UTILIDADE e AMOR
Outro dia ouvi o Padre Fábio de Melo falar sobre a velhice. Entre tantas coisas, uma me abalou: a tendência humana de avaliar, ainda que inconscientemente, a utilidade das pessoas em nossa vida.
É duro pensar nisso.
Na juventude trabalhamos, resolvemos problemas, dirigimos, sustentamos, cuidamos. Somos necessários. Depois o corpo desacelera, a saúde enfraquece, a dependência chega aos poucos. E talvez venha justamente aí o maior medo da velhice: deixar de ser útil.
Mas o padre deu à reflexão uma delicadeza bonita. Disse que, quando a utilidade acabar, permanecerá aquilo que fomos capazes de semear.
Se demos amor, talvez recebamos cuidado.
Ele brincou dizendo que espera, já velhinho, ouvir alguém dizer:
— Coloquem o Padre Fábio para tomar sol!
E depois:
— Tirem o pobre velhinho do sol!
Ri da cena, mas logo pensei no meu pai.
Quisera ter tido mais tempo para colocá-lo e tirá-lo do sol.
Meu pai era minha segurança de vida. Acho que por isso nunca o enxerguei realmente como um homem velho. Não percebi o tempo passar. Algumas pessoas ocupam dentro de nós um lugar tão firme, tão protetor, que parecem escapar do envelhecimento.
Até o dia em que já não estão mais ali.
Talvez envelhecer seja isso também: esperar que alguém ainda ache importante nos proteger do excesso de sol, do frio da tarde, ou da solidão dos dias longos.
E eu também espero merecer isso.
Maria Elza🌷