A Vala

Nota da Autora Este conto nasceu da confluência entre memória e imaginação. A cidade, a vala e seus habitantes não pretendem representar um lugar específico, mas um estado recorrente da experiência humana: o de crescer sentindo-se à margem, mesmo quando se está cercado de afetos e possibilidades. Como toda narrativa que dialoga com o vivido,ContinuarContinuar lendo “A Vala”

O Café Já Esfriou

Sabe aquela música brasileira “Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí”, de Assis Valente? Fez sucesso com Carmem Miranda e depois com tantos outros. Se você a conhece, talvez imagine logo um tipo malandro, cheio de lábia e charme. Mas não era esse o homem que chegou. Douglas tinha boa aparência, vestia-se bem, demonstravaContinuarContinuar lendo “O Café Já Esfriou”

O Céu e o Inferno

(final infeliz) Conto de Maria Elza É setembro. Sara faz aniversário. Deveria estar em estado de graça. Ter nascido no primeiro mês da primavera sempre mexeu com suas emoções. Sentia-se festiva todos os dias dessa estação. — Sara, o que você quer como tema da sua festa? — Escolha você, mãe, só não se esqueçaContinuarContinuar lendo “O Céu e o Inferno”

No Lo Creo Em Brujas…

Óvnis, balões, luzes cortando o céu. Videntes em redes sociais, fazendo lives, marcando hora para podcast. Vivemos num mundo de alta tecnologia, e mesmo assim o sobrenatural ainda sobrevive… — No lo creo en brujas, pero que las hay, las hay — já dizia meu pai. Elas estavam longe do trabalho. Estrada de chão, foraContinuarContinuar lendo “No Lo Creo Em Brujas…”

Realidade x Fantasia

Ilustração por ChatGPT A história de um homem que lê romances nos leva a indagar: quais são os limites entre a realidade e a ficção? Sim, porque deve haver esse limite! João tem trabalho, esposa, filhos, contas a pagar, mãe a visitar, futebol aos sábados e todas as minudências que se entrelaçam e constroem oContinuarContinuar lendo “Realidade x Fantasia”

Após a Tempestade

Um raio seguido do ribombar de um trovão iluminou o entardecer por vários segundos. As frestas das janelas batiam, o vento zunia, a água da chuva caía forte jorrando com grande estardalhaço nas calhas de contenção, sobre a marquise do prédio. Paula acordou com o barulho do temporal. Custou a situar-se no tempo e noContinuarContinuar lendo “Após a Tempestade”

É a vida!

É a vida! 🗓️ Publicado originalmente em 10/03/2023 D. Neuza conta a sua história e dá risada. A Beth acompanha com os olhos e de vez em quando esboça um sorriso. É evidente em sua face a admiração que tem pela irmã. As outras mulheres que estão nessa roda são de idades iguais ou próximas aContinuarContinuar lendo “É a vida!”

Aquela noite

18/04/2023 A noite estava chegando e trouxe consigo um ar estranho. Nada era como sempre foi. Não íamos sentar em nosso banco para o recreio diário. Todos dentro de casa, jantar cedo e ir deitar. Como se houvesse algo oculto. — Mas já? — Sim. E quietinhos, sem uma conversa. Vou levar a lamparina. NãoContinuarContinuar lendo “Aquela noite”

Colcha de Retalhos

  Tantos eram os seus papéis! Esposa, mãe, sogra, nora, professora, chefe de família, amiga e mentora de todos ali daquele pedaço de mundo. Um povoado onde o desenvolvimento não chegara, a lida nas lavouras eram rudimentares, não haviam escolas e nem médicos ou hospitais. Onde a vida resumia-se em existir e seguir pelo nascerContinuarContinuar lendo “Colcha de Retalhos”

Pedido Negado

Diana recusou o pedido de casamento. O seu “não”  quase foi gritado, de tão firme. – Como ela teve coragem? – Lara fala baixinho. – Cara, ele saiu vermelho e com um jeito de quem estava prestes a chorar. – Não exagera, Paulo – diz Eduarda. – Será que ela marcou com ele aqui? NoContinuarContinuar lendo “Pedido Negado”

Meu Príncipe

(Conto baseado em uma cena do filme Uma Linda Mulher) Adriana, Lidia e Sonia são amigas inseparáveis. Desde a escola primária, vivem grudadas umas nas outras. – Adriana, pede pra sua mãe deixar você dormir sábado aqui em casa? — Mas e a Lídia?  — Ela já confirmou. A avó dela deixou. — Tá bom,ContinuarContinuar lendo “Meu Príncipe”

A Casa do BBB

Sonho em entrar no BBB. E já me inscrevi, fui entrevistada, a emissora local me deu apoio, fiz o vídeo. Achei que seria chamada. Mas não fui. Ainda! O BBB existe há 21 anos. Estou ficando velha. Desde os 30 anos eu quero ir. Sei o quanto eu ia ser muito querida pelos colegas eContinuarContinuar lendo “A Casa do BBB”

Traga o Mate

Linhas coloridas, brancas, carretéis com formato de cones.  Tesouras que faziam roc, roc ao deslizar nos tecidos mais encorpados, obedecendo o trajeto comandado por aquelas mãos já calejadas. No chão, caixas para juntar as arestas e retalhos, que ao fim do dia seriam separados para uso futuro ou descartados, como as bandeirolas  multicoloridas ao fimContinuarContinuar lendo “Traga o Mate”

Sonhos

As colinas faziam parte dos dois sonhos. Na verdade, não eram propriamente colinas. Havia longos trechos planos, algumas pedras ou rochas que formavam os aclives, e novamente a planície. O proprietário da primeira casa escolhera a parte plana ao fundo do terreno para construir o casarão. Sendo assim, havia uma alameda em suave relevo queContinuarContinuar lendo “Sonhos”

A Garota e Avó e as Estrelas

— Vovó, olha como o céu tem muitas estrelas hoje!— Oi?— O céu, vó! Tá cheinho de estrelas. Tô com medo!— Medo? Medo de quê, Anita?— Medo de você, ou a mamãe, ou o Pedrinho virar  estrela e ir morar no céu.— Anita, de onde você tirou isso?— Ah, vó, eu sei que quando asContinuarContinuar lendo “A Garota e Avó e as Estrelas”

Um Viva aos Dezessete!

Vinham todos juntos. Moravam para o mesmo lado e estudavam na mesma escola. O grupo era composto de oito adolescentes. Cidade do interior é assim. Vizinhos são colegas, amigos são vizinhos. Mãe é comadre de outra mãe, pais trabalham na mesma companhia, a vida é coletiva. Mas o grupo não era homogêneo. Havia os sub-grupos,ContinuarContinuar lendo “Um Viva aos Dezessete!”

Nelson às Avessas

— Oi, vai desocupar? — A vaga? Sim, só um minutinho. Logo chega um garotinho e entra no carro de Diana. O carro do rapaz estava com o pisca alerta ligado, ele afasta-se um pouco para que ela possa sair. Ela dá um tchauzinho e arranca com o carro. Não sem antes olhar pelo retrovisorContinuarContinuar lendo “Nelson às Avessas”

Medo

Luiz descia a rua assoviando. Mais uma quadra e meia chegaria em sua casa. O bairro era escuro, poucos postes de iluminação, o dia ainda no lusco-fusco do alvorecer. Ele era porteiro de um hospital e estava vindo de seu plantão noturno. Antes da esquina onde morava, Luiz passou em frente ao que fora umaContinuarContinuar lendo “Medo”

O Estrangeiro

Um estranho. Para as pessoas distraídas, apressadas, pensativas, envolvidas em seus pensamentos ou problemas, em que mudar a marcha do carro vem a ser um ato automático, o rapaz parado ali naquele cruzamento praticamente não existia ou era apenas isso: a figura de um estranho. Nem sequer era olhado pelo retrovisor ao ficar para trás.ContinuarContinuar lendo “O Estrangeiro”

O Casarão

O trem, aos poucos, foi diminuindo a marcha; o barulho das rodas de ferro misturava-se ao chiado dos freios… Adélia acordou as crianças, um menino de cinco anos e a garotinha de dois anos. Paulo, seu marido, pegou as malas, sacolas, e a bicicleta do vagão de carga. Quando o trem parou as pessoas desceram,ContinuarContinuar lendo “O Casarão”