Nelson às Avessas
— A vaga? Sim, só um minutinho.
Logo chega um garotinho e entra no carro de Diana.
Ao volante, com o pisca-alerta ligado, o rapaz aguarda enquanto ela manobra e se afasta um pouco.
Ele agradece. Diana sorri, acena levemente e arranca. Não sem antes olhar pelo retrovisor.
O carro era bonito. E ele… perigosamente bonito.
Ah, pensa ela, o que é bonito é para ser olhado.
— Bom dia!
Diana pegava pão no balcão quando se virou.
Ele.
O rapaz do dia anterior. Na padaria.
No horário dela.
— Bom dia.
Parece que gostamos de pão fresquinho, não é? Ela sorri, mas não responde. Sai.
Desta vez, é ele quem vai até a porta e a observa sair. Há algo no ar, discreto, mas inequívoco. Diana percebe.
E gosta.
— Lídia, tudo bem?
— Tudo, amiga. E você?
— Lídia, me diz uma coisa…
Como você lida com o desejo!
— Matando!
— Não brinca. Estou estranha. Não sei se são os hormônios ou outra coisa. Estou numa tensão… ou tesão, sei lá. Estou por um triz de trair o Pedro.
— Sério?
— Sim. Um rapaz novo, lindo. Ele me olha de um jeito que eu chego a sentir as pernas cederem.
—Você? Aquela toda certinha? Lembro bem da Carmem… o quanto a condenou quando ela contou do mecânico.
— Pois é… por isso estou te ligando. Pra ver se você me devolve algum juízo. Parece que não sou mais eu. Meu corpo é só instinto, desejo, luxúria. E o pior… eu não me reconheço!
— E o Pedro?
— O Pedro é bom. Sempre foi. Mas é tudo tão previsível… aquele cuidado, aquela rotina. Até o desejo dele parece agendado.
Diana hesita um instante.
— Às vezes eu lembro das meninas da faculdade… aquelas teorias meio cruéis, meio bobas… que os mais certinhos não eram bons de cama.
— Eu ria disso. Hoje… já não sei.
— Cuidado, Diana… dizem que mulher muda o cheiro quando está assim. E homem percebe.
— O Pedro não percebe nada. Ele vive no mundo dele.
— Mesmo assim…
— Lídia… eu achei que já tinha morrido para esse tipo de coisa. E agora… estou mais viva do que nunca. Não sei o que fazer.
Dias depois liga para a amiga
— Deixa eu te contar…
— Saiu com ele!
—Não.
Passei dois dias de cama. Enxaqueca.
Pedro cancelou um compromisso, fez sopa, apagou as luzes do quarto e ficou sentado ao meu lado lendo em silêncio.
— Ah! Aquelas…
— Sim
— Mas e quanto a…
— Acabou
— Então Acabou?
— Assisti a filmes… eróticos.
— Uau!
Diana ficou alguns segundos em silêncio.
— Achei que fosse encontrar alguma resposta.
— Encontrou?
Ela sorriu.
— Encontrei
Então Lídia pergunta:
— Qual?
E Diana responde apenas:
— Que fantasia é muito melhor quando continua fantasia.
Não tinha encanto. Meu deu um vazio.
E achei o preço a pagar, alto demais.
— Amiga, o seu juízo voltou!
— Pois é.
Acho que eu tive uma rebeldia fora de época. Mas não sustentei a ideia.
Só conseguia me imaginar sendo mais uma história quebrada, mais um lar fingido.
O cuidado e carinho do Pedro foi fundamental nesse período. E foi tão reconfortante me sentir amada, sentir que sou o centro da minha família.
É isso amiga. Vida que segue.
— Ok. Vou desligar que estão me chamando aqui.
— Ta bom. Até mais. Bjs
Pega o carro e vai à padaria. Compra o pão, comenta com o atendente sobre o frio que se aproxima, olha algumas guloseimas, desiste.
Já na porta, por um instante, olha para a rua.
Suspira, entra no carro, e sai.
Maria Elza