Uma mulher linda. Do tipo que a beleza transborda, mesmo que recém acordadas, despenteadas ou desalinhadas.
São as mulheres afortunadas em ganhar não um, mas um conjunto de atributos físicos perfeitos e harmônicos, da qual dizemos ter uma beleza esplendorosa, ou outros adjetivos tais.
São particularidades que embora sofram a ação do tempo,
permanecem inalteráveis, como a cor dos olhos, a expressão ao sorrir, ou o leve arquear das sobrancelhas, por exemplo.
Cláudia era o nome da linda mulher
que se destacava onde quer que
estivesse. Seus lindos olhos azuis, bem sombreados por volumosos cílios não passavam desapercebidos.
Mas o tempo passara e ela envelhecera, e ao que parecia, Cláudia não
se dera conta!
Ela não se tornara uma matrona, isso não, mas a sua idade, na faixa dos cinquenta anos se fazia perceber.
Exceto pelos seus lindos olhos azuis.
Teria Claudia tido consciência dos anos que se iam passando? Pensaria talvez no seu envelhecimento?
João, seu marido, sentado em sua poltrona no quarto de casal, a
observava com os olhos semicerrados.
A admirava através do espelho, onde ela se arrumava cuidadosamente. Passava o lápis nos olhos, esfumaçava com o cotonete; depois fazia outro risco nas pálpebras do meio para os lados, com o pincel, limpando o excesso.
Pegou o batom, alinhou a lâmpada e se aproximou mais do espelho para pintar os lábios.
Por último, umas batidinhas de blush nas maçãs do rosto só para dar
um ar saudável. Afofou com as mãos os cabelos já penteados, um jatinho de
perfume e pronto. Tudo na maior naturalidade. Nenhum sinal de que
fazer a toalette a constrangia por mostrar a João o quanto era vaidosa.
Ele por sua vez, lembrou-se dela na juventude e tentou trazer alguma característica que o deixasse antever a estranha coqueteria que sua não tão jovem esposa desenvolveu com o tempo.
Ou ela sempre fora assim? Teria ela os olhos oblíquos de Capitu, como
escrevera Machado de Assis?
Não, ele quase meneia a cabeça, como expulsando da sua mente essa
ideia.
João fora o escolhido por ela, apesar do séquito de rapazes que a
rodeavam! Entre todos os pretendentes, jovens promissores, abastados, viajados, ela o escolhera!
João tinha total convicção quanto a preferencia queClaudia sempre demonstrou por ele.Não havia com o que se preocupar!
E ainda mais agora, já aos cinquenta e poucos anos.Bem que João não deixara de observar a calça compridabranca coladinha ao corpo que ela vestira, nem a sandália aberta de salto fino,com uns balangandãs frívolos naquele pé quase desnudo, e uma blusaamarrada na cintura ainda em forma.– Vai onde mesmo?– Ah, vou olhar vitrines – disse ela. – Não quer mesmo ir?– Vá você. Por que não chama sua irmã?– Não, não quero ninguém falando na minha orelha. Fica tranquilo, vousozinha e venho para jantar. Deu-lhe um beijinho e saiu. – Quer que lhe tragaalguma coisa? – Ele faz que não com a cabeça.João quase sente uma espécie de vergonha alheia ao vê-la sairmeneando os quadris.Não seria melhor sentir vergonha por si mesmo, pensa?Não! Nunca que a Cláudia seria esse tipo de mulher!Mulheres que se arrumam e saem para a rua com a intenção de trairseus maridos!E, nesse caso, João imaginava que isso era algo de que se pudessemesmo ter pena. Dele, dela, ou de ambos!Cláudia, Cláudia… – suspira João.Uma mulher ainda interessante, que parou no tempo, e emseu imaginário não percebeu que a sua beleza não dependia da idade foi oque pensou ele.Lembrou-se que ela sentia se a estavam admirando, gostava de sempreestar entre os rapazes ao seu redor.João sacudiu a cabeça como para tirar essas ideias, ajeitou otravesseiro e resolveu tirar um cochilo.Cláudia desceu do apartamento, cumprimentou o porteiro,saiu do prédio, andou uma quadra e tomou o metrô.Entrou, olhou em volta. Ninguém . Mudou de vagão