Eu que me reconheço

A garota pegou a idosa pela mão e a puxou da cama.

Inútil.

O corpo permaneceu ali, entregue ao peso morno dos lençóis, como se o dia não tivesse direito de existir. A garota insistiu. Passou os dedos pelos seus olhos, como quem tenta abrir uma janela antiga. Nada.

A idosa se mexeu, num sobressalto breve, ajeitou o travesseiro com o zelo de quem se protege e voltou a dormir.

Havia, naquele gesto, uma negativa, como se dissesse “me deixe.”

A garota quase foi embora. Quase.

Então sorriu, com a astúcia de quem conhece atalhos invisíveis.

— Já sei.

Inclinou-se e sussurrou, devagar, como quem vai contar um segredo…e o que ela falou a idosa não teve como ignorar:

— Olha você… cabelo sem forma, três cores brigando entre si… unhas crescidas. Quando foi a última vez que você se olhou? Hein?

Os olhos da idosa se abriram, mais pelo incômodo, do que por vontade.

— Como é que você ousa…

A voz saiu baixa, sem força para sustentar indignação. A garota ali olhando. Não recuou, ao contrário, se aproximou e disse:

— Eu moro em você. Caminho com você. Te animo quando precisa, te aturo quando está chata; te puxo quando o mundo pesa, e aguento os dias, como hoje, quando você resolve se esconder do mundo.

Silêncio.

A idosa respirou fundo, como quem procura alguma coisa dentro de si e não encontra no lugar de antes.

— Ainda esses dias — continuou a garota — você falou tudo isso para a sua irmã. E agora é você que tem que ouvir.

A memória veio sem pedir licença. E se sobrepôs.

A idosa olhou as mãos. As unhas já não eram como ela gostava. Pequenos sinais, quase invisíveis, mas suficientes para incomodar.

Era sábado.

E, de repente, como um fio de lucidez atravessando a névoa, percebeu: podia levantar. Podia andar. Podia se cuidar. Estava bem. E viva. E isso não era pouco!

Levantou-se.

No espelho, encontrou um rosto que reconhecia e estranhava ao mesmo tempo. Havia marcas que não lembrava de ter feito. Havia cansaços que não tinham nome.

A garota, atrás dela, observava.

— Vai ficar aí? — provocou, quase leve.

A idosa não respondeu. Pegou o pente. Depois o creme. Depois o esmalte esquecido. Movimentos lentos, mas firmes, revelavam um prazer antigo.

— Ah, vaidade… — murmurou, sem saber se ria ou se concordava. — Teu nome é mulher.

A garota sorriu e por um instante, pareceu satisfeita com o que via. Preferiu não se arriscar, pois a qualquer momento, aquele impulso poderia não ser suficiente.

Encostada à pia, acompanhando cada gesto, ela não resistiu e disse: não adianta só acordar.

A idosa parou. — O que mais você quer?

— Que você viva. Vamos ao jardim, ver as flores, respirar ar puro, esticar as pernas, sentir a brisa e o calor do sol.

A resposta não veio pronta, mas depois de um tempo.

— Não é tão simples — disse, enfim. Já foi. E sorriu, de leve. Você sabe.

Agora foi a garota que se calou.

O banheiro, pequeno, guardava vestígios de anos: um vidro gasto, uma toalha desbotada, pequenos desgastes nos azulejos, que ninguém nota, até olhar de verdade.

— E o que aconteceu? — perguntou a garota, com a voz baixa.

A idosa passou o batom com cuidado. Como se com aquele gesto ela estivesse organizando o mundo.

— A vida.

A palavra ficou suspensa entre as duas.

— E você deixou?

A idosa virou-se devagar. Havia ali um cansaço sem drama, sem explicação fácil.

— Nem tudo a gente deixa. Algumas coisas apenas chegam… e ficam.

A garota não gostou da resposta.

— Eu não vou deixar.

A idosa riu. Não de descrença. De reconhecimento.

— Não vai.

A garota caminhou até a porta e a abriu. A luz da manhã entrou inteira, sem pedir licença.

— Então vamos.

Estendeu a mão.

Dessa vez, a idosa não resistiu.

Segurou.

Antes de sair, voltou os olhos uma última vez para o espelho.

Houve um instante — breve, quase imperceptível — em que não viu apenas o que restava, nem apenas o que havia sido.

Viu… e soube.

Sem dizer em voz alta, mas com a clareza de quem finalmente se encontra, algo dentro dela sussurrou: eu me reconheço…

E saiu.

Não eram mais duas. Mas também não eram uma só.

E, pela primeira vez, isso bastava.

Maria Elza 🌷

Publicado por mariaelzaescreve

Me autodenominei Divina, Perfeita e Maravilhosa. Não é por vaidade e sim porque acredito que foi assim que Deus nos criou: à sua imagem e semelhança. Mesmo que humanamente isso pareça impossível, ao expressar minha crença me sinto bem. Busco o melhor sempre. Tenho fases, sou de Libra e isso ajuda a explicar minhas qualidades e meus defeitos. Amo a vida, minha família, meus amigos. Sou Formada em Administração e Direito e estudiosa da escrita criativa. Sempre gostei de ler! Amo ler tanto os romances, como os contos, crônicas, documentários, biografias… Mas minha maior bagagem é de vida, pois ela é a matéria prima para o que escrevo. A vida, as pessoas e suas histórias me encantam. E esse encantamento se transforma em letras. Amo muito, preocupo-me muito, erro muito, e procuro muito acertar! Vou dividir com vcs um pouco da minha experiência de vida, neste espaço que considero meu "travesseiro virtual" e o convido a compartilhá-lo comigo. Venha?! Criei este blog em agosto de 2010 na plataforma blogspot. Posteriormente o trouxe para o WordPress . Desde 2024 estou escrevendo crônicas e vou disponibiliza-las aqui. No site https://.www.cronicascariocas.com.br procure por Maria Elza no Menu Autores, para ler meus contos e crônicas. Ah, deixe seu comentário, pois quero saber a sua opinião!

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