(Baseado nas crônicas de Nelson Rodrigues)
No ônibus lotado ela vai enfiando o corpo nos menores espaços, dá licença, fala baixinho, não olha nos olhos, vai passando por uma senhora gorda com várias sacolas, por um garoto voltando mais cedo da escola, por moças, por rapazes, por velhos; troca a mão de lugar, consegue um vãozinho para pôr o pé, até chegar o mais próximo possível do lugar procurado e ali segurar na alça de apoio e parar. Não olha para as pessoas, mas também não vê o cenário que passa pela janela.
Ela sabe o horário, a linha de ônibus, e o lugar onde ele se acomoda, na curta viagem até o ponto onde ela vai descer.
Com isso faz as coincidências acontecerem.
Se sair de casa às três da tarde, o mercado não estará cheio, então ela fará suas compras, e na volta eles tomarão o mesmo ônibus.
Ele deve subir no início da trajetória, pois vem sentado.
As compras dela não podem ser maiores do que uma ou duas sacolas, senão corre o risco de alguém lhe oferecer o lugar e isso ela não quer. O que quer é ficar próxima dele, sentir o seu perfume misturado com o cheiro de suor do dia de trabalho, olhar aqueles cabelos jogados displicentes para o lado, a cor da sua pele em seus braços na parte visível da camisa branca arremangada.
Só isso basta. Parece pouco? Não é não! É um turbilhão, uma mistura de alegria, medo, tesão, e audácia. Ela nem cogita que ele saiba da sua existência. Não! Para não ser notada, não se arruma nem mais nem menos, é apenas uma passageira comum daquele coletivo. Se acaso ele a notasse, falasse com ela, aí tudo deixaria de ter sentido. Esse é um momento só dela, uma transgressão cultivada, com todos os pesos que têm: o desejo por um homem que não é o seu marido, a volúpia do sexo imaginado, o ouriçar da sua pele ao perfume dele impregnando seu cérebro, a languidez sentida pelo balanço da conducão e pelo roçar das suas pernas uma contra a outra, até chegar ao ponto de descida. Aí ela desce e retoma o seu papel. Na verdade, recupera a sua realidade, pois não sabe qual é a sua identidade.
Ao chegar em casa domina os afazeres da casa, tarefas das crianças, jantar, por os filhos para dormir, passar as camisas do marido, arrumar mochilas para o dia seguinte e finalmente tomar banho e poder se deitar. Quem sabe sonhar com o seu amor secreto. São apenas dois os momentos em que se permite divagar e viver os seus segredos, pecados e temores.
Um pedacinho da tarde e o deitar-se e aguardar o marido.
Muito pouco para o restante da vida e a sua realidade seca, amenizada por aquela fantasia.
O homem do ônibus.
