— É bem provável que nunca mais nos vejamos.
Carla ouviu a frase sem compreender.
Daniel estava de pé junto à janela. As mãos nos bolsos. O olhar perdido no jardim.
Parecia calmo.
Calmo demais.
— Como é?
Ele demorou a responder.
— Que nosso casamento chegou ao fim.
As palavras ficaram suspensas no ar.
Durante alguns segundos, Carla apenas o observou.
Os cabelos começavam a embranquecer nas têmporas. O rosto estava mais marcado do que anos atrás. Ainda assim, havia nele algo do rapaz bonito que conhecera na faculdade.
O jovem por quem se apaixonara.
Que a fazia cantar, dançar e enxergar beleza em tudo.
Infelizmente.
— Tem outra pessoa?
Daniel assentiu.
Carla fechou os olhos.
Não gritou.
Não chorou.
Parou. A mão com a taça em suspenso. O ar entrou devagar, pesado, como se a sala tivesse ficado menor de repente.
Ele marcara aquele momento com ela. E Carla achou que seria talvez um reencontro.
Há meses havia um descompasso, uma espécie de nevoeiro entre eles.
Como se viessem carregando algo há tanto tempo, mas não percebessem o peso até aquele instante.
Na faculdade, todos diziam que formavam um casal perfeito.
Ela era linda, inteligente, disputada.
Ele bonito, simpático, herdeiro. Tinha pais abastados.
Nas fotografias daquela época, os dois sorriam com a confiança de quem acredita que o futuro será feliz como imaginam.
Não foi.
Depois do casamento foram morar na casa dos pais dele.
De forma provisória.
Pelo menos era o que Carla pensava.
Meses depois, continuavam lá.
Anos depois, também.
Ela ainda se lembrava de chegar do escritório e encontrar Daniel tomando café na varanda com a mãe.
O pai falando sobre gado.
A mãe sobre visitas.
Daniel ouvindo tudo como se aquele fosse o seu trabalho.
Na época, ela acreditava que era apenas uma fase.
Uma fase longa.
Longa demais.
— Você lembra quando eu estava grávida do Felipe?
Daniel não respondeu.
— Eu pedi uma casa.
Só isso.
Uma casa.
Ela sorriu.
Um sorriso amargo. Os olhos presos em algum ponto distante da sala.
Continuou
— E você ficou bravo.
— Eu era jovem.
O silêncio voltou a ocupar a sala.
— Nós éramos jovens.
Carla se acalma. Pensa numa frase antiga, tipo um mote do seu pai: Há que se ter dignidade. Sempre!
Essa lembrança fez Carla voltar ao presente.
Daniel continuava perto da janela.
Agora parecia mais velho.
E frágil.
Talvez o preço da sinceridade?
Ele olha para Carla…sem amor, sem rancor…e diz
— Não é isso. Não tem a ver com idade, nem como fomos ou algo assim.
— É sim.
Ele continua
— Você sempre quis mais.
Sempre enxergou mais longe.
E eu nunca consegui acompanhar.
Carla pensou em responder.
Os argumentos vieram à sua mente, mas ficaram ali.
Pensou nos convites recusados.
Nos projetos abandonados.
Nas oportunidades desperdiçadas.
Mas apenas passou o polegar pela borda da poltrona.
As palavras perderam a urgência.
— Estou apaixonado.
A frase saiu baixa.
Quase tímida.
O resto de desgosto ou algo parecido que havia nela afrouxou.
Não havia vitória em Daniel.
Nem crueldade.
Nem desejo de feri-la.
Havia apenas aquele homem diante da janela, falando como quem encontrou um caminho e teme dizê-lo em voz alta.
Carla olhou para o marido à sua frente.
Tentou encontrar o jovem por quem se apaixonou.
Ainda estava lá. Mas alguma coisa mudara.
Como uma fotografia antiga esquecida numa gaveta.
Bonita. Amarelada. Irrecuperável.
— Eu nunca serei bom o suficiente para você.
Desta vez Carla quase chorou…
Ela sentiu que aquela era a verdade dele.
Seu rosto suavizou. A voz saiu sem esforço.
— Daniel…
Ele ergueu os olhos.
— Seja bom para você.
Só isso.
Seja bom para você.
Daniel permaneceu imóvel por alguns segundos.
Depois pegou as chaves sobre a mesa.
Abriu a porta.
E saiu.
Carla ouviu o carro se afastar.
Ela caminhou pela sala. Sem pressa.
Passou os dedos pelos livros.
Olhou as fotografias dos filhos.
Depois a estante que escolhera.
As cortinas que comprara.
Caminhou pela casa que praticamente construíra.
Tudo estava ali.
Tudo.
Sentou-se na poltrona e olhou ao redor.
O silêncio pousou sobre os móveis, de modo familiar. Carla tomou o champanhe que imaginara brindar a um recomeço. Não se sentiu só.
Daniel não estava levando a casa.
Nem livros. Nem as fotografias. Nem os anos.
Levava apenas a si mesmo.
Ao concluir esse pensamento, foi como se ela visse algo antigo sob uma luz diferente.
“Há que se ter dignidade”.
E conclui:
Nunca fomos nós
Houve Daniel…
Houve Carla…
Caminhando lado a lado.
Durante todos esses anos.
Mas nunca houve nós.
Maria Elza🌷