Definitivo
Contos da Quarentena Reescrito
em 14/07/26

1- A VIDA COMO A CONHECEMOS

Carnaval. Aeroportos lotados. Academias cheias. Gente planejando viagens, casamentos, férias.
Nos jornais, perdida entre tantas notícias, uma pequena nota sobre um vírus que parecia ter vindo do outro lado do planeta.
Covid-19. A menção a esse nome
tornou-se sinônimo de incerteza.

Poucos dias depois a situação ficou pior ainda…Passou a ser de dor, medo e perigo.

Pela primeira vez em muito tempo, o mundo inteiro passou a olhar para si mesmo. Tanto do ponto de vista geográfico, quanto humano.
As pessoas se perguntavam o que aconteceria, quanto tempo duraria, quem estaria seguro.

Inclusive ela.

2- QUEM É ELA?

Mas enquanto todos descobriam o silêncio, ela apenas o reconhecia.
E quando a vida quase parou, ela voltou a caminhar pelo deserto real e imaginário, onde vivera por tantos anos.

De um dia para outro, todos perceberam o silêncio, a insegurança, o desconhecido…

Houve uma mudança que afetou a forma de viver, a percepção do tempo, os cuidados com a saúde e, sobretudo, a incerteza sobre quanto duraria aquele estranho e preocupante isolamento a que todos estavam submetidos.

E, quando as pessoas se voltaram para o interior de suas moradas físicas, houve quem também se voltasse para o próprio interior.

Embora fosse, para muitos, uma experiência inóspita ou sofrida, ela estranhamente reconhecia um caminho que já percorrera.

A moléstia desconhecida trazia dores, incertezas, mortes.

Mas trazia também uma sensação de impotência.

E essa ela conhecia bem.

Ao olhar para trás, sabia que outros períodos de isolamento, reais ou imaginários, já haviam feito parte de sua vida.

Conhecia o silêncio, a espera, a sensação de atravessar um deserto sem saber exatamente onde ele terminaria.

Agora, porém, havia uma diferença.

Ela já sabia que era capaz de atravessá-lo.

Revisitar suas paisagens, reconhecer as marcas deixadas pelo percurso e compreender a mulher que dele havia saído seria, de certa forma, reabastecer-se da força que sabia ter.

2.1 Casou e Mudou

Tudo começa numa pequena cidade do interior de Mato Grosso do Sul, com pouco mais de dez mil habitantes. O sol de abril ilumina sem castigar. O céu é de um azul exagerado. As manhãs começam frescas, o calor chega devagar e, ao cair da noite, o frio volta como se nunca tivesse ido embora.

Ali quase nada acontece.

A maioria dos moradores envelheceu na própria cidade. Os jovens partiram em busca de estudo, trabalho, casamento. As crianças desapareceram junto com eles. Nem a rodovia passa por ali. Foi construída ao largo, como se o progresso tivesse decidido apenas acenar de longe. Os dias se parecem tanto uns com os outros que, às vezes, é difícil saber quando um termina e o outro começa.

Nesse lugar morou uma jovem de dezessete anos.

Tinha cabelos escuros, olhos verdes e uma beleza discreta, atravessada por uma melancolia que nem ela saberia explicar. Dividia a casa com o marido e uma filha de um ano.

Não. Dividia a casa com o marido, a filha… e a própria mente.

Era nela que realmente habitava.

Enquanto a filha precisava de colo, banho e comida, a mãe alimentava perguntas…

Sentia saudade de coisas que nunca vivera. Medo do que desconhecia. Falta de alguma coisa para a qual ainda não possuía nome. Sobretudo, carregava a estranha sensação de não pertencer àquela vida.

O marido reforçava esse sentimento sem perceber.

Ela trocava de roupa no escuro, envergonhada do próprio corpo. Ele saía do banho nu, sem qualquer cerimônia.

Tudo era novo para ela.
Quase não falava. Ele fazia gracejos sobre a “caipirice” dela. Que nada mais era do que a falta de prática como mãe, dona de casa, esposa…

Ao fim da tarde, ele e os amigos passavam em algum boteco para “tomar um gole de aguardente.”
Quando voltava para casa, trazia no hálito o cheiro da bebida com a qual a beijaria ao se deitarem…

Ela gostava de colher flores do mato enquanto caminhava de mãos dadas com a filha.
Ele gostava da conversa alta, de estar rodeado com colegas, bebendo, contando piadas chulas e dando risadas.

Um jovem criado entre tios, primos e amigos. Como tal, era “vivido”: tocava violão, fumava, frequentava bailes e divertia-se, como era comum aos rapazes da época.

Não era um homem mau.

Também não era gentil.

Talvez fossem duas pessoas que nunca aprenderam a falar a mesma língua.

Na casa dos pais era diferente. Apesar da pobreza e de ser apenas mais uma entre tantos irmãos, ela conhecia a sensação morna de fazer parte. De estar em segurança.

Onde ela vivia antes havia barulho e cheiro de casa. Labaredas no fogão, bolo assando, crianças correndo, irmãos, tias, conversas, risadas, livros espalhados, mãe, pai, avó. Havia movimento. Havia vida

Ali, não.
O dia inteiro cabia dentro de um quintal.

Pela manhã, ela o varria devagar. Enquanto a vassoura riscava a terra, cantava, em pensamento, as músicas do coral: “Vento que assovia no telhado… me traz notícias de lá.”

Atrás dela, a filhinha recolhia uma folha seca e, sorrindo, estendia-a para a mãe como se oferecesse um presente. O coração da jovem se aquecia. Por um instante, esquecia a pergunta que voltava tantas vezes: qual era o sentido daquela vida?

Do namoro precoce à gravidez indesejada, a jovem atravessou a fronteira entre a segurança da família e uma vida que sequer imaginara.

No lugar onde quase nada acontece, ela não conhecia ninguém, além do homem que agora era seu marido.

Naquela cidade, havia dias em que o sol nascia e se punha sem que fosse necessário dizer mais do que três frases, talvez.

— A galinha botou.

— Vai chover.

— Já vai?

Mas o que fazia uma jovem sonhadora e inquieta quando tudo ao redor lhe era estranho?

Não mais colégio, não mais família, não mais a vida como ela a conhecia.

Sua casa ficava na entrada da cidade. Sem outras por perto.
De onde talvez, de uma janela aberta, pudesse ouvir um “olá, vizinha” ou o riso de alguma criança.

Mas não.

Ela ouvia o trafego da rodovia que ficava la abaixo.
Mas sequer via os carros que passavam…

2.2 – Não me Reconheço

Restavam-lhe as palavras.

Passou a ler os rótulos das latas de óleo, do leite em pó, da massa de tomate, dos pacotes de macarrão. Decorava siglas misteriosas, imaginava significados, inventava histórias para inscrições como “Registrado no MA/SIF/DIPOA…”.

Quando o vento trazia um pedaço de jornal ou uma folha de revista, ela o guardava para ler mais tarde, como quem encontra um tesouro.

Ela tinha sede. E não era de água…

Mais tarde mudaram de casa.

A nova ficava a seis cercas de arame da residência de uma família numerosa e barulhenta. Pela primeira vez havia risos atravessando o silêncio daquele lugar.

E havia livros.

Uma estante inteira.

Venceu a timidez e perguntou à dona da casa:

— A senhora pode me emprestar um livro?

A mulher sorriu, divertida. Parecia surpresa com o pedido daquela esposa tão jovem.

Na volta, atravessando novamente os seis arames, a jovem carregava a filha no colo e o primeiro livro junto ao peito.

Na capa havia estrelas, um avião, um pequeno príncipe vestido de verde.

Pela primeira vez, alguma coisa parecia maior do que os limites daquele quintal.

Antes mesmo de começar a leitura, passou os dedos sobre a capa, observou as ilustrações, leu o nome do autor, examinou cada detalhe como se prolongasse o instante da descoberta.

Sentiu-se inteira. Tinha um livro em suas mãos.

Lia a história. Depois relia. Na segunda leitura descobria o cenário. Na terceira, as roupas, os gestos, os silêncios. Lia as entrelinhas como quem procura passagens secretas.

Seu marido nunca compreendeu essa paixão.

Com o tempo passou a implicar com O Pequeno Príncipe e, depois, com todos os livros que entravam na casa.

Talvez intuísse que existia um lugar onde jamais conseguiria acompanha-la.

E esse lugar ficava dentro das páginas.

3. MOSAICO

A jovem tinha a mente fértil e a imaginação escancarada.
Enxergava cores onde quase ninguém via. O sorriso da bebê lhe parecia azul. A flor que desabrochava era dourada. O amanhecer era amarelo. A saudade, escura.
Assim ia compondo a própria vida.
Um mosaico.

3.1 Vai e Vem do Tempo

Há algo em comum entre o tempo que ela rememora e os dias atuais.

O silêncio.

As pessoas deixaram de se encontrar. Permaneceram em casa. Era o lockdown.

Em busca da conversa, da troca de notícias e da simples companhia uns dos outros, aprenderam a fazer chamadas de vídeo, criaram comunidades virtuais e inventaram maneiras de diminuir a distância.

Ela observava tudo com estranha familiaridade.

Enquanto tantos reclamavam do confinamento, ela apenas o reconhecia.

Já conhecera aquele território quando sua alma ainda não encontrara abrigo no lugar onde vivia.

O mundo contava dias de isolamento, ela contava anos em que vivera pelas páginas dos livros, espiando a vida de personagens, sonhando um dia encontrar a sua.

3.2 O Que Está Submerso

Agora acontecia algo curioso.
Aquilo que durante anos lhe parecera tão particular tornava-se experiência coletiva.

As famílias voltavam para dentro de suas casas. Almoços, cafés, conversas, jogos. Costumes antigos retornavam.

E a leitura que para ela fora um alento e refúgio surgia, para muitos, como novidade.

Ninguém sabia quanto tempo duraria a quarentena.

Enquanto o mundo aguardava notícias sobre medicamentos , vacinas e formas de bloquear o avanço da pandemia, ela relembrava outra espécie de espera.

Ansiava por mudanças, por novos horizontes, algo que a tirasse daquele lugar, daquela vida. Enquanto isso…permanecia.

Entre sonho e realidade transcorreram dias, meses, anos. Seus pais estiveram sempre, de alguma forma, por perto.

As cartas do pai, as notícias das irmãs e as visitas da mãe eram aguardadas como tesouros, cujo valor só ela conhecia.

Com o tempo, a literatura ampliou seu horizonte.
Outra mulher começava a surgir.
Não mais tímida nem passiva.
Mas alguém que poderia ser mais do que apenas espectadora.

O desejo de mudança crescia na mesma medida em que cresciam as responsabilidades.

A natureza seguia seu curso e, a cada ano e meio, nascia mais um filho.
Quando já era mãe de quatro crianças pequenas, sentia com urgência que precisava transformar a própria vida.

Seus filhos não herdariam o pouco. Eles, não.

Seu marido há tempos desistira de tentar compreender aquela mulher que, mesmo depois de um dia inteiro nas lides domésticas, ainda encontrava razões para abrir um livro e ler, antes de dormir.

Por vezes a observava lendo: seu semblante demonstrava as emoções, ora um sorriso divertido, ora os olhos brilhavam, animados ou limpava uma lágrima furtiva.
Ele sentia que havia um lugar só dela, ao qual jamais conseguiria entrar.

E ela sabia que já não cabia só ali.

Sonhava, sim.

Mas já não bastava sonhar.

O contato com tantos mundos, personagens, possibilidades e vidas lhe mostrou que existiam outros horizontes.
Os personagens que encontrava nos livros deixaram de ser apenas companhia. Tornaram-se coragem.

A pergunta já não era com o que sonhava.

Mas, qual era a sua sede?

Aos poucos, o sonho transformou-se em vontade.
Mais tarde, seria decisão.

As desilusões, curiosamente, foram menores.

Talvez porque ela nunca tivesse tido tempo para cultivar ilusões. A vida sempre chegara antes delas.

Embora sua mente buscasse outros horizontes, os pés permaneciam firmes no chão.

Seus filhos eram seu alicerce.

Quando eles se tornaram adultos, ela e o marido já não encontravam razões para permanecer juntos. Separaram-se. O vínculo que começara tão cedo havia cumprido seu tempo.

Não houve mágoas. Cada um deu de si o seu melhor.

O tempo seguiu seu curso.

O corpo envelheceu.

Sua mente continuava livre.

E, sendo livre, não conhecia fronteiras.

4- Tempo de Devaneios

Sendo assim viaja em seus devaneios…

Vem à sua mente a imagem de uma moça que caminha sem prestar atenção onde põe os pés; anda tanto que já não sabe se foi longe, nem percebe as horas passando.

Em que estará pensando? Que sonho a acompanha?

Ou talvez apenas caminhe, entregue ao próprio movimento, sem destino nem pressa.

Nunca ninguém saberá.

E assim começam as
lembranças…

Aromas da Infância

Houve uma menina que, certa vez, sentiu um cheiro delicioso e perguntou ao colega o que havia na lancheira.

— Maçã.

Ela ficou em silêncio. Não sabia o que era uma maçã.

O menino então disse:

— Olha embaixo da mesa que eu vou te mostrar.

Ela se abaixou para procurar.

Não havia nada a mostrar… A não ser o menino, que abrira a calça e mostrava o piu-piu.

Anos depois, quando finalmente comeu a fruta, sentiu-se, de certo modo, vingada. Achou-a insossa.

Talvez por isso tenha aprendido que nem todo desejo corresponde ao que se imagina.

E, como se os sentidos guardassem suas próprias histórias, havia também o cheiro de alho fritando que o vento trazia.

O aroma vinha de longe. Não da panela em que sua mãe preparava a sopa da noite, mas de alguma cozinha da vizinhança, que ela não sabia qual era.

Gostava daquele cheiro antes mesmo de conhecer o sabor.

Talvez tenha sido assim que começou a construir sua memória afetiva: guardando o que era bom e deixando para trás o que nada lhe acrescentava.

Mesmo que fossem aromas e enganos.

E, entre essas pequenas descobertas, houve também um dia de muita chuva.

A água corria pelo meio-fio, desenhando caminhos apressados.
Ela caminhava na garoa fina que restara da tempestade, enquanto as gotas se misturavam às lágrimas.

Por quê?

Porque, pouco antes, sua mãe havia dito:

— Vá. Pode ir.

E, quase sem perceber o peso daquelas palavras, acrescentara:

— Mas vai ser a última vez. Você já é uma mocinha.

Às vezes, crescer começa exatamente assim: quando alguém nos diz que uma alegria de criança aconteceu pela última vez.
Depois vêm outras frases.
— Você não é mais criança.
— O que os outros vão dizer?

Sem perceber, deixamos de correr na chuva, de subir em árvores, de fazer tantas coisas que um dia pareciam naturais.

E era tão bem ser criança!

4.2 Patinhos Abençoados

As surpresas são reais, aquelas de arregalar os olhos!
E a menina conta:

Fui com minha mãe a uma chácara. Era de uma senhora idosa, parente dela.
Apaixonei-me pela fileira de patinhos amarelos andando em perfeito desfile atrás da orgulhosa pata-mãe.

Enquanto conversávamos, a dona da casa contou que havia “benzido” os patinhos.

— Benzido? O que é isso?

Ela sorriu e respondeu baixinho:

— É rezar e recomendá-los aos santos ou ao anjo da guarda para que não peguem mau-olhado.

Olhei-a sem compreender…

Não pelo que ela disse, mas porque descobri, naquele instante, que poderia existir gente capaz de olhar com maldade para criaturas tão pequenas e tão bonitas.

Me benzi.
Fiz o nome do pai…

5- Mãe, é Você?

— Nossa, mãe! Como você consegue guardar tantas lembranças? Parece uma esponja! Eu não me lembro nem o que comi ontem, a filha diz rindo.

— Eu não vim a este mundo a passeio. Vim para me encantar. Lembra que sempre falei isso?

A filha balançou a cabeça, divertida.

— Tá bom… Tá bom… Não temos mesmo nada para fazer…

Ela sorriu e continuou:

— Para contar histórias é preciso parar um pouco. Eu acho uma delícia contar. E acho uma delícia ouvir.

Meu pai contava histórias com os olhos brilhando. O sorriso quase escapava antes mesmo de chegar ao final.

Minha mãe também.

Foi assim que cresci.

Para mim, ouvir uma história sempre foi um afago. É como se quem conta dissesse, sem precisar usar essas palavras:

“Eu me importo com você. Por isso quero dividir esta lembrança.”

Até hoje sorrio quando recordo os “causos” que os dois traziam para casa, principalmente depois de alguma viagem.

Eles sempre voltavam com malas. Mas traziam muito mais histórias do que bagagem.

— Mas… se você já estiver cansada, eu paro por aqui.

— De jeito nenhum!

5.1 – Vim Para Ficar…

— Nós estamos juntas. Acho que a melhor ideia foi essa: ficar aqui com a senhora.

Seria muito ruim cada uma na sua casa, sem contato. A preocupação ia rondar o tempo todo. A cada toque do telefone, um sobressalto.

— Verdade… mas não vamos nos inquietar mais do que o necessário. Vai passar.

Levantou-se devagar.
— Vou fazer um café, para nós.
Pode pegar as xícaras?
As duas sorriram.

Existiam mulheres assim. Diante da tempestade, não faziam discursos. Ela era uma delas.

Como tantas outras, fazia o que precisava ser feito.

5.2 O Segredo

Mas havia algo que só pertencia a ela.
Enquanto o mundo lá fora diminuía o passo, outro movimento acontecia.

— Filha, você sabe que sempre vivi um pouco na realidade e um pouco na imaginação.

— Hum… o que vem aí, mãe?

— Uma travessura séria…

Coleciono lembranças e converso com elas. Faz tempo que descobri uma coisa curiosa.

Nunca vivi sozinha.

A filha franziu a testa.
— Como assim?

Ela mexia lentamente a colherinha no café, enquanto falava.
A filha riu.
— Isso está com jeito de maluquice…

— É nada… Acho que todas as minhas idades continuam morando comigo.

Ora aparece a menina que fui.
Ora a jovem.
Ora a idosa que sou.
E convivo muito bem com as três. Mais do que isso: divirto-me com elas.
A filha sorriu.
— Agora entendi.
E acho isso um encanto.
“Eu vim a este mundo para me encantar.”

— É verdade.

Elas sempre sabem quem deve entrar em cena. Hoje fui eu.
Lavei a louça, limpei o fogão, organizei a cozinha e deixei tudo pronto para começar o almoço.

Curiosamente, faço isso com muito mais alegria do que quando eu era jovem.

A menina se encanta.
A jovem sonha.
A idosa põe a casa em ordem, porque gosta dela limpa, arejada e com flores.

— Falando nisso, mãe, como a senhora consegue comprar flores toda semana?

— Não tem mistério. Faço uma assinatura na floricultura.

— Eu nem sabia que isso existia! A senhora está sempre inventando um jeito de deixar a vida mais bonita.

— Eu gosto. Quando começaram a falar da pandemia, fui descobrindo formas de atravessar os dias em que ficaríamos em quarentena.

5.3 A gaiola Encantada

— Você não faz ideia. Eu transformei o meu isolamento quando criei uma fantasia e poetizei a minha casa.

Agora eu tenho uma gaiola antiga, de ferro pintado de azul, com as grades arredondadas. Vou para lá quando quero descansar da rotina…

Eu sabia que ficaria sem sair por algum tempo.
Então criei um refugio mental, aqui mesmo dentro de casa.

Tanto numa como na outra minha imaginação é livre.
Eu gosto dessa fantasia.

— Hum…entendi, disse a filha rindo.
O que importa é que o seu pensamento possa voar…

Mãe, a senhora não existe!

— Ora, se podemos amenizar a realidade porque nao fazer?

Agora que você resolveu ficar aqui comigo, vamos ter tempo para muitas descobertas, leituras e conversas.
— Eu vou adorar, mãe.

— Vou tirar uma sonequinha… e acho que você devia fazer o mesmo.
— Vou sim.
Mas antes vou ligar pro Beto.

Bom descanso, minha “caixinha de surpresas”.

— Ah bom, sou isso agora?

Fui me deitar pensando no que minha filha dissera.
Uma caixinha de surpresas…Sorri.

Enquanto meu corpo permanecia entre quatro paredes, a memória atravessava décadas sem pedir licença.

Sem perceber, fui alimentando a alma com tudo o que vivi. Cheiros, cores, vozes, detalhes que quase ninguém notava.

Algumas lembranças permaneceram. Outras perderam o sentido e ficaram pelo caminho.

Talvez seja isso envelhecer.

Os dias difíceis não desapareceram.
Apenas deixaram de ocupar o centro da sala.

E, quando a memória se abre, são as passagens curiosas, as pequenas alegrias e as descobertas que chegam primeiro.

Cada uma delas devolve um pouco de vida ao tempo que parece perdido.
E a memória abriu outra porta.

Agora falava de realizações.
Ou quase realizações.

4- Realizações…ou Quase!

4.1-Serei costureira!

Uma delas foi o curso de corte e costura.

Imaginem.

Eu me conhecia tão pouco. Ou, quem sabe, tivesse confiança demais em mim.

Hoje tenho plena consciência de que sou péssima em coordenação motora.

Mas minha mãe era costureira, e eu queria ter uma profissão.

Descobri um curso não muito longe de casa. Podia ir a pé.

E lá fui eu… levando comigo os quatro filhos.

Que pretensão!

Como imaginei que aprenderia a tirar o molde da revista, ampliar, passar para o papel, riscar o tecido com giz, cortar, prender alfinetes e, por fim, sentar-me diante da máquina para costurar?

Isso já seria difícil em condições normais.
E nestas, então!
A professora instruindo…
— Assim…isso. Vai passando a carretilha por cima do molde. As marcas passam do molde para o tecido. Agora é treino…por isso é no papel.
Viu? Faz na saia…tira o molde de cima…agora com a tesoura segue os pontinhos e vai cortando…
— Mãe, a Lucia me bateu!
— Ela me bateu primeiro!

O curso transformou-se num verdadeiro caos.

Enquanto a professora ensinava a cortar o tecido, eu tentava apartar uma briga, impedir que o bebê engatinhasse sobre os moldes e descobrir onde tinha ido parar a tesoura.

Fui a duas aulas.

O vestido de papel ficou pronto.

Eu, porém, morri de vergonha do alvoroço provocado na casa da professora e desisti.

Ela também não insistiu para que eu ficasse.

Mesmo assim, incluo esse curso na categoria das realizações.

Não porque tenha aprendido a costurar.
Mas porque fui.
Porque tentei.

4.2 Serei Manicure

Algum tempo depois, resolvi fazer outro curso.

“Agora vai. Vou escolher alguma coisa que eu possa aprender em casa. As crianças brincam enquanto eu estudo.”

Mãos à obra. Juntei os trocados e fui comprar o material. Conversei com a moça que me ensinaria, e ela concordou em dar as aulas em minha casa.

Mulheres apoiando outras. Sempre tive “sorte” nessa área.

Mais uma tentativa hilária.
E mais um fracasso.

O bebê dormiu. Graças a Deus.
Agora vamos treinar. Antes que eu puxasse o banquinho onde me sentaria, a menina mais nova caiu dentro da bacia de água onde eu praticaria as lições do curso de manicure e pedicure.

Ali terminou minha carreira de manicure, antes mesmo de começar.

4.3-Quero Ser Professora.

A diretora olhou para mim como quem tentava entender aquela cena.
Eu estava arrumada, levava uma pasta com meus documentos e o diploma do curso ginasial.
Numa das mãos segurava a pasta.
Na outra, a alça do carrinho do bebê.
Ao lado dele, uma menina um pouco maior me observava em silêncio.
Não foi preciso dizer muita coisa.
Gentilmente, fui dispensada.

Aprendi também outra coisa: nem toda tentativa termina em fracasso.

Algumas apenas mostram o caminho errado até que a gente encontre o certo.

4.4- Virei Salgadeira.

Ou, pelo menos, fui salgadeira durante alguns meses.
Fazia salgados por encomenda.
Ali, sim, encontrei realização.
Boa clientela.
Bons lucros.
Até que enfim!

Descobri que minhas mãos não nasceram para a costura nem para fazer unhas. Mas sabiam muito bem preparar salgados.

E aprendi outra coisa: nem toda tentativa termina em fracasso.
Algumas apenas mostram o caminho errado até que a gente encontre o certo.

Há acontecimentos que parecem mera coincidência.

Descobri que algumas conquistas nasceram do meu esforço.

Outras, porém, chegaram de um jeito que nunca consegui explicar.

Sempre que olho para trás, tenho a impressão de que alguém colocou uma pequena luz exatamente onde eu precisava olhar.

Foi assim mais de uma vez.

5.2 – Bilhete de Loteria

Quem sabe um bilhete de loteria resolvesse o aperto financeiro?

E com esse pensamento ela saiu para comprar um.

Enquanto aguardava, seus olhos passeavam pelo mural da agência. Entre avisos e papéis pregados sem muita ordem, um edital chamou sua atenção. Era um concurso público.

— Marcelo, vem cá.

— Que foi, mãe?

— A partir de hoje você vai estudar muito.

— Mas eu já terminei o segundo grau. Agora é pensar no vestibular.

— Eu sei. Mas estou falando de outra coisa.

— O quê?

— Inscrevi você num concurso de um órgão federal.

— Já pensei em tudo.

Vamos desocupar aquela sala do fundo.

Você vai estudar lá, sem ninguém interromper.

A prova é daqui a alguns meses. Dá tempo. Olhei as matérias, o salário… É uma boa oportunidade.

Entre quinhentos e trinta e cinco candidatos, apenas um foi aprovado em todo o Estado .
O único.

Era o Marcelo.

Hoje tem sua família, seu trabalho e uma vida construída com dignidade.

Naquele dia ela saiu para comprar um bilhete de loteria.

Voltou para casa trazendo outra sorte.

Seu coração de mãe sorri em silêncio.

Anjos existem.

5.3- Cadê a Vovó?

E quando um neto de nove anos pede que criem um endereço de e-mail para conversar com a avó durante o isolamento?

Poucos dias depois, chegou a primeira mensagem.

“Bom dia, vovó.”

No dia seguinte:

“Como a senhora está?”

Depois outra:

“Estou com saudades.”

Cada mensagem atravessava a distância.

Cada uma tornava o isolamento um pouco mais leve.

Anjos existem.

6- REALIDADE

Anjos Existem

6.1 Venha buscar o seu carro

Era setembro. Começo da primavera.

Naquela casa, porém, ninguém percebia as flores.

— Mãe, pode me ajudar com o bebê? Vou tentar o leite novo. Disseram que é especial para recém-nascidos.

Algum tempo depois, a mãe perguntou:

— Não aceitou?

— Não. Vou dar o chá outra vez. Mas precisamos encontrar uma solução. Ele está tão magrinho… Desse jeito, vai ficar desnutrido.

O bebê, alérgico ao leite, chorava de fome quase todas as noites.

— Isso, filha. Tente acalmá-lo. Preciso ver como está seu pai. Ele não dormiu nada.

— Por causa da dor?

— Sim. As dores ficam mais fortes neste horário. O médico insiste que somente o tempo e a fisioterapia poderão ajudá-lo.

— Vai dar certo, mãe. Temos que confiar.

— O problema é levá-lo às sessões. O compadre não pode vir todos os dias. E, pelo que o médico falou, teremos de insistir na fisioterapia pelo menos até completar seis meses do acidente.

Entre um e outro, ela atravessava os dias.

Alguém sugeriu leite de cabra.

O bebê aceitou.

Naquela casa, ouviram-se muitos vivas e graças a Deus.

Quanto ao avô, seguiram-se as consultas médicas e as sessões de fisioterapia. Para o bebê, vieram as vacinas, os alimentos especiais e todos os cuidados necessários.

Não era fácil.

Em momentos assim, as pessoas ajudam. Emprestam o carro. Levam ao médico.

Mas a vida continua.

E a ajuda também tem seus limites.

Então o telefone tocou.

— Seu consórcio foi sorteado. Venham buscar o carro.

Por um instante, ela ergueu os olhos para o céu.

Anjos Existem

6.2 Novo Normal

As lembranças de outras épocas são a força para atravessar o presente.

Havia quem mantivesse o otimismo, quem buscasse respostas nos noticiários e também os que perguntavam todos os dias:

Quando? Quanto tempo?
Vai demorar?

Hoje estamos assim;
Não nos vemos
Não nos tocamos.
Não enxergamos o sorriso do outro. Nem apertamos as mãos.
Menos ainda trocamos beijos no rosto.

Os rituais desapareceram. Casamentos, batizados, festas…

Nem a morte escapou.
Morreu?

Do hospital, direto para duas horas de despedida.

6.2 Não Fico Sozinha.

Sorriu.
— Eu?
Estou bem
— De verdade, mãe?
— Sim!
Pode voltar para casa, filha. Eu fico bem sozinha. Na verdade, nunca fico realmente só. Tem o grupo…

A filha a olhou curiosa…

— Ah… então é isso? Já estou atrapalhando?

— Claro que não, você sabe. Mas o Beto e o Junior estão lá.
Fique com a sua família.
Temos que aceitar que, no momento, esta é a vida normal.
Eu estou tranquila.
Além do mais, gosto da solitude.

Fez uma pequena pausa.

— E gosto do grupo também. Dos “bons-dias” , dos pequenos sinais de cuidado e carinho entre nós.

— Então eu vou. Mas ligo todos os dias.

— Combinado!

A filha saiu.

“Foi tão querida… Mas eu jamais aceitaria que deixasse a própria casa para ficar comigo.”

6.3 Pedido de ajuda

O telefone tocou.

— Oi , Dalva!

— Sim, claro. Sou eu mesma. Ah… achou que fosse a Sofia?

Sorriu.

— Não. Eu disse que não precisava. Passamos o fim de semana juntas e pedi que voltasse para casa.

Ouviu a resposta da amiga e riu.

— Eu sabia que você ia dizer isso.

— É… mas ela tem o Beto e o Junior.

Fez um breve silêncio.

A Dalva falava sem parar.

Enfim concluiu:

— Ainda bem… Estou preocupada.
Você sabe que o Otto, a Dinah e a Neuza moram sozinhos.

Agora, com esse isolamento, vão ficar sem ver ninguém. Nem missa, nem cinema, nem caminhada…

Foi justamente por isso que pensei em fazermos alguma coisa.

— Eu sei, Dalva…estamos todos no mesmo ritmo. Televisão, cozinhar, comer, dormir…
Nem missa, nem cinema, nem caminhada…
Mas você acha mesmo que daria certo?

— Claro que sim! Não tenho dúvida!

— Amanhã a gente continua, tá bom?
Vou analisar, ver como seria…
Beijo. Boa noite. Cuide-se.

6.4 Será?

“Preciso pensar
Talvez a Dalva tenha razão.

Um gesto de carinho que nos alcance pelos meios virtuais; pequenos sinais de amor e de cuidado.
As vezes um bom dia ou tudo bem são bálsamos que nos renovam o ânimo e devolvem um pouco de leveza aos dias.

Além do que ela sabe me convencer, a danadinha.
Pensa que eu não percebo?
— Só você pode fazer isso…
— Todos sentem sua falta…
E a forma de falar?
Dá a impressão que ela escolhe as frases, pois diz com o jeito de quem conhece a resposta antes da pergunta.

De toda maneira
Confesso que fiquei envaidecida

Vieram tantas lembranças.
A mudança. Os novos ares. A esperança de recomeçar.

Às vezes uma frase descerra a cortina do passado

Percorri o caminho da vida com coragem e perseverança, sem jamais perder o encantamento pelas palavras.

Meus cabelos embranqueceram.

E mesmo assim eu ainda me surpreendo.

Se vejo uma folha em branco já me sinto convidada a escrever…

As letras…

Ah, as letras.

Sozinhas, parecem tão pequenas.

Reunidas, tornam-se palavras.

Depois histórias.

E, às vezes, mudam uma vida.

Caracteres enfileirados, quase como soldados obedientes.

Quando reunidos, transformam-se em palavras.
Depois em frases.
Mais adiante, em histórias.
Às vezes, em livros.

Os livros…meu refúgio e alento

Suportei invernos sonhando com piqueniques à beira-mar.
E as heroínas dos romances? Virtuosas ou imperfeitas, todas elas continuavam caminhando comigo apesar das dificuldades.
Elas me inspiraram em muitas ocasiões…

Vou acreditar no que a Dalva disse:

Que eu ainda posso ser ser útil, que tenho muito a oferecer.
Fazendo algo novo
Ou o antigo sob um novo olhar.

Mas agora vou dormir.
Amanhã talvez eu descubra por onde começar.”

6.5 Eu não sou de me esconder

O telefone tocou cedo.
— Amiga, e ai? O que vamos fazer?
— Dalva, que bom você me ligar! Eu estava justamente pensando…
— Me fale! Tem uma idéia?
Conversaram por vários minutos e terminaram confirmando:
— Te ligo mais tarde!
Quando? Hoje mesmo, Dalva, hoje mesmo.
Tchau!

“Bom, já estou convencida então, mãos à obra: vou organizar a proposta da Dalva: trazer para mim o compromisso de zelar pelo nosso grupo.
Não é sem razão que ele se chama: Amigos do Coração.

Vou fazer isso não apenas por eles, mas por mim também.

Sou forte. Mas preciso de algo que me preencha o espirito, para continuar assim.

Afinal as circunstâncias que se apresentam são imprevisíveis.
Além do que, como disse a Dalva: eu não sou de me esconder! “

6.6 Sherazade

Lembrei!

Eu sabia que conhecia uma lenda ou algo parecido.

Sherazade! Vou fazer como ela.

Contava histórias para adiar a morte.
Nós também precisamos delas.

Um refúgio para ocupar os nossos dias, impedir que o medo tome conta, e para nos afastar dessa procura incessante, quase mórbida, por notícias.
Precisamos de um pouco de leveza.

Afinal…estar confinado na própria casa pode ser um grande desafio.
Não apenas pelo vírus.
A ansiedade também nos adoece.

—Oi Dalva, tudo bem?
Achei um jeito! Ja sei o que podemos fazer:

Vamos contar histórias.

Um silêncio do outro lado da linha.
— Como vai ser?
— Como fazíamos quando éramos crianças.
Sem pressa.
Apenas ouvindo.
—Ah… gostei. E depois vamos trocando ideias, impressões e conclusões?
— Isso!
— Que bom! Vai ser uma ótima forma de “nos reunirmos”!
— Sim.
Tchau Dalva! Vou agora mesmo organizar o nosso projeto.
Bjs, Boa noite

Já é tarde, mas preciso anotar algumas coisas…
Aqui está a caneta,
Agora o caderno.
Vamos aos nomes
Escreveu alguns nomes.

Otto.

Gerson.

Ana.

Dalva.

Depois ficou olhando para a folha em branco.
Faltava o principal.

O título.

Histórias de Dona Divina.

Riscou.

— Não…

Não seria apenas minha história.

Pensou mais um pouco.

Então sorriu.

Um Pouquinho de Leveza.
Este vai ser o nome do nosso projeto.
Estou ansiosa… Não. Estou é animada!

— Agora, sim…

Amanhã começamos.

7. Um Pouquinho de Leveza

7.1 “Eu sou a mais bonita… “

Ainda em Jardim, ainda no viver em família, com mãe, pai e irmãos.
Foi assim. Em época de Natal um casal benemérito doava tecidos para que minha mãe fizesse roupas novas para nós!
E nós (quatro meninas) esperávamos impacientes a roupa nova. Ele dava dois cortes de tecido, um para as duas mais velhas e outro para as duas menores.
Aí minha mãe passava os dias na costura, levanta, sacode a roupa, passa ferro, costura de novo, e eu na expectativa.
Chegado o dia de ela nos mostrar nossa roupa, eis a surpresa: o da minha irmã, a saia toda pregueada, mangas bufantes, cinto de amarrar atrás, o auge da moda!
O meu, um vestido tubinho de outro tecido, com um recorte abaixo dos seios e dois bolsos, do tecido que havíamos ganhado. Só um recorte!

Que revolta! Mas encontrei um jeito de me consolar. Por mais boazinha que eu fosse, no fundo pensei: “ Ela fez isso porque sabe que eu sou a irmã mais bonita.”

E fiquei em paz.

Fim

Pensei que só eu tinha essa maneira de pensar — disse Manoel, rindo. — Como assim? — perguntou Lídia. — Sempre encontrar um jeito de sair ganhando.
— Ganhando?
— Nem que seja só na imaginação…
E caiu na risada.

A historia contada fez sucesso, trouxe lembranças, gracejos e fez jus ao nome do “projeto.”

Naquela noite ninguém quis assistir ao noticiário na TV.

Novo dia, nova historia:

8.2 Gibi de terror
Historia trazida pelo Otto

Quando eu era criança eu lia gibis. A revista rodava entre os colegas. Aí o meu amigo perguntou.
— Ja leu o novo do Zé?
— Não, tou na fila… do que é?
— É quase de terror, mas não vou te contar…espera…
— Se é daqueles preto e branco eu já sei. Só pode ter historias de assustar… sabia que o pai dele também lê, quando é desses?

— Ah, e eu que tenho que esconder as minhas? O Paulo, ja tá no ginásio e quer ler primeiro que eu…
— As histórias sem cores não parecem mais sinistras?
— É verdade…Vou indo.

Esperei uns dias e chegou a minha vez …o gibi em preto e branco, com a história de uma planta que nascia e tomava tudo; os galhos entravam pelas janelas e sufocava as pessoas que estavam em seu caminho; ela avançava implacavelmente e as pessoas corriam.
— Lembro-me de que, quando tudo parecia perdido, o herói apareceu com uma mangueira de água.
Fiquei sem ar, quase!

Ela retorceu -se, como se lutasse e desmanchou-se. Galhos, folhas, tudo se dissolveu e escorreu pelo chão.
Ela derretia ao contato da água!

— Ah, e você ficou com medinho? Seu frouxo…
— Claro! Meu coração ficou acelerado.
Escondi o gibi debaixo do colchão para esquecer o pavor!
Fim.

— Caraca, Otto! Que história! disse o Gérson
Bem que podia aparecer uma mangueira dessas para acabar com esse vírus…
— Não vamos falar disso agora, pediu a Dalva.

Ela tinha razão. Aquele era um momento de leveza…

Embora não falassem da realidade, das notícias alarmantes e de tudo que se relacionava à pandemia, não havia como ficar à margem.

O trabalho passou a ser home office e o ensino se tornou no modelo “ensino remoto,” mudanças significativas que estavam ali, nas casas, com todas as adaptações e transtornos que trouxessem.

Além de muitos outros sinais do que estava acontecendo.
As empregadas domésticas foram dispensadas.
As compras, trazidas por entregadores paramentados e de máscara, entravam pela porta dos fundos e seguiam diretamente para o tanque, onde tudo era lavado.
Água, sabão, álcool e máscaras tornaram-se produtos de primeira necessidade.

9- Hora do Recreio

“Vamos parar por uns dias.”
Dona Divina postou no grupo.

Logo a interação pipocou
Eram perguntas, queixas,”mas e o meu conto?”; o alvoroço, se fosse de forma presencial teria sido uma barulheira!

Ela sentia que não podia decepcionar seus amigos…
Mas precisava se reorganizar internamente.
Pediu dois dias de folga.
Só dois dias.
A Neuza se prontificou em manter a interação, não com as histórias, mas como se fosse um recreio.
E assim fizeram.

Para onde Dona Divina iria? Se ainda estavam em isolamento…

Ela foi fazer o que fez por longos anos. Refletir.
Arrumou gavetas…mexeu com suas plantinhas…
Sentou-se para olhar a tarde, sua gata Felícia aos seus pés…

E procurou na estante um velho conhecido. O exemplar já amarelado de O Pequeno Príncipe.
Um livro de esperança, de ternura…de um tempo longínquo:
Precisava, por alguns dias, conversar com alguém que ainda acreditava nas coisas essenciais.

Fim do Intervalo

Passado os dias de recolhimento, eis que ela volta com muita energia:

— Bom Dia! Vamos a mais uma história?
— Vai ser de quê? — perguntou a Ana.
— Traz alguma engraçada, pediu o Gerson.
— Calma…um conto por vez. Este é de espanto. E tem muito a ver com os dias atuais.

1.3. Uma Noite de Medo

Eu devia ter uns nove ou dez anos.

Morava em Jardim quando correu pela cidade um boato: o mundo ia acabar. Seria naquele dia.

Foi assustador:

Mamãe me mandou comprar velas. Fui correndo. Até hoje não sei por quê. Será que, no escuro, o fim do mundo demoraria um pouco mais?

Naquele dia nos recolhemos cedo.

Não houve o recreio de fim de tarde.

Era quando nos sentávamos em frente de casa para brincar, implicar uns com os outros e ouvir as aventuras dos irmãos mais velhos, que podiam andar pelas ruas enquanto nós, meninas, não podíamos.

Era um pedacinho muito bom do dia, disse suspirando.

Lembro que eu só queria que a noite chegasse depressa.

Pensava que, se o mundo acabasse enquanto eu estava dormindo, já acordaria em outro lugar. Então que fosse logo.

Mas a noite passou.

O dia amanheceu.

E o mundo continuou exatamente onde estava.

Fim

As mensagens demoraram alguns segundos para aparecer.
Então Dona Divina escreveu:
— Sabem por que contei essa história?

— Não… — responderam quase ao mesmo tempo.
— Porque estou com saudade.
— Saudade de quê?
— De ser criança e ter um medo que acabava quando amanhecia.

Houve um breve silêncio no grupo.

Até que Otto escreveu:

— Agora entendi.
— Estamos vivendo muitas noites de medo.
A conversa recomeçou.

Cada um contou como se sentia. E o pano de fundo dos dias era o medo.
Naqueles dias, bastava o telefone tocar para o coração apertar. Poderia ser a noticia de alguém doente. Ou na pior hipótese, até morto.

Qualquer ligação podia trazer uma notícia que ninguém queria ouvir.

As semanas foram passando quase sem que se percebesse.

Vieram o Dia Internacional da Mulher, a Sexta-Feira Santa, o Dia do Trabalhador, Corpus Christi.

Os feriados existiam apenas no calendário e nos noticiários.

Enquanto isso, todas as manhãs, aquele pequeno grupo continuava a se reunir.

Para ouvir
Um conto de cada vez.

1.4. Eu preciso de um mimo
História da Ana

Quando eu “preciso me mimar” , diz a Ana, eu faço um prato de mingau para tomar. Coloco em prato fundo, canela em cima e volto a ser a criança que foi mimada dessa forma um dia.
Como assim? Ahhh vou contar! Éramos muitos filhos e de idades bem próximas. Nossa mãe muito ocupada, costurava, cuidava da casa e os filhos todos em volta, os mais velhos cuidando dos mais novos e tal. Mas se acontecia de algum filho ficar doente, uma gripe, uma dor de cabeça, etc…minha mãe largava os afazeres e ia cuidar daquela criança. Desde espinho no pé, tosse, gripe, o que fosse , após os cuidados ela fazia um prato de mingau e dava ao seu “doentinho”. Sendo assim, receber esse mimo era o máximo de carinho que um filho poderia receber e pelo qual valia a pena, a gripe, a cólica, o que fosse!
Essa lembrança afetiva aflora em mim quando estou carente. Não tenho dúvida, vou à cozinha e faço meu prato de mingau.
É um santo remédio, como ela dizia, só tomar que tudo volta a ficar bem!
Fim

— Que maravilha!
— Não é, Telma?
— Sim! E com certeza eu vou adotar!
— Como? Você não tem filhos!
— Vou adotar para mim mesma. Vou “me mimar.”

Risadas gerais… Virtuais.

A distração fazia bem, todos concordavam. Sentiam como se,
por alguns minutos, conseguissem abrir uma janela para a realidade como a conheciam. Onde não existia risco, doença, medo…Não na forma de pandemia.

As notícias ainda eram alarmantes. Para o vírus não havia fronteiras…nem diferença social…

Estavam todos no mesmo lugar; o mundo se tornara a grande Arca de Noé dos tempos atuais…

O convívio obrigatório dentro dos lares,a proibição de contato com com os que estavam fora daquele circulo; a espera da solução; até um milagre, talvez.

E aliado a tudo isso, o medo…

Nao havia festejos…
Apenas retrospectivas…
A vida parecia suspensa.
Os dias passaram.

Quase um ano depois surgiram as vacinas.

Que alegria!

As ruas voltaram a se encher.
As portas se abriram.
As máscaras desapareceram.
E, pouco a pouco, a vida retomou o seu ritmo.

Aquele tempo ficou para trás.
Os pequenos encontros virtuais também.
Alguns amigos seguiram caminhos diferentes. Outros permaneceram, como acontece com quase tudo o que nasce de um tempo excepcional.

Mas as histórias ficaram.

Pelo menos para aquele pequeno grupo de amigos, o tempo passou de maneira mais leve.

Nunca foram apenas um passatempo para enfrentar o isolamento. Eram pontes.

Enquanto muitos imaginavam que ela oferecia companhia aos outros, talvez fossem aqueles encontros que, silenciosamente, lhe faziam companhia.

Ela ainda conta histórias.

Percebeu, afinal, que existem lugares onde uma pessoa pode morar sem nunca ter vivido.

Ela passou a morar nas palavras.

E, desde então, nunca mais esteve sozinha.

Maria Elza🌷

10.2 Tudo passa… ou quase tudo

Quase um ano depois, as vacinas chegaram.
As ruas voltaram a se encher.
As portas se abriram de novo.
As máscaras foram sumindo.

A vida foi encontrando o seu ritmo outra vez.

O pequeno grupo ainda se encontra, de vez em quando, para um café, um cinema ou uma boa conversa, como faziam desde o início.

Alguns permaneceram próximos. Outros seguiram seus próprios caminhos, como acontece com quase tudo o que nasce em tempos fora do comum.

Cada um levou consigo as lembranças dos amigos com quem atravessou um período difícil, tornando-o um pouquinho mais leve.

Dona Divina continuou escrevendo.

E, enquanto escrevia, fez uma descoberta.

Há pessoas que passam a vida inteira procurando um lugar onde se sintam em casa.

Ela também passou muitos anos nessa busca.

Primeiro imaginou que esse lugar fosse uma cidade.

Ainda jovem, encontrou abrigo nos livros.

Depois acreditou que o encontraria numa profissão.

Muito tempo mais tarde percebeu que, de certa forma, havia morado em todos esses lugares.

Só então compreendeu que algumas pessoas habitam o mundo de um jeito diferente.

Moram nas lembranças. Nos afetos. Nas palavras.

E foi nas palavras que ela, enfim, encontrou morada.

Maria Elza🌷

CONTOS DA QUARENTENA

Corram! Escondam-se! Rápido, rápido! Esconder onde? pergunta Pergunta os amigos, entre os quais, alguns que tem têm uma característica quase imperceptível, eles são idosos, mas não se dão conta disso, porque ainda são ativos e se exercitam, mas numa em uma situação alarmante podem não saber para onde correr ou se esconder.

Esse foi o motivo de Dona Divina tomar à frente do grupo, ela sabe que precisa fazer alguma coisa, embora não saiba ainda bem o quê! Mas não é hora para divagações, o perigo está rondando, é um perigo invisível, mas dizem que é o mais mortífero já visto, então não é hora de ter dúvidas. É hora de se esconder, se proteger.

Escondam-se em suas casas e de lá não saiam em hipótese nenhuma! Assim diz Dona Divina. Fiquem em casa, façam o possível para se distrair, peçam compras por telefone, se disfarcem usando máscaras, só abram as portas se a pessoa usar a senha! E foi falando e ajeitando quase 250 pessoas que estavam em seu grupo.

– – Qual é a senha? – perguntou Maria.
– – A senha é a máscara, se a pessoa estiver de máscara, ela é nossa aliada – ensina a líder.
–- E o que faremos presas em casa? – pergunta Pergunta uma senhora miudinha, cheia de energia, que em tempos normais batia pernas pelos shoppings, lojas, e afins.
–- Calma, acharei um jeito para nos distrairmos: aguardem!

Sendo assim, umas sensatamente (outras nem tanto) foram se recolhendo em casa, pelo sim pelo não, todas sabiam que o tal inimigo era muito perigoso!

Que coisa, pensavam algumas, já não basta a artrose, a artrite, a asma, o diabetes, todos vilões já domesticados, justo agora que estamos na fase de só curtir nossa vida, vem um novo inimigo, um vírus desconhecido que transmite uma doença a que chamaram de Covid-19. De onde, por que, por quanto tempo? Essas eram as perguntas que umas mais (outras menos) se faziam.

Dona Divina sentiu que precisava fazer algo por ela e pelo seu grupo, para ajudá-los a superar esses dias de incertezas, porque muitos poderiam até adoecer de ansiedade.

Ela pensou, pensou e pimba: deu-se uma luz!

Lembrou-se de uma lenda, onde na qual uma jovem com sua beleza e inteligência, Sherazade, fascinou o rei ao narrar histórias fantásticas por mil e uma noites, poupou sua vida e ganhou o eterno amor do Rei Shariar.

Sim! Ela seria a Sherazade!

Bom, pensou Dona Divina, aqui também se trata de ajudar vidas, então vou começar contando histórias para as distrairdistraí-las e tornar o período de isolamento social mais ameno.

Ahhh, é que o grupo não sabia ainda, mas havia uma recomendação para que ficassem de quarentena, ou seja, quarenta dias sem sair de casa!

As pessoas não iriam aos cafés com os amigos, não iriam à casa dos filhos, aos restaurantes, aos cinemas, às feiras, não viajariam em excursão com os grupos, enfim, seria um período de enclausuramento jamais visto, por isso a preocupação com a ansiedade que isso poderia causar.

Tomada a decisão, vamos à ação, pensou ela. Hum, como distrair todos ao mesmo tempo?
Tem que ser de um jeito fácil, não trabalhoso, nem obrigatório… pensava ela. Já sei! Vou criar um projetinho e chamá-lo de “Um pouquinho de leveza” e colocá-lo na rede social, onde o grupo tinha acesso.

Dito e feito! Assim, ela fez e começou contando histórias de quando era criança, e morava em Jardim, uma cidade pequena do interior do Estado de Mato Grosso do Sul, Brasil, porque ela sabia que as histórias de crianças são sempre bem aceitas!

UM POUQUINHO DE LEVEZA

Quando eu era criança existiam as revistas de fotonovelas, em tamanho maior, preto e branco, com histórias de amor. E existia uma revista menor, mas não no tamanho das revistas de gibi de hoje, também em preto e branco, que eram de aventuras, lutas, heróis, terror e não de romances.

Lembrei-me disso, porque teve uma, em especial, que me apavorava. Eu a lia aos poucos, porque era “pesada” demais. Aquele gibi em preto e branco, com a história de uma planta que nascia e tomava tudo, a planta entrava pelas janelas e sufocava as pessoas que estavam em seu caminho, ela avançava implacavelmente e as pessoas corriam. Era um terror!

Lembro-me de que alguém, que virou o herói, pegou uma mangueira de água e apontou para a temida planta e pronto: achou-se a solução! Ela derretia ao contato da água! Meu coração acelerado de medo se acalmava e eu escondia a revista debaixo do colchão para esquecer o pavor!

Hoje, não assisto a filmes de terror e nem leio livros de ficção nessa linha. Eu me fragilizei.
Rememoro aqui, só para registrar a minha esperança infantil e atual de que surja uma solução heroica e que ponha fim a esse vírus que está assolando a humanidade. Tudo tem um final, e, de preferência, um final feliz! Eu Creio!

1.2. mas ao mesmo tempo, o inimigo estava avançando, as notícias eram aterrorizantes, não tinha havido trégua e isso era preocupante! Logo ela teria que ter outra estratégia para manter seu grupo protegido e tranquilo, pelo menos do ponto de vista de não se sentirem sozinhos e não se deixarem dominar pela ansiedade. E continuou suas histórias de quando era criança.

1.3. Um dia de medo…

Aos 9 ou 10 anos, na cidade de Jardim, teve um boato de fim de mundo. Seria tal dia. Apesar de todo o medo, ir correndo comprar vela que a mãe mandou (no escuro, o mundo não acabaria?), não sei, esse dia foi um tal de nos fecharmos em casa mais cedo, não teve o recreio de fim de tarde, quando sentávamos em frente de casa e tinha havia as brincadeiras, as implicâncias, ouvir as proezas dos irmãos maiores que podiam sair às ruas e as meninas, não, . era Era um pedacinho bom do dia antes de irmos para dentro comer e se nos recolhermos.

Nesse dia, o que eu queria era dormir logo, porque, provavelmente, se o mundo acabasse, eu amanheceria em outro lugar. Então que viesse logo a noite.

Pois bem, a noite acabou, o dia amanheceu e o mundo não acabou. Foi um medo de uma noite só!

Saudade de ser criança e ter um medo de uma noite só!
1.4. É hora de ter uma conversa com o grupo, pensa Dona Divina. Saber como estão, se estão obedecendo as às ordens, o que estão pensando, sentindo ou percebendo. Essa Dona Divina, no fundo, é uma “enxerida”, como se diz, mas no bom sentido, pois escrever para o grupo, olhar por eles, distraí-los faz mais bem a ela do que ao próprio grupo. Mas ela é assim, acredita em seus propósitos e, portanto, segue firme.

O inimigo COVID19, está se mostrando mais assustador do que todos pensavam, não há vacinas, não há remédios, parece que andamos em círculos e no escuro.

Dona Divina pensa que suas histórias de crianças já não têm graça e pensa em adotar um outro enfoque.

Ela reflete e constata que, apesar do medo, do perigo, do contágio, da pandemia, os dias passaram, as datas festivas chegaram: como a Páscoa, a maior representação mundial da fé Cristã, e o mundo viu uma cena jamais vista: o PAPA celebrando a Paixão e Ressurreição de Cristo para uma multidão de pessoas ausentes fisicamente da Praça São Pedro, em Roma, mas mais do que nunca, presentes nessa cerimônia , dentro de suas casas, com os olhos pregados na TV. Uma cena inimaginada e que jamais será esquecida!

Outra quinzena e agora temos o Dia 1° de maio – – Feriado Internacional que homenageia os Trabalhadores do Mundo todo. Um feriado que sempre trouxe manifestações políticas, reivindicações sindicais, reflexões sobre as condições de trabalho no mundo, e que também ficou em segundo plano, diante do avanço do inimigo, o vírus COVID-19.

As notícias da pandemia são alarmantes, Suécia, Itália, Espanha, Estados Unidos, Brasil, todos esses países lutando com essa pandemia inédita e perigosa!
Mas a vida continua, o calendário não para, e chega o domingo do Dia das Mães: aquele que é o domingo mais festivo do ano também sofreu as mutações que o vírus implantou na humanidade. Sendo assimDessa forma, o domingo passou rápido…, mas tenho certeza de que deixou sua marca nas pessoas, nas famílias e, acredito, firmemente, que na atmosfera.

Se o vírus se espalha, que dirá dirão as partículas de AMOR? Foi bonito de ver os entregadores tocando as campainhas para entregar flores, presentes, as vídeo videochamadas, as ligações de celular, as visitas de filhos, quando houve, foi de máscaras, todos, sem exceção, fazendo todo o necessário para preservar o símbolo de amor maior de que temos conhecimento: as Mães!

Nos grandes acontecimentos mundiais eram visíveis as mudanças, porque isso era notícia, as imprensas escritas e faladas nos traziam essas observações diariamente. Dona Divina pensou e se perguntou: Como estarão as relações pessoais do grupo? E, quando no grupo existe um casal? Como fica será esse convívio diuturno? Ficarão mais unidos? Se descobrirão dois desconhecidos morando na mesma casa? Não saberemos disso. Mas, com certeza, eles saberão! Quantos casais serão obrigados a ter intimidade no verdadeiro sentido da palavra, e não aquele convívio pacífico formal? Acredito que o vírus COVID-19 também trouxe de tabela uma nova forma do casal se relacionar.

Dona Divina questiona: e daí, Ada, como está o seu marido sem poder fazer suas caminhadas diárias? Deve estar nervoso, não? E Dona Ada responde: que nada, ele está é aproveitando para fazer o que gosta: o dia inteiro na internet tirando partituras de música e treinando as músicas no violão!

Dona Ada, por sua vez, é um tanto ansiosa e ver o marido sentado tirando partituras de música da internet e dedilhando no violão não é algo que a deixa mais calminha, sendo assim, ela está praticamente uma campeã em resolver problemas de lógica em suas revistas de passatempo, me conta ela!

Uma outraOutra descoberta foi a de que seus cachorrinhos, Bel e Belinha, são “quase gente”! Os animais de estimação estão mais do que nunca trazendo conforto nesse período de isolamento aos seus donos.

Dona Divina está surpresa de quantas descobertas seus amigos estão fazendo com esse período do “fica em casa”…

Parece até que tem têm pessoas que trabalharam muito, adquiriram suas casas, a decoraram conforme a onda do momento, mas verdadeiramente só a estão “vendo”, conhecendo e curtindo por causa desse período de isolamento social. O vírus trouxe uma nova forma de olhar a vida e isso é assustador! Ao mesmo tempo em que nos conecta com o mundo que é nossa casa, nos distancia das pessoas, das famílias, dos colegas de futebol, das amigas do trabalho, desconectam as crianças dos colegas e professores… É como se ele nos impessoalizasse perante os outros e nos pusesse em contato contínuo e bem de perto conosco e nossa própria casa, nosso modo de viver, quando não estamos desempenhando papéis. Há algo de sagrado e de terrível nisso, conclui Dona Divina com o rosto sério.

Mas logo se recompõe e trata de seu agir com o grupo, pois esse é seu “projeto atual”!

Então, ela vai mandar mensagens de estímulo, de otimismo e de esperança para seus amigos! É isso, pensa ela! E põe em prática seu plano!

2. OTIMISMO, FÉ, ESPERANÇA

2.1. Cuidados básicos

Não concordo quando dizem que os governos estão trabalhando e mostrando serviço só pela questão política.

Estamos num em um país continental, com muita desigualdade social e em épocas normais sempre houveram problemas de saúde e saneamento básico. O Brasil tem problemas de saúde e saneamento básico históricos e numa em uma situação de pandemia como a atual, que esse cenário caótico se revela, as pessoas moram em comunidades carentes, aglomeradas em barracos, sem o mínimo de condições de higiene e precisam ficar em isolamento. Como? Na questão pública, os hospitais não têm vagas nos leitos de UTI, não há respiradores artificiais suficientes, não há sequer equipamentos de segurança obrigatórios para os profissionais que estão enfrentando o vírus, em hospitais, ambulâncias, carros de bombeiros e afins.

Diante disso, Dona Divina crê e afirma ao seu grupo, que as providências e decretos que nossos governantes tomaram, tais como fechamento dos estabelecimentos comerciais, deixando apenas os considerados indispensáveis, a suspensão das aulas das escolas, ao cerceamento do ir e vir sem que fosse pelas necessidades essenciais, implante do toque de recolher, limitar os passes de ônibus aos idosos que saíam de suas casas, apenas para sentar-se às praças e ver o mundo, jogar conversa fora, como se diz, fez com que nossa cidade – – Campo Grande –- Mato Grosso do Sul – – Brasil esteja como a capital que melhor obteve sucesso no controle da pandemia em comparação com as demais capitais do Brasil, que estamos vendo nos noticiários .

O povo não coopera e depois culpa os políticos. Vocês acham isso certo? Tenham cuidado, lavem mais as mãos, usem álcool gel, usem máscaras, só saiam de casa se realmente for necessário!

Façam isso por mim, por você, por nós!

E ela insiste: amanhã todos sairemos disso com saúde!

Devemos ter o compromisso pessoal e social!

2.2. A vida requer coragem!

Como estão? pergunta Pergunta Dona Divina. E ela mesma responde: o que a vida quer da gente é coragem!

“A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa.

Continuemos esperando o dia do “afrouxa”.

Até lá, sigamos nos exercitando em coragem e fé. O início da pandemia mostrou que somos criativos, cordatos, do bem. As famílias se uniram, as crianças cooperaram, as mães e pais se desdobraram. Os empresários foram surpreendidos, o pequeno comerciante fechou suas portas achando que, até chegar as próximas contas, tudo voltaria ao normal.

Não passou… Ainda!

Então, aqui estamos nós, com muitas perguntas e expectativas nos estudos científicos, descoberta de remédios, vacinas e mais do que nunca com fé e com coragem animando-nos mutuamente.

Por favor, usem máscaras, lavem as mãos, limpem as áreas comuns com álcool! Vamos cooperar para que tudo passe o mais rápido possível e sem tantas vítimas.

A vida requer coragem, mas requer também consciência e cuidado com o outro!

A quarentena seria de 14 dias, diziam à época. Daí aumentaram para mais uns outros 14 dias, porque o pico seria dia tal. Logo vieram as discussões se era só uma gripezinha ou se seria algo mais grave. E os dias passando, as notícias ficando mais alarmantes, o pico já era indefinido e nisso hoje completa-sese completa trinta dias de isolamento. Na tarefa de contar histórias, Dona Divina foi da infância, ao passado recente, ao dia a dia, assunto é o que não lhe faltou! Ela é bem tagarela!

E não lhe falta mesmo. Tudo ela observa e reporta ao seu grupo, para que eles também reflitam e tirem suas próprias observações e conclusões. O que ela almeja é que seus amigos vejam os acontecimentos com um pouquinho de leveza… Sendo assimDesse modo, ela comenta com seus amigos que até o mundo da arte e do entretenimento está estão se adequando.

Vejam só, os artistas, principalmente cantores que estavam acostumados a se apresentar para milhões de pessoas, em espetáculos lindíssimos, com equipamentos potentes e equipe gigantesca, inauguraram uma nova forma de estar perto do seu público, agora literalmente cativo, pois estão dentro de suas casas e, no sentido de cooperar, trazendo um pouco de alegria e poesia, misturado a uma ação social de arrecadação de alimentos durante a apresentação, inaugurou-se a era das lives, que vem a ser a apresentação pessoal apenas do artista com um mínimo de infra estrutura de dentro de suas casas, transmitido pela internet e televisão, sendo assistido assistidas por milhões de pessoas também dentro de suas casas.

A live do maior cantor romântico brasileiro, ídolo de várias gerações, Roberto Carlos, mexeu com as emoções de todos os integrantes do grupo. Eles disseram entre si: Olhaolha, que comovente, um cantor também da terceira idade, considerado de alto risco em relação a ser contaminado pelo inimigo COVID-19 e se preocupando em nos dar um pouco de poesia e distração. Vejam vocês, como precisamos de exemplos e incentivos.

As discussões políticas, a carreata religiosa, a reabertura das igrejas, dos shoppings são reflexões e assuntos de todos.

Haja paciência e fé para passarmos essa fase!

Dona Divina conversa com um amigo, com outro, sente as aflições, os medos, nota que os dias passam, seus amigos foram tão valentes, cuidaram das tarefas dos filhos pequenos, fizeram sua própria comida, fizeram live, leram, rezaram, trabalharam no sistema Home Office, limparam suas casas, perceberam-se como famílias, como humanidade, acordaram para o fato da responsabilidade coletiva e social, houve uma reviravolta na forma como viviam e viam o mundo!

E agora? Ainda não há um agora, já se passou um mês e meio e estamos ainda no meio do redemoinho.

Dona Divina resolve então ouvir histórias. E aí vem sua terceira ação em prol do seu grupo, fazer com que todos abram suas mentes e corações e conversem entre si. Vaidade? Acabou! Riqueza? Indiferente! Soberba? De quê, para quê? Estamos todos juntos nessa!

Sendo aAssim, seus amigos do grupo abriram seus corações e contaram um pouco do que estavam vivendo. Ela então criou o filhote do seu projeto e o chamou de: Um ponto, um conto!

Vamos lá!

3. UM PONTO, UM CONTO…

Fabiana assiste a séries de TV e comprou vídeos de autoajuda. Muito bem, diz Dona Divina, que a conhece bem e sabe do que ela é capaz. Estudar é e sempre será um ótimo modo de “passar o tempo”.

A Odete dedicou-se ao crochê. E haja linhas e modelos para seu exercício diário! Ainda mais que ela vai ser avó e está incumbida de decorar o quarto da netinha! Está que é uma prosa só!

Outro amigo é poeta. Sua produção de poemas triplicou nesses dias de quarentena. E poemar é lindo, pensa Dona Divina, que não domina esse ofício, só sabe apreciá-lo.

Uma outraOutra foi rever seus irmãos, na casa que fora dos seus pais e deixou que a emoção tomasse conta desse encontro saudoso!

Ahhh, e tem também Dona Ana, que nos mostra o quão dura é a vida das pessoas que tem têm trabalho informal e como elas estão se virando nesses dias difíceis.

Quem não tem emprego fixo sofre mais ainda, pois não há o salário ao no fim do mês. Mas Dona Ana, tem uma costuraria, onde ela fazia pequenos consertos e de onde os clientes sumiram, de repente, com essa situação de ficar em casa, não abrir os comércios e outras medidas; então ela acabou por se reinventar! Aprendeu na Internet a fazer máscaras de tecido e com essa atividade tem comprado seu pão de cada dia.

Temos outra integrante do grupo que aproveitou os dias para realizar algo que Dona Divina adoraria fazer, lhe seria muito prazeroso, mas que ela não poderia fazer. Essa amiga está fazendo uma limpeza em livros!

Não! Não ia prestar! Se caso ela fosse limpar livros, a cada passada de pano para tirar a poeira, ela iria folhear umas duas ou três páginas, começaria a ler, perderia o foco, mergulharia nas histórias e narrativas…

Mas essa amiga é bem prática, ela certamente está diligentemente limpando a capa, a contracapa, vasculha as páginas para tirar o pó e empilha os livros limpos de um lado. E pega outro e outro. Acontece que não estamos em dias normais. Vamos nos apressar para quequê? Para ir onde? Para ter mais tempo e procurar mais coisas para fazer!

Sendo assimDesse modo, nesse “passeio” pelos livros, eis que ela se depara com um livro lindo, de capa laqueada de vermelho carmim, e ao pegá-lo vem à sua memória a figura saudosa de sua irmã!

Quantas lembranças, quantas saudades, há quanto tempo aquele livro esteve ali guardado com tanto carinho? Sim, era o livro de poesias de sua irmã e nossa amiga a relembra, sentada com o livro nas mãos passando os dedos levemente por aquela linda capa vermelha, tenta lembrar-se de que o mesmoeste deve ter sido um presente precioso! E os poemas? Quase audaciosos, quase eróticos, mas não, são ingênuos, lânguidos e delicados como eram as moças que liam poemas!

Que tempo bom, que saudade boa… umUm favo de mel nesses dias amargos. Com um suspiro, ela fecha o livro e conclui que a quarentena nos deu tempo para evocar pessoas queridas e épocas boas que não lembrávamos mais!

Graças a Deus, nada é por acaso!

Há também aquele amigo, que finalmente tem tempo de organizar suas fotos de viagens, foram tantas! Entre um natal Natal ou aniversário, nosso amigo conheceu o mundo, esteve em vários países e tirou muitas fotos. Só agora, ao arrumar pacientemente seus álbuns de viagem, ele percebe que muitas vezes apenas se preocupou em tirar fotos e não apreendeu o que de fato havia ali, a atmosfera do lugar, a candura das crianças em roupas de uniforme local e aos bandos, atravessando as ruas e cantando suas músicas de escolas, os idosos, que em qualquer parte do mundo saem para tomar o solzinho da manhã e respirar o ar puro, talvez agradecendo a Deus por mais um dia vivido.

Ao receber as lembranças de seus amigos e escrever sobre eles, Dona Divina percebe que essa pandemia veio para que a humanidade se reconectasse consigo mesma e com o seu mais profundo eu interior.

Mas nem tudo são flores, pois Dona Divina percebe que as mudanças não são só mudanças espirituais ou de comportamentos, a mudança atingiu a vida mesmo dos menos favorecidos, dos ambulantes, dos freelancers, para estes a vida ficou muito precária!

Mas, afinal, como estava a luta contra o inimigo? O que se sabia dele? Onde ele atacaria mais? Essas perguntas faziam parte do cotidiano do grupo e de todo o mundo. Sim, senhores, o inimigo está atacando o mundo todo, pois o vírus se propaga pelas partículas de aerossóis e a doença provocada pelo mesmopor estes atacam os pulmões, órgão vital do ser humano, por isso a grande mortalidade.

Os idosos e os que tem têm doenças preexistentes são o principal alvo do vírus, mas a partir do contato com alguém infectado, ele já se transmite, podendo ser sentido como apenas uma gripe, ou coriza, mas tendo o perigo terrível de contaminar todo seu grupo familiar ou pessoas com quem teve um mínimo de contato. Por isso, a insistência de que fiquemos em casa, usemos máscaras, lavemos bem as mãos com água e sabão, higienizemos maçanetas de portas, cabos de guarda-chuvas, alças de carrinhos de supermercado, botões de elevadores e assim por diante. Não é mais um viver distraído que devemos ter e sim um viver e olhar atento. Sem paranoias, mas atentos.

Sendo assimPortanto, não há vencidos nem vencedores em nossa história, o que há é a esperança na ciência, na descoberta de vacinas ou remédios que possam debelar o inimigo COVID19.

Quanto à Dona Divina, ela descobriu que seu grupo é muito especial, que todos estão se cuidando, que obedecem as às regras de isolamento e ou distanciamento social, que lavar bem as mãos com água e sabão ou usar álcool gel serão rotinas a serem incorporadas por todos e que, mais dia menos dia, todo esse período agora vivido será parte do passado.

Agora estão usando termos novos e ela não resiste e deixa um último recado a seus amigos do grupo:

ENTENDA A DIFERENÇA
LOCKDOWN QUARENTENA ISOLAMENTO
Bloqueio total, em que só é permitido sair para atividades essenciais. Restrição para quem pode ter sido exposto ao vírus, mas não tem sintomas. Separação de quem está doente de pessoas não infectadas.
DISTANCIAMENTO
Medidas para diminuir a interação e o contato entre as pessoas de uma comunidade. São exemplos: o fechamento de escolas e universidades, o cancelamento de eventos e o estímulo para que as pessoas fiquem em casa.

Essa Dona Divina!!!

Dona Divina sentiu que precisava fazer algo por ela e pelo seu grupo, para ajudá-los a superar esses dias de incertezas, porque muitos poderiam até adoecer de ansiedade.
Ela fechou os olhos e liberou a sua imaginação…
Quando os abriu estava sorrindo.
Lembrou-se de uma lenda, na qual uma jovem com sua beleza e inteligência, Sherazade, fascinou o rei ao narrar histórias fantásticas por mil e uma noites, poupou sua vida e ganhou o eterno amor do Rei
Shariar.

— Alô? Dalva? Achei um jeito da gente manter o grupo animado e em contato!
— É mesmo? Que bom, eu estava muito preocupada…você sabe, né, tem o Otto, a Dinah e a Neuza que moram sozinhos. E agora com o isolamento, eles vão ficar sem contato com ninguém.
Nao poderão sair! Nem à missa, ao cinema ou a lotérica, suas caminhadas de todos os dias.

— Sim, por isso mesmo eu pensei em fazermos alguma coisa juntos. Mesmo que de forma virtual.
— Mas o que é?
— Contar historias! Como quando éramos crianças: sem pressa, só ouvindo, tendo o prazer de imaginar.
— Que interessante. Gostei!
— Você me ajuda? Quero que todos tragam historias para o que vai ser
a nossa trincheira nesta luta.

E assim ela se organizou. Pegou um caderno, listou os amigos, criou um grupo virtual ao qual chamou de
Um Pouquinho de Leveza e fez um roteiro com datas e temas.

No dia seguinte iniciou-se a singela tarefa a que ela se propôs: trocar carinho e atenção, com seus amigos que estavam na mesma situação: isolados e ansiosos.

“Quando eu era criança existiam as revistas de fotonovelas, em tamanho maior, preto e branco, com histórias de amor. E existia uma revista menor, mas não no tamanho das revistas de gibi de hoje, também em preto e branco, que eram de aventuras, lutas, heróis, terror e não de romances.
Lembrei-me disso, porque teve uma, em especial, que me apavorava. Eu a lia aos poucos, porque era
“pesada” demais.
Aquele gibi em preto e branco, com a história de uma planta que nascia e tomava tudo, entrava pelas janelas e sufocava as pessoas que estavam em seu caminho…
Ela avançava implacavelmente e as pessoas corriam.
Era um terror!
Lembro-me de que alguém, que virou o herói, pegou uma mangueira de água e apontou para a temida planta e pronto: achou-se a solução!
Ela derretia ao contato da água! Meu coração acelerado de medo se acalmava e eu escondia a revista debaixo do colchão para esquecer o pavor!
— Sabem porque eu trouxe esta historia?
Pela esperança infantil e atual de que surja uma solução heroica para por fim a esse vírus que mudou a forma que vivemos.

Os amigos, cada um em sua casa aplaudiu e comentou a historia.

E ela necessitava ampliar seu horizonte. Não cabia mais ali.

Houve avanços na forma de atuação sobre a doença.
A realidade, embora ainda incerta, dava sinais de mudança.

Esse era o sonho daquela jovem. Ancorada por suas heroínas, esperançosa pelos desfechos das vidas que passavam ao folhear as paginas lidas, ela ousou sonhar.
Sonhava com o quê? A pergunta deveria ser: qual era a sua sede?

Ela passou do sonho ao querer. Com urgência, com o ímpeto de uma jovem mulher, agora mãe de quatro filhos, cuja sede de saber, se somava à de ser, de prosperar e se tornar a protagonista.
Perde-se os detalhes e a forma como tudo aconteceu

Saíram do interior.
Novos ares, nova vida.
Esperança.
E que estranha sensação!
Como se tivesse enfim encontrado o seu propósito de vida.

Uma estrada se descortinou…
E ela o percorreu com arrojo e perseverança; sem nunca perder o encanto pelas palavras, pelos livros, pelos porquês.

De onde agora ela nos conta as suas aventuras entremeadas com a grande pandemia que assolou a humanidade, em pleno século XXI

Quanto à pandemia, o propósito era encontrar a cura para tão terrível doença.
Isso ainda não aconteceu. Mas aprendeu-se a minimizar e conviver com a mesma.

Assim como ela, a garota que lia e hoje a senhora que escreve. Sempre em busca de um olhar.
Que pode ser novo…
Ou antigo

Publicado por mariaelzaescreve

Me autodenominei Divina, Perfeita e Maravilhosa. Não é por vaidade e sim porque acredito que foi assim que Deus nos criou: à sua imagem e semelhança. Mesmo que humanamente isso pareça impossível, ao expressar minha crença me sinto bem. Busco o melhor sempre. Tenho fases, sou de Libra e isso ajuda a explicar minhas qualidades e meus defeitos. Amo a vida, minha família, meus amigos. Sou Formada em Administração e Direito e estudiosa da escrita criativa. Sempre gostei de ler! Amo ler tanto os romances, como os contos, crônicas, documentários, biografias… Mas minha maior bagagem é de vida, pois ela é a matéria prima para o que escrevo. A vida, as pessoas e suas histórias me encantam. E esse encantamento se transforma em letras. Amo muito, preocupo-me muito, erro muito, e procuro muito acertar! Vou dividir com vcs um pouco da minha experiência de vida, neste espaço que considero meu "travesseiro virtual" e o convido a compartilhá-lo comigo. Venha?! Criei este blog em agosto de 2010 na plataforma blogspot. Posteriormente o trouxe para o WordPress . Desde 2024 estou escrevendo crônicas e vou disponibiliza-las aqui. No site https://.www.cronicascariocas.com.br procure por Maria Elza no Menu Autores, para ler meus contos e crônicas. Ah, deixe seu comentário, pois quero saber a sua opinião!

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