A Vala

Nota da Autora

Este conto nasceu da confluência entre memória e imaginação. A cidade, a vala e seus habitantes não pretendem representar um lugar específico, mas um estado recorrente da experiência humana: o de crescer sentindo-se à margem, mesmo quando se está cercado de afetos e possibilidades.

Como toda narrativa que dialoga com o vivido, há ecos de realidade, mas também desvios conscientes, próprios da ficção. O que permanece é a tentativa de observar , sem julgamento, os caminhos íntimos pelos quais se constroem desejos, frustrações e descobertas.13/12/2021

A Vala

Marta tinha a impressão de que a cidade era dividida. Não apenas pela geografia, mas por algo mais difuso, que se insinuava nos gestos, nos olhares e nas conversas. Às vezes esse sentimento se impunha com força; em outras, apenas se deixava perceber, como um incômodo persistente.

Não era verdade que as pessoas permanecessem restritas a um lado só. A escola, o clube e a biblioteca ficavam à direita da vala que separava o tráfego urbano da estrada estadual, mas eram frequentados por jovens e adultos de toda a cidade. O mesmo acontecia com a feira livre, o hospital municipal, as lojas de ferragens e os armazéns à esquerda da vala. Também ali circulavam os carros novos dos rapazes mimados, indiferentes à divisão que, oficialmente, não existia.

Ainda assim, Marta sentia. Morava no lado considerado menos nobre, o lado pobre, e isso a acompanhava como um peso íntimo. Ao contrário do restante da família, não encontrava conforto no fato de viverem em casa própria. Dividia o espaço com muitos irmãos, o afeto dos pais e uma mesa que nem sempre era farta. O trabalho simples do pai, a ausência de automóvel, a inexistência de uma empregada doméstica, o café da manhã modesto. Tudo isso lhe parecia excessivamente visível.

Quando saíam juntos para a igreja ou para o clube nas tardes de domingo, Marta sempre encontrava um modo de sair depois, como se não pertencesse inteiramente àquele grupo. Se uma colega da rua ganhava um vestido novo, ela pedia a peça emprestada com a desculpa de mostrar o modelo à mãe e, antes mesmo que a dona a usasse, atravessava a cidade para se exibir entre as garotas do outro lado da vala. Fazia isso às escondidas das próprias amigas. Pequenas conquistas alheias, uma tiara nova, um caderno carregado por um menino, uma televisão recém-comprada… despertavam nela uma irritação silenciosa, que às vezes se transformava em comentários ásperos.

Nem por isso Marta era incapaz de alegria. Mas sua alegria era solitária. Nos livros da biblioteca da escola, encontrava outros mundos. Sentada no sofá de casa, lia romances e contos com atenção profunda; às vezes, o rosto se iluminava por um instante, como se participasse de um amor improvável entre heróis e mocinhas de vidas distantes da sua. Falava de praias de areia branca, de mansões à beira-mar, de jovens ao sol vivendo existências que só conhecia pelas páginas que virava.

A realidade, no entanto, se impunha. O fim dos estudos se aproximava, e com ele as perguntas sem resposta. O ano avançava, trazendo consigo ensaios, jantares, aulas da saudade, bailes de formatura. A cidade se movimentava: costureiras, bordadeiras e boleiras tinham trabalho dobrado.

Marta participaria como convidada. Mas como? Com que roupa? Em qual evento? Não admitia repetir vestido. Passava horas folheando revistas, comparando-se às colegas, recusando as tentativas da mãe, que sugeria reformar um vestido antigo ou comprar um tecido simples, de bom gosto. Nada parecia suficiente.

O pai observava em silêncio. Comia, levantava-se e ia ao alpendre tomar a fresca antes de retornar ao trabalho. Pensava, sem saber como alcançar a filha, que parecia medir a vida por parâmetros que ele não dominava.

Os dias passaram. Marta calou-se. Não lia, conversava pouco, via os dias como iguais e sem cor. O pai, inquieto, foi ao armarinho em busca de algum agrado — um enfeite, um brinco, um laço. Não encontrou nada que lhe parecesse adequado. Acabou escolhendo um livro. Era a única certeza que tinha.

Chegou o dia do baile. Os jovens iam de casa em casa, trocavam abraços, esqueciam de que lado da cidade moravam. Falavam do futuro: alguns seguiriam para a capital, outros para cidades maiores, sonhando com cursos disputados e vidas que os levariam para longe dali.

Foi numa dessas conversas que Marta ouviu a novidade: a criação do curso de Letras numa cidade vizinha, com transporte garantido pela prefeitura. Sentiu algo diferente! Uma ansiedade boa, um brilho súbito…

Contou ao pai ao chegar em casa.

Na noite da formatura, o salão estava cheio. A mestre de cerimônias abriu o evento e chamou ao palco a professora de Literatura. Houve aplausos, risos, silêncio atento. A professora falou sobre ciclos, sobre a força da educação, sobre o que se constrói quando se aprende a nomear o mundo.

Ao final, anunciou:

— Para encerrar, convidamos a aluna Marta Vasconcelos para declamar um trecho de Os Lusíadas.

Por um instante, o salão silenciou. Em seguida, as palmas cresceram, firmes.

No fundo do salão, junto a uma pilastra, o pai de Marta permaneceu imóvel. Apertava o livro que havia lhe dado dias antes. Uma lágrima escorreu sem pressa, enquanto o nome da filha ecoava entre vozes, luzes e passos de dança.

Maria Elza

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Publicado por mariaelzaescreve

Me autodenominei Divina, Perfeita e Maravilhosa. Não é por vaidade e sim porque acredito que foi assim que Deus nos criou: à sua imagem e semelhança. Mesmo que humanamente isso pareça impossível, ao expressar minha crença me sinto bem. Busco o melhor sempre. Tenho fases, sou de Libra e isso ajuda a explicar minhas qualidades e meus defeitos. Amo a vida, minha família, meus amigos. Sou Formada em Administração e Direito e estudiosa da escrita criativa. Sempre gostei de ler! Amo ler tanto os romances, como os contos, crônicas, documentários, biografias… Mas minha maior bagagem é de vida, pois ela é a matéria prima para o que escrevo. A vida, as pessoas e suas histórias me encantam. E esse encantamento se transforma em letras. Amo muito, preocupo-me muito, erro muito, e procuro muito acertar! Vou dividir com vcs um pouco da minha experiência de vida, neste espaço que considero meu "travesseiro virtual" e o convido a compartilhá-lo comigo. Venha?! Criei este blog em agosto de 2010 na plataforma blogspot. Posteriormente o trouxe para o WordPress . Desde 2024 estou escrevendo crônicas e vou disponibiliza-las aqui. No site https://.www.cronicascariocas.com.br procure por Maria Elza no Menu Autores, para ler meus contos e crônicas. Ah, deixe seu comentário, pois quero saber a sua opinião!

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