Doação

Eu a considerava uma idosa. Mas ela era apenas uma mulher sozinha.

Nas famílias antigas isso era muito comum. A moça que não se casava permanecia ali, na casa dos pais, e depois da morte deles , ficava com a irmã ou irmão mais velho. Sempre à disposição de quem precisasse dela. Só hoje tenho esse entendimento e consigo “enxergar” o seu papel.

Naquela época eu só enxergava a minha necessidade. O quanto eu queria que ela viesse morar comigo e me ajudar. Eu já tinha duas filhinhas e esperava outro bebê. Então o meu sonho era ter quem pudesse aliviar a carga pesada que minha vida havia tomado em tão pouco tempo.

De estudante aos dezesseis anos, eu era mãe de três filhos aos dezenove.

Muita responsabilidade, muito serviço, muito tudo. E sem a menor condição de contratar alguém.

Mas quem era eu para ousar pensar nisso? Embora casada e com filhos, eu ainda não fazia parte da roda dos adultos, não tinha voz ativa.

Neste ponto da história eu me ajoelho mentalmente para agradecer primeiro a Deus, depois aos meus pais. Não sei se à minha mãe, ao meu pai, ou aos dois.

Eles estavam atentos à minha inadequação e luta diária com os afazeres

Nunca soube como foi a conversa “dos adultos,” mas sei que conseguiram o que para mim foi uma grande conquista, perante o clã. Só sei que um dia ela apareceu em minha casa com seu pequeno embrulho de roupas, pouquíssimos objetos de toalete e uma disponibilidade imensa de alma para morar comigo e ajudar com as crianças.

Minha tia. Irmã do meu pai.

Uma velha jovem que achou tudo tão simples. Escolheu a filha do meio e passou a cuidar dela; dava banho, arrumava seus cachinhos e a chamava de “Che mitã cunhã”.

E assim viveu conosco por alguns anos.

Depois partiu, porque certamente já havia outra pessoa da família precisando dela. E da mesma forma que alguém resolveu que ela viria me ajudar, provavelmente já haviam decidido para onde iria dessa vez.

Hoje penso nela com outro olhar.

Não era apenas a tia que ajudava.

Era uma mulher que se dispunha a estar onde a necessitavam, de forma inteira e vivendo do modo que lhe foi possível.

Obrigada, tia Crescencia.

Ainda hoje consigo vê-la chegando com seu pequeno embrulho de roupas e aquela disponibilidade tranquila de quem vinha para cuidar. E se doar.

Maria Elza🌷

Publicado por mariaelzaescreve

Me autodenominei Divina, Perfeita e Maravilhosa. Não é por vaidade e sim porque acredito que foi assim que Deus nos criou: à sua imagem e semelhança. Mesmo que humanamente isso pareça impossível, ao expressar minha crença me sinto bem. Busco o melhor sempre. Tenho fases, sou de Libra e isso ajuda a explicar minhas qualidades e meus defeitos. Amo a vida, minha família, meus amigos. Sou Formada em Administração e Direito e estudiosa da escrita criativa. Sempre gostei de ler! Amo ler tanto os romances, como os contos, crônicas, documentários, biografias… Mas minha maior bagagem é de vida, pois ela é a matéria prima para o que escrevo. A vida, as pessoas e suas histórias me encantam. E esse encantamento se transforma em letras. Amo muito, preocupo-me muito, erro muito, e procuro muito acertar! Vou dividir com vcs um pouco da minha experiência de vida, neste espaço que considero meu "travesseiro virtual" e o convido a compartilhá-lo comigo. Venha?! Criei este blog em agosto de 2010 na plataforma blogspot. Posteriormente o trouxe para o WordPress . Desde 2024 estou escrevendo crônicas e vou disponibiliza-las aqui. No site https://.www.cronicascariocas.com.br procure por Maria Elza no Menu Autores, para ler meus contos e crônicas. Ah, deixe seu comentário, pois quero saber a sua opinião!

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