“Lo que puede el sentimiento
No lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder
Ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia el momento
Cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente
De rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia
Nos vuelve tan inocentes!
Violeta Parra”
Vinham todos juntos. Moravam para o mesmo lado e estudavam na mesma escola. O grupo era composto por oito adolescentes.
Cidade do interior é assim. Vizinhos são colegas, amigos são vizinhos. Mães se tornam comadres, pais dividem o trabalho, e a vida, de algum modo, é coletiva.
Mas o grupo não era homogêneo. Havia duplas, trios, pequenas afinidades dentro do todo.
Exceto João.
João era de todos. Circulava entre eles com facilidade, requisitado, aceito, inteiro no grupo.
Até o dia em que se descobriu ciumento de Ana.
Foi assim, sem aviso.
A cara fechava quando ela ria com Antônio, quando se demorava em conversa com ele, quando o escolhia para formar dupla.
Pedro percebeu.
— O que foi?
João não respondeu. Passava a mão no rosto, repetia gestos, insistia em sinais que pareciam dizer: todo dia, todo dia.
Chegaram à escola. Cada um seguiu para sua sala.
No intervalo, poderiam se reencontrar. Ou não.
À tarde, desceriam juntos, como sempre.
Pedro esperou.
Encontrou João no pátio, isolado, chutando as pedrinhas que separavam o canteiro da calçada. Andava cabisbaixo, chutava, andava, como se discutisse consigo mesmo.
Pedro se aproximou — um pouco mais do que o necessário.
— Está com ciúmes do Antônio?
— Mas por quê? Ana te deu algum sinal?
— Ou vocês já tiveram alguma coisa?
Fez com as mãos um coração. Levou-as à boca, como quem beija. Abaixou-se, riscou o chão. Levantou-se brusco e lançou a pedrinha longe.
Havia pressa em Pedro. Pressa em saber.
Não era só curiosidade.
A forma de perguntar carregava um incômodo difícil de nomear.
A voz, a insistência, a falta de medida — nada daquilo parecia cuidado.
Como se algo tivesse sido rompido.
Mas o quê?
Que lugar era aquele que Pedro parecia querer defender?
Sobre quem?
Sobre Ana?
Sobre João?
Ou seriam esses pequenos poderes invisíveis, distribuídos no grupo, agora deslocados…
ou afetos que ninguém nomeava?
Era o último ano.
Em breve, cada um seguiria um caminho.
E foi o que aconteceu.
Anos de convivência, sonhos e camaradagem ficaram para trás, espalhados no tempo e no espaço.
Restaram histórias.
Dizia-se, aqui e ali, que houve um quase namoro entre Antônio e Ana.
Ou entre Ana e João.
Alguns insinuavam outra possibilidade — dita mais baixo, quase como quem testa uma ideia: Pedro.
Eram tantas as versões.
Tantas.
E nenhuma delas voltou para ser confirmada. Jovens… ah os jovens.
Anos depois, quem passasse pela antiga calçada da escola ainda encontraria, entre os canteiros, pequenas pedras soltas.
Nada que chamasse atenção.
Exceto, talvez, uma mais afastada das outras.
Como se tivesse sido chutada com força suficiente para não voltar ao lugar.
Maria Elza🌷