e filhos e com isso já estavam casados havia cinco anos e até então ela não sabia o que era ter uma casa. Alternou-se morando ora na casa dos pais, ora na casa dos sogros.

    Mas desta vez Paulo garantiu que eram favas contadas: o emprego sonhado, a vida que ela merecia, tudo estava certo.

    Tentou alegrar-se, mudar o semblante.

    Adélia tinha os olhos cor de mel, era mignon, cabelos longos, muito graciosa, na faixa dos vinte e cinco anos. Paulo quase quarentão, vivido, boa lábia, o tipo que não convencia como marido exemplar e pai de família, mais parecia um cantor de pagode esforçando-se para assumir o perfil de homem de família.

    Ele apaixonou-se por Adélia assim que a viu e ela correspondeu  mais pela paixão dele e pela vontade de sair logo do jugo dos seus pais.

    Adelia não podia negar, o tempo todo Paulo procurou ser o homem ideal e quando os filhos nasceram mostrou-se um bom pai.

    Enquanto o aguardava ela olhou ao redor e o que viu não era nada animador.

    Atras dela a estação, o trem com seus vagões onde algumas poucas pessoas permaneciam embarcadas, pois seguiriam viagem até outro pais. Ao longe, à esquerda da via férrea viam-se montanhas negras, ricas em minérios, fontes de renda e de poluição.

    A sua frente um grande espaço vazio, mais parecia uma paisagem de deserto, a terra seca e branca, uma vegetação rareada e esquálida torrada pelo sol e depois o asfalto produzindo uma espécie de miragem ao calor das nove horas da manhã.

    O movimento de carros, carroças, ciclistas, pedestres debaixo do sol amarelado faziam subir um mormaço anunciando que ao meio-dia o calor deveria assemelhar-se ao de uma fornalha.

    — Vamos, vamos— disse Paulo indo em direção ao terreno vazio. Só atravessarmos por aqui, depois o asfalto e já chegamos ao quarto que tá esperando por nós.

    — Como assim? —indagou Adélia? Um quarto?

    — Calma— respondeu Paulo. Não falei pra você, mas assim de cara nós vamos pra uma pensão que fica aqui do outro lado da estação ,e  enquanto vocês descansam vou buscar a chave da nossa casa.

    —Mas Paulo, não foi isso que você falou! —Disse a jovem com a voz já embargada. Paulo abraçou a mulher, beijou a bebê que estava em seu colo e falou baixinho: confia Adelia, confia!

    Adélia suspirou resignada, pois conhecia a sensação que Paulo provocava nela levando-a do inferno ao céu com um simples abraço. Oh ódio, ela pensou! De novo o Paulo me enrolou!

    Apesar do que sentiu ela decidiu não ser hora de discussão, na rua, com malas e na frente das crianças.

    Pegou a bicicleta colocou a menina em cima e foi atravessando e seguindo o caminho indicado por Paulo.

    Chegaram, Adelia entrou, olhou para o quarto, depois para Paulo e este, rapidamente, na ambiguidade da sua natureza, viu não ser hora de usar de seu charme para desfazer a surpresa da esposa.

    — Adélia vou sair para tomar as providências. Tome conta das crianças, se quiserem tomem o café da manhã ou descansem até o almoço. Não abram a porta para ninguém!

    — Que horas você volta?

    — Vou ao acampamento pegar os colchões, a chave da casa com o proprietário, ver se a energia e a água estão ligadas, ajeitar tudo e venho buscar vocês.

    Hoje mesmo vamos dormir em nossa casa! Beijou-a com paixão, fez um afago nas crianças e saiu apressado.

    Adélia resolveu não julgar Paulo, nem desanimar. Tomaram banho e se deitaram para descansar, pois a viagem fora longa.

    Quase escurecendo Paulo chegou no jipe da empresa carregado com mantimentos, panelas, vasilhas e colchões de solteiros. Disse já ter ido a casa, e a mesma já fora limpa e na mesma animação brincou com os filhos:

    — Quem vai comigo amanha comprar os moveis? Quem? Quem?

    — Vamos crianças, peguem suas mochilas!

    — A gente tá pronto, pai! — Gritaram, animados.

    — Não te disse Adelia que hoje a gente ia dormir em nossa casa? —Paulo anunciou sorrindo para Adélia.

    Ah, tem mais: A empresa abriu uma linha de crédito! Amanhã compraremos tudo que falta.

    E saiu levando malas, bicicleta, sacolas e foi ajeitando na condução.

    Tudo arrumado despediu-se da dona da pensão e partiram para a vida nova.

    Adelia num turbilhão de pensamentos e sentimentos.

    Final de tarde, os pontos de ônibus lotados, carros indo e vindo; ela ansiosa e as crianças curiosas.

    O marido ia explicando por onde estavam passando, aqui a praça, lá a prefeitura, ali igreja matriz; as ruas iam ficando sem movimento e eles ainda seguindo, entrando por ruas secundárias, deixando o centro da cidade. O morro ou montanha que ficava à esquerda da estação e  parecera distante, agora estava tão perto!   

    Paulo adentrou em uma rua onde novamente se via movimento de ciclistas, pessoas, pequenos comércios, bares, açougues e Adelia percebeu que estavam na rua principal de algum bairro, bem ao pé da montanha. Paulo seguiu mais um pouco e chegou em uma esquina da rua principal, onde parou e disse: A casa!

    Uma casa de esquina com a cor de um rosa desbotado e em formato de L. com várias portas, onde outrora deveria ter sido um armazém, na rua principal de um bairro movimentado.

    Paulo parou e desceu do carro. Abriu o portão de madeira em que faltavam algumas tábuas e colocou o carro para dentro do quintal.

    Destrancou a porta de trás, desceu as crianças, depois ajudou Adélia a desembarcar.

    Abriu a casa e entusiasmado entrou no  interior do antigo armazém, um grande espaço único. Adélia olhou, não viu sala, quarto, cozinha. Paulo falava de divisão para os quartos, do espaço de sala e cozinha, o quanto seria bom ela e as crianças ficarem próximas e seguras.

    Adelia com vontade de gritar, puxar os cabelos, estrebuchar de ódio e ele na descrição da casa gabando o quintal, onde havia um caramanchão com uma lavanderia de um lado e de outro lado um fogão a lenha e churrasqueira, já pensou que beleza? disse.

    Ela não abriu a boca, apenas olhava  e ouvia.

    Sua raiva não podia explodir, não ali na frente dos filhos!

    Paulo pegou os colchões colocou no cômodo vazio, depois as malas e sacolas e foi ajeitando perto dos colchões.

     No mesmo tom e disposição como mostrou a casa ele disse:

    — Adélia ajeita as camas enquanto vou rapidinho comprar presunto e pão para o cafe da manhã e carvão, refrigerante, e uma carne para assar. Foi ao quintal confirmar o esquema já deixado durante a tarde e saiu apressado pelo buraco do portão.

     — Não demore Paulo, pelo amor de Deus! — gritou Adélia.

    — É aqui em frente amor, do outro lado da rua, eu não demoro.

    Ela trancou a porta e começou a arrumar “o quarto.”

    — Paulinho me alcança a sacola e você Claudia senta aqui, mamãe vai arrumar a cama, tá?

    Pegou um desinfetante da caixa de compras e foi passando pelo chão, “naquela merda ali decerto tinha ate barata” pensava com a raiva remoendo por dentro.

    Foi ajeitando os lençóis, quando ouviu chamarem do portão. Ela trancara a porta, ainda bem!

    A voz de um homem. E não era seu marido.

    Ei, quem tá aí? — Ei, tem alguém aí?

    O homem já chamava bem próximo à porta, as crianças se assustaram e começaram a gritar pelo pai e chorar. A mãe tentava acalmá-los quando ouviu a voz de Paulo:

    — Quem é você? O que quer aqui? – Paulo gritava em voz alta ao estranho.

    — Eu é que quero saber! O que você está fazendo? Quem são as crianças que estão chorando trancadas aí dentro? Olha cara, nós nunca mexemos com crianças, hein? A gente bebe, fuma, joga, “mais nóis não é bandido não!” – Vociferava o estranho, cheio de razão!

    —Fora, gritou Paulo! Aqui é casa de família, sou o novo morador, vai andando, vai andando! Amanhã mesmo mando  arrumar o portão e não quero ver mais  ninguém entrando no quintal!

    O estranho por sua vez amaciou o tom e disse:

    —Ta certo. Sou o Tonho e cuidador aqui da rua. O dono dessa casa me dá uns trocados, “prá” eu nao deixar ninguém invadir. Não sabia que ia ter morador…

    Posso fazer a “guarda” se o “sinhô” quiser, até todo mundo saber que agora é casa de família…

    —Não precisa. Sou do exército e tenho soldados para fazer a guarda. Vaza daqui!

    Rapidamente o intruso se foi e Paulo entrou para acalmar a família.

    Esse episódio o poupou da bronca de Adélia, que amedrontada seguia arrumando as camas improvisadas, e acabou com a idéia do churrasco.

    Em silêncio comeram pão com refrigerante e foram se deitar.

    Quando as crianças dormiram ela se acomodou ao lado do marido e deitou a cabeça em seu ombro.

    No quintal, a planta “dama da noite” exalava seu perfume agridoce e pungente. Uma mistura de amor e compaixão tomou o lugar da decepção no coração de Adélia.

    Ficaram abraçados pensativos, até que Paulo começou a falar sobre o ocorrido e a vida nova que teriam. Mais uma vez ele pediu um voto de confiança à mulher e disse: “não estamos sós, tem a empresa, o emprego é bom, tudo é uma questão de tempo. Vamos achar uma casa melhor e tudo vai dar certo.”

    Eles se beijaram e o amor amenizou o ocorrido, sorriram um para o outro e enfim descansaram dormindo abraçados.

    Amanhecia…A noite indo embora, as nuvens alaranjadas anunciavam o sol  nascendo para esquentar mais um dia. O marido levantou-se e avisou Adelia que iniciava-se o seu dia de expediente. — Mas já? E nós, o que vamos fazer?

    — Calma, eu explico. Hoje sou o responsável pelo “rancho” do acampamento. Vou pegar um colega, fazer as compras e às sete horas o café tem que estar à mesa. O restante do dia estou liberado. O chefe me deu o dia livre. Vamos às lojas assim que eu  desocupar, ta bom? E vocês crianças fiquem em casa e obedeçam a mamãe recomendou.  

    Beijou Adélia com ardor e saiu.

    Chegando ao acampamento havia uma incumbência diferente para Paulo. Teria que ir à estação pegar mais um colega e família que vinha trabalhar na empresa. A firma resolveu apressar o serviço, pois o tempo estava seco e as fundações teriam que ser feitas nessa época. Sendo assim ainda recrutava trabalhadores retardatários, que iam chegando dia após dia.

    Paulo rapidamente voltou à cidade, pois era quase hora da chegada do trem.

    Assim que o colega desembarcou com mulher e crianças, eis a surpresa!

    — É você mesmo? — Cara, que bacana te encontrar aqui! Paulo imediatamente o reconheceu: foram colegas da juventude. Abraços, reconhecimento, apresentações, e enfim a pergunta:

    — Já estão com a chave da casa?

    A história era a mesma: ficariam em uma pensão em frente à estação até que fossem ver a casa e tal. Em um misto de pressa e simpatia Paulo o convidou para que fossem até a sua casa, havia lugar para todos e sendo colegas da mesma empresa, seria bom para as crianças de ambos e para as esposas que se conhecessem logo.

    O armazém circundava a esquina, então havia mesmo um outro bom espaço a ser ocupado e Paulo pensava com isso agradar Adelia, pois assim ela não ficaria sozinha o dia todo com as crianças.

    Assim fizeram. Foi quando o amigo disse:

    —Paulo, eu tenho uma casa em vista já reservada pra mim.

    Que tal a olharmos? Quem sabe serve para nós todos!

    Adélia gostou, pois sem dizer a Paulo como se sentia ali naquele lugar, o amigo decidira por ela!  Pelo menos abriu essa possibilidade.

     

    Todos concordaram, se amontoaram no carro e foram a imobiliária pegar a chave e ver o imóvel.  Era um sobrado.

    Um casarão antigo; no primeiro piso uma sala que um dia deveria ter sido maravilhosa, com uma escadaria que fora imponente em outras épocas.

    No andar de cima quatro enormes quartos com banheiros. Uma construção sólida, mas antiquada.

    Verificaram as instalações elétricas e hidráulicas, trancas e cadeados de portas e janelas, se a casa era segura e por fim decidiram que aquela era a casa ideal para as duas famílias.

    Que beleza!

    Tudo resolvido, foram almoçar e depois às lojas comprar os mobiliários. Aquela noite fizeram o churrasco, brindaram a nova vida, esqueceram todos os problemas e dormiram felizes no antigo armazém.

    No dia seguinte fizeram a mudança para o casarão, escolheram os quartos, e como a loja entregaria os móveis ma parte da tarde, os homens foram ao acampamento.

    Adélia e sua nova amiga começaram a limpeza, enquanto esperavam a entrega dos móveis. As crianças estavam alegremente brincando e descobrindo a nova casa.

    As esposas tagarelavam esfregando o chão da sala para que aparecesse o piso maravilhoso que se desenhava embaixo da sujeira, e não perceberam que estavam sendo observadas, quando ouviram bater palmas.

    As duas mulheres se entreolharam admiradas pensando que os entregadores dos móveis vieram antes do esperado.

    Adélia foi até a janela de onde já estavam sendo olhadas por dois homens e eles não eram os entregadores de móveis.

    Ela olhou e disse:

    — Pois não?  

    Um deles exclamou: — Que bom que vão reabrir!

    O outro perguntou: — Que horas vocês vão começar a atender?

    Mais uma provação para Adelia?

    Ahh não, isso não!

    E com a força de toda a raiva acumulada nos dias anteriores, ela pegou o balde de agua suja e jogou pela janela no homem que ali estava, e saiu porta a fora brandindo a vassoura e gritando a plenos pulmões

    —Fora, fora! Aqui é casa de família,   seus desocupados! Fora da minha casa!

    Os dois homens dispararam pela rua, Adélia brandindo a vassoura atrás deles; a amiga, sem entender ao certo o que se passara, viu-a voltar e ajoelhar-se no piso molhado, tomada por uma gargalhada incontida.

    Ria, ria e chorava  misturando as lagrimas à sua risada.

    Naquele dia e momento, Adelia enfim, encontrara o seu papel no mundo!

    Maria Elza

  • Reflexões V – Frases Motivacionais
  • Minhas histórias – Socorro Tia!

    Eu a considerava uma idosa. Mas ela era apenas uma mulher sozinha. Nas famílias antigas era muito comum acontecer isso. A moça que não se casava ficava na família, à disposição de quem precisasse dela. Só hoje eu tenho esse olhar, esse entendimento. À época eu olhava a necessidade que eu tinha dela, o quanto eu queria que ela viesse para minha casa me ajudar…eu já tinha duas filhinhas e estava esperando outro filho. Então ela era o meu sonho, uma tia que pudesse morar comigo e me aliviar da carga pesada que minha vida tomou em pouco tempo. De estudante aos dezesseis anos eu era mãe de três filhos aos dezenove. Muita responsabilidade, muito serviço, muito tudo. Mas quem era eu para ousar pensar nisso. Embora eu fosse casada e com filhos eu ainda não fazia parte da roda dos adultos. Mas, neste ponto desta história eu me ajoelho mentalmente, para agradecer primeiro a Deus, depois aos meus pais, não sei se a mãe ou ao pai ou aos dois.

    Eles estavam atentos a mim, a minha luta diária mas, como foi a conversa, como conseguiram não sei, só que ela apareceu em minha casa com seu pequeno embrulho de roupas, pouquíssimas coisas de toalete, e uma total disponibilidade de alma para morar comigo e me ajudar com as crianças!

    Minha tia! Irmã do meu pai. Uma velha jovem que achou tudo tão fácil, escolheu a filha do meio e passou a cuidar dela, dava banho, arrumava seus cachinhos e a chamava de “Che mitã Cunhã”.

    E assim ela morou comigo por alguns poucos anos, porque certamente já havia outra pessoa da família precisando dela e, da mesma forma que os adultos resolveram que ela viria me ajudar, já tinham decidido quem ela iria ajudar dessa vez.

    Com estas memórias quero apenas homenagear um ser humano assim tão despojada de si mesma, tão feliz em cuidar dos outros, pelo menos eu tive essa graça de vê-la como uma tia-avó amorosa da minha filha, uma pessoa que passou por este mundo para mostrar o dom da doação.

    Obrigada, minha Tia Crescencia por ter nos dado de beber da água da sua fonte: a Fonte da Doação!

  • Minhas Histórias / Lembranças e Saudades Jardim-MS II
    Em início de 1967 eu cursava o terceiro ano ginasial e faria 15 anos em outubro daquele ano. Aos rapazes ( meus irmãos), a vida oferecia um futuro delineado no que os aguardava como serviço militar obrigatório, mas que no fundo era uma boa possibilidade de aprenderem uma profissão, engajarem na vida militar, ou mudarem para outras cidades, enfim. Já para as meninas não havia um futuro profissional à vista, pois naquele tempo, salvo engano, os estudos em nossa cidade de Jardim encerrava-se com o curso ginasial. Em minha família nasceram seis filhos homens, depois uma menina, mais um menino e depois eu. A prole completou – se com mais duas meninas e dois meninos. Éramos treze filhos. Fui a segunda menina e nona filha. Com a família formada a maioria por homens, as meninas ( eu e minha irmã mais velha) não tínhamos nem uma noção do que seríamos “quando crescêssemos” e, já estávamos mocinhas. Sendo assim ajudar nas tarefas da casa e estudar era o nosso presente. O futuro? Creio que nem meus pais faziam ideia do que esperar. Pois bem, nesse ano a nossa cidade foi escolhida por um grupo empresarial formado por uma grande família de origem portuguesa, um grupo de irmãos, cunhado, irmã, mãe e filhos, que instalaram-se primeiramente em Bela Vista e depois mudaram-se para Jardim e foram os precursores na construção do que seria o que conhecemos hoje por uma loja de departamentos. Não que na cidade não houvesse lojas! Havia sim! Jardim com sua localização privilegiada, na região central entre as cidades vizinhas e as fazendas dos arredores era uma cidade que oferecia aos clientes lojas de tecidos finos, lojas de móveis, lojas de materiais de construção, lojas de ferragens, lojas agropecuárias e lojas de variadas mercadorias. Mas a Luso Comercial Brasileira seria uma loja de departamentos. Lá as mulheres encontrariam desde sapatos finos, maquiagens a armarinhos; materiais de costura e tecidos, até sacos brancos para limpeza. Os homens comprariam todas as espécies de mercadorias tanto para uso próprio, como chapéus, uísques e sapatos, como materiais de fazenda, o rancho para os empregados, fumo de corda, arroz e feijão em sacos de 60 kg, móveis, lampiões, latas de querosene, cordas, fogoes a gás e tudo mais que se possa imaginar. Isso movimentou os ares da cidade com o burburinho e o assunto de todas as rodinhas de conversas, pois gerou uma grande expectativa com a possibilidades de empregos, mais impostos para o município, o impulso para o progresso da cidade e região. O local foi delimitado, bem no centro, um grande espaço onde montavam-se os parques de diversões que de vez em quando chegavam à cidade. Pela minha memória apenas duas pessoas tinham seus pequenos negócios em salões pequenos e antigos de madeiras e saíram do local. Era uma barbearia e o outro creio que fosse uma sapataria. O terreno ocupava o centro da quadra. Um mangueiral majestoso no meio do terreno. E esse foi o primeiro trabalho dos homens que vieram labutar na empresa. Dias e dias até acabar com as árvores, juntar a madeira, descartar as folhagens para deixar limpo o terreno. E os tratores da terraplanagem começaram a aplainar o imenso espaço onde seria construída a empresa. Deu-se o começo à construção dos tapumes e logo em seguida o início dos alicerces do grande prédio que abrigaria a loja de departamentos; importante dizer que montou-se uma fábrica de ciblocos, uns blocos de concreto que seriam usados na construção em lugar de tijolos. Os donos eram arrojados, trouxeram trabalhadores de fora, um número significativo de homens. Meus irmãos também se cadastraram para o trabalho, caminhões iam e vinham, a cidade ganhou novos ares. Foi um acontecimento que só os mais antigos da cidade poderão me corrigir ou completar minhas observações. Os serviços de altos falantes percorriam todos os cantos da cidade fazendo os anúncios do novo estabelecimento. Pois bem, a construção se deu rapidamente, da noite para o dia surgiu o enorme salão de alvenaria e, na parte de cima em uma espécie de mezanino, várias salas onde se instalaria a área de administração e gerência. O responsável pela parte de Recursos Humanos era um dos irmãos portugueses, o João Gomes ou João Portuga como os peões se referiam a ele. Com a construção terminada, os caminhões chegavam lotados de mercadorias e a arrumação da loja iniciou-se. Emblemas de grandes fornecedores nacionais como Dias Pastorinho, Matarazzo, e tantos outros estacionavam em frente ao grande armazém para descarregar as mercadorias. Vieram trabalhadores das cidades vizinhas como Bela Vista, Guia Lopes da Laguna, Aquidauana para trabalhar. E houve um chamamento para seleção dos novos funcionários ali de Jardim. Eu e minha irmã atendemos a data para os testes de seleção de pessoal e entramos na fila. Com um misto de medo e alegria fui selecionada, juntamente com outras garotas das famílias mais simples da cidade. Nao me recordo como foi o processo para a seleção de pessoal, se a prova foi de português e matemática, se houve entrevista, nada disso . mas no dia da inauguração, com a benção do Padre José Ferrero e a presença de todas as pessoas importantes da cidade, eu estava lá, em fileira organizada com mais umas quantas jovens vestidas com um uniforme bege clarinho onde no bolso do peito havia o nome e o emblema da Luso Comercial Brasileira. Inexperiente, quase caipira, sem nenhuma bagagem a não ser o dos estudos e dos livros que lia fui trabalhar na loja de departamentos. Sendo boa observadora, tímida e quieta acumulei na memória muitas episódios do que foi a chegada e instalação desse empreendimento em Jardim-MS . Foi um período muito intenso no desenvolvimento da cidade de Jardim-MS, e para mim um período muito significativo, pois se deu juntamente com o início acelerado de minha vida adulta. Aguardo se houverem contribuições e ou correções para continuarmos juntos a rememorar os saudosos anos 1967/1968 em JARDIM-MS! Maria Elza
  • Reflexões VI – Não me aborreçam!
    1 – Nossa Idade Nossa idade está na moda. Todos falam muito dela. A tal Terceira Idade. Vocês que são meus amigos sabem como eu sou, não é? Ora uma doçura de pessoa, ora mordaz e rápida em minhas respostas. Mas estou sempre e cada vez mais exercitando sentimentos nobres, paciência benfazeja e tolerância sincera. Faço isso por opção e juízo. Sim, juízo ao evitar desgaste ou fadiga, juízo de achar melhor concordar que discutir. Prefiro ser feliz a ter razão. E em minhas leituras encontro muitas vezes a confirmação das minhas opções. Assim do nada acho um autor que tem o mesmo pensamento que eu. As vezes ditas de formas rebuscadas, outras de formas simples, mas com a mesma essência. Li que há quase uma unanimidade em achar que na terceira idade teremos sabedoria. E que isso não tem como ser verdadeiro. De onde que sem nenhum esforço próprio, apenas pelo efeito de um ano após o outro, alguém poderia adquirir sabedoria? Sabedoria provém de maturidade, que por sua vez está relacionado com o que faz sentido na vida da pessoa, da aceitação e de como vê suas conquistas, enfim das consequências e escolhas que fazem com que a pessoa sinta que vale a pena viver! A vida não é e nunca foi um mar de rosas, cabe a cada um de nós colocar as flores em nosso caminho, e aí poderemos dizer que a velhice nos trouxe sabedoria. Maria Elza 2- Cuidados Um carinho faz bem. Um cuidado também! E quando o carinho e o cuidado são escolhas conscientes e se aplicam a você mesmo, a sua pessoa? Nesses casos eu acho um grande exemplo de amor-próprio, além de uma necessidade mesmo de sermos responsáveis por nosso bem estar, até quando isso for possível. Não é por estarmos na terceira idade que delegaremos a outros os cuidados do dia a dia. Vou dar um exemplo: a partir de uma certa idade devemos ter cuidados alimentícios, pois surgem diabetes, pressão alta, e as pequenas mazelas com as quais temos que conviver. Sendo assim, enquanto estivermos donos da nossa capacidade neurológica, com boa memória, com a nossa mobilidade corporal trabalhada em pequenas caminhadas e prática de exercícios físicos apropriados , nao delegue a ninguém seu auto cuidado. Trate-se com cuidado e com carinho. Você merece isso e vai ver como é estimulante cuidar do seu corpo, dos seus remedinhos diários, do quanto de açúcar vai por no seu café, de evitar o alimento que não lhe faz tão bem. Eu desenvolvi essa prática, a partir de um elogio que recebi de minha mãe ao cuida-la, mas já nos seus 93 anos. Eu me cuido e crio ambiente favorável também aos meus cuidados. Vou mostrar aqui meus cestinhos de remédios, o cesto menor são dos remedinhos diários, o cesto maior é “a despensa”. Fica à vista para que ao repor o cesto diário, eu tenha visão de que dia tenho que ir à farmácia. Meu copo de água lindo e maravilhoso com uma frase do meu livro, que ganhei de aniversário, meus controles, meu cabo de celular, minha lâmpada para caso eu precise à noite, e demais objetos que fazem parte do meu bem dormir. Podem acreditar, isso não é mania de velhice. Isso é auto-cuidado, é independência, é bem viver. Cuide-se, ame-se, mime-se. Você merece! Maria Elza 3- Percepcões Entendo as transformações físicas como se fossem intervalos. Como teria sido bom se eu tivesse essa visão no período em que eu chamo hoje de intervalo maior. Dos 20 aos 50/60 anos. No primeiro período o menino quer ser homem logo, a menina quer ser moça e nesse período o tempo “voa”; meses fazem diferença, as crianças crescem como abobrinhas nos quintais, na calada da noite! Ontem, ao olhar era flor da abóbora, dois ou três dias após, já se tornou o legume com sua casca brilhante, e basta você se distrair por poucos dias, pronto: lá está a abóbora madura! Assim eu vejo o corpo e a vida. Acelerada em seus extremos, transformações e mudanças rápidas que ocorrem num piscar de olhos. Infância e velhice são como as abobrinhas nos quintais, sem que você perceba, as mudanças físicas ocorreram e sua menina virou moça ou sua mãe envelheceu! E você? Está lá, no intervalo maior, na inocência, vivendo seu dia a dia esquecida do intervalo menor deixado para trás e achando que o próximo está tão remoto que nem cogita sobre ele. Pois então, assim eu me olho e sinto. Chegada no último intervalo, sem que houvesse percebido. Agora é ver o sabor ou utilidade que há numa abóbora madura! 🤔 Maria Elza 4 – Mime-se! Pijamas bons, meias quentinhas e que não apertem, edredons e lençóis de algodão de “trocentos” fios, controles remotos funcionando bem, silêncio…Aos poucos, nossos conceitos de “gostoso” vão sendo substituídos…Melhor idade? Bom, se a outra alternativa é não ter idade nenhuma, então que vivamos essa fase da forma mais “gostosa” possível! Maria Elza
  • – Domingo de Páscoa 04/04/21
    Lembro-me da minha infância. Só lembranças boas. Que felicidade é ser criança, a alegria genuína, não a alegria de ter alguma coisa. É alegria de ser! E o que eu era? Uma garota entre vários irmãos, primos, tias e tios, uma avó que era cuidada como se fosse uma relíquia, um pai amoroso e uma mãe atenta e cuidadosa! Essa Páscoa em específico estávamos em Bela Vista, na casa de minha avó paterna, a Abuelita. Já velhinha sentava-se próxima à porta que dava para o quintal, porque lá era o “quartel general” das festividades. Talvez vocês não consigam imaginar o que é uma Semana Santa de antigamente e principalmente das famílias paraguaias. Muito simbolismo, muita fé e muita comilança! Para que todas as iguarias fossem preparadas existia no quintal um fogão à lenha, um forno de barro chamado tataquá, uma mesa comprida onde armava-se máquina de moer milho, as tias amassavam a massa da chipa, se houvesse mandioca fazia-se um bolo delicioso chamado “caburé”, as madrinhas e tias faziam para os seus preferidos a “chipa” no formato de pássaros, pombas, rosas chamados de “lopi”. Quem ganhasse um mimo desses ficava esnobe que só! A Comemoração pelo dia da Ressureição de Cristo começava cedo. Bem cedo. Lembro-me que tinha um altar com os Santos cobertos até determinada hora. Depois tirava-se a cobertura, acendia-se velas e na tarde do sábado alguém providenciava folha de espada de S.Jorge ou galho de árvore de uns 60 cm. que ficavam ali no altar. No domingo cedo, desde os mais velhos até o bebezinho passava em frente ao altar para que minha avó lhe “desse a Páscoa”. Pensa em um ritual onde há fé, comoção e euforia. Claro que a euforia era das crianças na fila da Páscoa. Nossos pais diziam que tínhamos que confessar nossos pecados e mesmo que não os tivéssemos ajoelhávamos com as mãos postas e pedíamos a benção. A nossa avó, sendo genuinamente paraguaia, era católica fervorosa. A fé em Deus a sustentou em toda a sua vida, lhe deu forças para trabalhar na roça, para rezar pelo marido e filhos que foram à guerra, para benzer crianças e ajudar mulheres no momento do parto. Sendo assim ela era a personificação e o sentido da Semana Santa. Estar na fila do domingo de Páscoa tinha uma simbologia que as crianças podiam não entender, mas os adultos sentiam e sabiam o valor daquela tradição. E quando a Abuela fazia um sinal da cruz com umas batidinhas das folhas em nossa cabeça e dava um conselho ou um pequeno sermão, nos sentíamos plenos! Minha avó paraguaia! Aquela mulher que sabia de tudo e de todos, abençoava cada um dos que foram ali para receber o seu olhar e aprovação. E todos saíam dali renovados! Porquê? Pela tradição, pela fé, pelo costume nas famílias paraguaias. Por que era Domingo de Páscoa! Um dia inesquecível! Maria Elza