Nelson sempre Soube

Foi assim.

O grupo sentou-se próximo ao alpendre, sob uma árvore frondosa, ao lado da porteira da fazenda.

— Traz a bebida, Zé.

O garoto veio com as latinhas nas mãos.

— Volta lá, pega o isopor, coloca gelo e enche de bebida. Não temos pressa. Vamos passar a tarde aqui.

E assim começou o pós-festa.

Grupo pequeno. Três mulheres e dois homens. A tarde foi passando, a conversa rodando por vários assuntos, até que, como quase sempre acontece, caiu no tema sexo.

Zilda era direta. Bem resolvida. Sem rodeios, começou a contar preferências, histórias, situações. Falava como quem não devia nada a ninguém.

Marta, com sua fama de intelectual, entrou em outro tom: Sexo bom tem uma combinação de fatores. Não é só físico. Tem o emocional, o controle do estresse, o autoconhecimento…

Maurício aproveitou a deixa: Eu já acho que passa muito pelo estímulo mental. Fantasia, conversa, intimidade, segurança…

Douglas, o mais velho do grupo, abriu a lata com calma e disse: Nem sempre precisa de tudo isso. Tem hora que o desejo vem de coisa simples. Situação trivial mesmo. Um gesto, um olhar… e pronto.

— Eu gosto é assim, disse Zilda, rindo. Quando dá vontade, dá. Não fico fazendo tese.

Marta ajeitou o cabelo.

— Mas isso não é meio… superficial?

— Superficial é fingir que não sente, respondeu Zilda. O resto é só consequência.

Maurício tomou um gole.

— O problema é pensar demais. O corpo já sabe o caminho.

— Nem sempre, disse Marta. Às vezes o corpo confunde.

— Ou a gente que complica, completou Douglas.

O assunto ficou ali, suspenso por um instante. Não era silêncio desconfortável. Era aquele tipo de pausa que carrega mais coisa do que qualquer fala.

Ana, que até então ouvia mais do que falava, estava com os pés descalços sobre a cadeira, abraçada a uma das pernas, e disse, quase sem levantar a voz:

— E quando não é nem o corpo… nem a cabeça?

Todos olharam.

— Como assim? perguntou Maurício.

— Quando é outra coisa. Um impulso que não pede licença. Que não depende de pessoa certa, de momento certo. Só… aparece.

Zilda sorriu.

— Aí eu gosto mais ainda.

Marta franziu a testa.

— Isso não é perigoso?

Ana deu de ombros.

— Talvez. Mas também é o que mais parece… vivo.

O vento passou mais forte, mexendo nas folhas da árvore.

Douglas observava Ana com atenção.

— Você está falando de desejo… ou de liberdade?

Ela pensou um segundo.

— Acho que de não precisar escolher entre os dois.

Maurício riu.

— Isso não existe.

— Ou existe e a gente evita, respondeu ela.

Zilda levantou a lata.

— Um brinde, então. Àquilo que a gente evita.

Riram. Brindaram.

O sol já começava a descer, esticando as sombras no chão de terra. A conversa se tornou mais leve com uma mudança de assunto providencial.

Sao formas sutis de desviar o foco, como sempre acontece quando chega perto demais de alguma coisa importante. Vieram histórias da festa, risadas, comentários bobos.

Mas algo tinha ficado no ar. Algo invisível.

Ana se levantou e caminhou até a porteira. Ficou ali, olhando a estrada de terra que seguia em linha reta até sumir no horizonte.

Sem pressa. Sem plano. Só olhando.

Douglas acompanhou de longe. Não foi até ela. Mas também não ficou onde estava.

Zilda, ainda sentada, comentou: O problema não é o desejo… é o que a gente faz quando ele aparece.

Ninguém disse mais nada. Mas algo ali se estabeleceu. Não como promessa, nem como intenção. Mas como possibilidade.

E isso, de algum modo, era o mais honesto de tudo.

Ana respirou fundo, virou-se e olhou para o grupo.

Não foi impulso.
Nem erro.
Foi escolha, foi decisão. Sem que precisasse falar, ela acenou para o grupo.

Douglas encostou a camionete e abriu o portão.

Ana não disse nada.

Apenas subiu.

Maria Elza🌷

Publicado por mariaelzaescreve

Me autodenominei Divina, Perfeita e Maravilhosa. Não é por vaidade e sim porque acredito que foi assim que Deus nos criou: à sua imagem e semelhança. Mesmo que humanamente isso pareça impossível, ao expressar minha crença me sinto bem. Busco o melhor sempre. Tenho fases, sou de Libra e isso ajuda a explicar minhas qualidades e meus defeitos. Amo a vida, minha família, meus amigos. Sou Formada em Administração e Direito e estudiosa da escrita criativa. Sempre gostei de ler! Amo ler tanto os romances, como os contos, crônicas, documentários, biografias… Mas minha maior bagagem é de vida, pois ela é a matéria prima para o que escrevo. A vida, as pessoas e suas histórias me encantam. E esse encantamento se transforma em letras. Amo muito, preocupo-me muito, erro muito, e procuro muito acertar! Vou dividir com vcs um pouco da minha experiência de vida, neste espaço que considero meu "travesseiro virtual" e o convido a compartilhá-lo comigo. Venha?! Criei este blog em agosto de 2010 na plataforma blogspot. Posteriormente o trouxe para o WordPress . Desde 2024 estou escrevendo crônicas e vou disponibiliza-las aqui. No site https://.www.cronicascariocas.com.br procure por Maria Elza no Menu Autores, para ler meus contos e crônicas. Ah, deixe seu comentário, pois quero saber a sua opinião!

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