Uma mulher adentra ao recinto mais íntimo do velório!
Justo na hora em que os principais familiares do morto se aproximam para a despedida final, o ultimo adeus, antes do sepultamento.
Ali, onde está o caixão, ela se aproxima e observa o “de cujus”, com uma expressão radiante naqueles olhos redondos como bolinhas de gude.
Os presentes se movimentam, um passo atrás, um fungar, um levantar de ombros ancorando-se cada um no olhar do outro, para ver quem assentiria, talvez mudamente, que sim, alguém conhece aquela mulher!
Quem é ela, afinal?
Antes que acabasse esse desconforto momentâneo que a entrada dela causou, rapidamente a viuva cochicha ao ouvido do filho.
A mulher fora reconhecida. Não, ela não é parente, nem amiga, nem conhecida.
Ela é a “dama dos velórios”.
Entre os parentes e os presentes há um murmúrio que perpassa a todos como se um vento frio entrasse por uma janela.
Mas estão todos em uma sala arredondada com duas entradas. A da frente, por onde entram as pessoas.
João, o filho mais velho do defunto, o responsável pelas exéquias sente uma espécie de comichão, fruto do suor que lhe escorre pelas espáduas, debaixo do terno preto.
Que diabos essa mulher fora fazer ali? Jamais imaginou que ele veria essa cena, na verdade, sempre achou que era folclore de desocupados a tal dama dos velórios!
Irritado com o que via, João fica sem ação.
E pensa, e pondera, o suor empapa a sua camisa. Ele sente um comichão ao observar incrédulo, ela apertar a mão a cada um daqueles que estavam mais próximos ao caixão.
Ela dá as condolências, em voz baixa, com uma estranha vivacidade no olhar, que não condiz com o que fala, com o local , com o momento.
Bem arrumada, roupas impecáveis, bolsa combinando com sapatos de saltos e até luvas.
Ele, por sua vez, sente ódio pela criatura, vai se lembrando de historias antigas, de carpideiras, de mulheres contratadas para chorar em velórios, de amantes que apareciam e acabavam, no ultimo momento denegrindo o morto e , de certa forma, esbofeteando as famílias.
Não se aguenta mais, e justo no momento que ela chega para lhe dar os pêsames, ele a segura pelo braço e pergunta entre dentes: -Quem é você e o que faz aqui?
Ela o olha e murmura:
— Cumpro uma promessa!
Fui proibida de ir ao velório de minha sogra, e desde então não falto a nenhum!
— Porque a proibiram? – ele pergunta.
— Não estava vestida de forma apropriada – ela responde com um ar inocente.
João a solta e ela sai triunfante sabendo que todos a estão
olhando. Sai, contente e no centro das atenções, de véu na cabeça olhando para o morto e a platéia olhando para ela.
O Reverendo se apressa em encerrar a cerimônia, os presentes não disfarçam a urgência, e ouve-se na sala um murmúrio de curiosidade.
João não se conforma e pergunta ao Reverendo se ele a conhece
—Dos velórios
— Mas porquê?
— É a sua festa. A única que ela pode ir sem ser convidada.
João, não consegue nem falar, o espanto escancarado em seu rosto.
— E como ela veio parar aqui?
— Ela olha os obituários e se prepara, pois na sua forma cruel de ser, ela se arruma para ir ao próximo velório. Como se fora para uma festa.
A cerimônia seguia já em clima de uma urgência disfarçada e um murmúrio de curiosidade.
— Pronto, diz o Reverendo.
Até que haja um próximo velório, ou na sua forma cruel de ser, uma outra festa, ela não será mais vista.