A Vó de Maria

Maria sabe que não é tempo de vacas gordas. Sabe por saber; ninguém precisa avisar. Basta olhar a manhã: o café é pouco, o copo é leve, o pão é quase um sussurro. Mas Maria descobriu uma palavra nova. Frugal.

E achou tão bonita que a repete em silêncio, como quem guarda um tesouro dentro da boca. Minha refeição é frugal, diz para si. E essa beleza, arrancada da aula de português, lhe adoça o vazio do estômago. Aprender, para ela, tem gosto próprio. Gosto que alimenta o corpo magro, mesmo que, lá pelas tantas, a fome volte a beliscar.

Na escola, há leite no recreio: um leite em pó de cheiro áspero, que a faz apertar o nariz para vencer a náusea. Fazer o quê? É assim a vida. Ela sabe. Sabe por saber; ninguém precisa falar.

O almoço, a mãe serve direto no prato. Travessas à mesa para quê? O alimento vem contado, como quem reparte o que a terra permitiu nascer. Colheres medidas de arroz, de feijão, um pedaço tímido de legume, carne quando o dia deixa. E Maria nem pensa em reclamar se o pai e os irmãos ganham um pouco mais. Quem trabalha precisa comer mais. Ela sabe. Sabe por saber; ninguém precisa falar.

Também sabe que nada dura o sempre. Nem o pouco, nem o muito. Nem a seca, nem a fartura. E isso adoça o caminho. A ida à escola tem seu brilho, o grupo voltando a pé, rindo, inventando histórias, é um pequeno oásis. A casa, com pai, mãe, irmãos e avó, às vezes aperta, às vezes afaga — e tudo isso é vida. Maria sabe. Sabe por saber; ninguém precisa falar.

Ela acredita no estudo. Tem fé no que virá, no que pode mudar, no que ainda dorme dentro do futuro. Aprendeu isso com a avó, que viveu o bastante para dizer: não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. E a avó sabe. Sabe por saber; ninguém precisou lhe falar.

A avó de Maria também aprendeu o nome bonito que agora descreve o chá com beiju que as crianças tomam antes da escola: refeição frugal. E pensa, como a neta, que é palavra bonita demais para um problema tão antigo. Porque a fome tem muitos motivos: chuva pouca, trabalho raro, tempos escassos; mas dói sempre do mesmo jeito. E é por isso que ela se alegra ao ver Maria estudar nomes, ideias, mundos. Um dia, esse saber pode abrir portas onde antes só havia parede. Um dia pode ser força contra o vazio do prato.

Porque o nome pode ser bonito, mas a dor da barriga não muda. Sim, isso ainda há de mudar, ela sonha. Sonha quieta. Em silêncio. Ninguém precisa saber.

Maria Elza🌷

Publicado por mariaelzaescreve

Me autodenominei Divina, Perfeita e Maravilhosa. Não é por vaidade e sim porque acredito que foi assim que Deus nos criou: à sua imagem e semelhança. Mesmo que humanamente isso pareça impossível, ao expressar minha crença me sinto bem. Busco o melhor sempre. Tenho fases, sou de Libra e isso ajuda a explicar minhas qualidades e meus defeitos. Amo a vida, minha família, meus amigos. Sou Formada em Administração e Direito e estudiosa da escrita criativa. Sempre gostei de ler! Amo ler tanto os romances, como os contos, crônicas, documentários, biografias… Mas minha maior bagagem é de vida, pois ela é a matéria prima para o que escrevo. A vida, as pessoas e suas histórias me encantam. E esse encantamento se transforma em letras. Amo muito, preocupo-me muito, erro muito, e procuro muito acertar! Vou dividir com vcs um pouco da minha experiência de vida, neste espaço que considero meu "travesseiro virtual" e o convido a compartilhá-lo comigo. Venha?! Criei este blog em agosto de 2010 na plataforma blogspot. Posteriormente o trouxe para o WordPress . Desde 2024 estou escrevendo crônicas e vou disponibiliza-las aqui. No site https://.www.cronicascariocas.com.br procure por Maria Elza no Menu Autores, para ler meus contos e crônicas. Ah, deixe seu comentário, pois quero saber a sua opinião!

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