O grito é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado. Causa pavor, trauma e medo.
“A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo
A opressão, a intimidação e o medo, via de regra, começam pela voz antes de chegarem ao gesto, ao domínio ou à implantação de qualquer mecanismo de dominação.
Mas não falo aqui do grito político. Aquele que tenta dominar ou extinguir direitos; ou amedrontar e ameaçar o povo ou poderes instituídos, em disputas por controles. Nesse campo, afirmo de forma simples, talvez até ingênua, que para um grito de alegria existem centenas de gritos opostos.
Falo do que vejo. Do cotidiano. Do convívio em sociedade. Onde a conversa comum, não precisaria ser compartilhada… aos gritos.
Reclamo das pessoas que falam alto em restaurantes, salões de beleza e outros espaços públicos. Não nego que o barulho natural do ambiente pode exigir uma voz mais elevada. Mas não a ponto de tornar impossível manter uma conversação civilizada. Os clientes precisam falar alto, o pessoal dos serviços falam mais alto ainda, e se houver crianças, essas se aproveitam do bate papo dos pais e dominam o ambiente.
Correr, gritar, passar por baixo de mesas, isso é natural na infância. Sendo assim, adultos conversam, a meninada grita à vontade, o garçom pede passagem, a música toca e tudo forma um círculo sonoro e caótico.
E o que deveria ser um encontro prazeroso, se torna desconfortável e cansativo.
E nao é exclusividade de lugares lotados ou com muita tráfego de pessoas. Pois o “grito social” acontece em muitos ambientes, o que chama a atenção.
A voz alta na academia, por exemplo. Para quê? Por quê? A madame puxa o ferro do lado oposto àquele em que outra pessoa se alonga e, entre um movimento e outro, gritam entre si. Logo adiante, outra dupla, talvez um trio, repete a cena com entusiasmo semelhante. Ganha quem fala mais alto!
Já sei que foram à Disney, qual vinho costumam beber e o que pensam do padre da paróquia. Eu queria saber? Isso me acrescenta algo? Não.
Mas gritar parece necessário. Às vezes penso que é a solidão, ou o vazio dos dias, que pede movimento com mais urgência do que os próprios glúteos.
Falar alto torna-se, então, uma forma de existir no espaço. Uma comunicação de quem precisa tanto ser visto quanto ser ouvido.
Preocupo-me com a minha própria percepção. Tenho medo de duas coisas: precisar recorrer a abafadores de ruído ou constatar que estou me transformando naquela figura clássica da “velha rabugenta”. Ambas as hipóteses me assustam.
Por favor, que eu não precise que gritem comigo em nenhuma delas.
Sejam gentis. Aproximem-se. Sentem-se ao meu lado. Olhem-me nos olhos e falem bem baixinho, de forma natural, quase sussurrando: por favor, não seja implicante…”
Maria Elza