A frase acima vem sendo usada, não sei se por deboche ou pelo sentimento que alguém expressou, de encontrar felicidade, nas coisas cotidianas e simples da vida.
Um papel e uma caneta, o aplicativo de notas, a tela com o word.
A observação despretensiosa, um conto relido, uma cena ou dialogo interessante, um espanto, uma frase solta, enfim. Me sinto motivada a escrever, narrar, contar os fatos como a minha imaginação propõe.
A vida mostrada com diálogos que prendam o leitor, que o coloca como se fosse o protagonista, que o incomoda ou alegra, pode ser considerado simples. Mas não deve envergonhar o escritor, uma vez que ele nao se prenda a modismos, nem tenha a pretensão de fazer literatura esnobe e muitas vezes vazia.
A simplicidade não é um defeito, mas sim uma forma de narrar usando os instrumentos de que a escrita se utilizou e utiliza ao longo dos tempos.
O simples é lindo, e está sempre a nossa disposição, como um dia de domingo.
Sol quente, areia queimando os pés, algazarra, sucos, cervejas, caranguejos sendo quebrados e socados com um martelinho de madeira, num quase ritual pela busca da carne branca e rija dos crustáceos.
Na mesa, umas oito pessoas falavam e riam. Era uma família alegre, típica, que viera aproveitar um domingo à beira-mar.
“Queijo coalho!”, ouviam-se ao longe os gritos dos vendedores que caminhavam pela areia com fogareiros acesos, garrafinhas de melaço e saquinhos de orégano, levando a iguaria justamente onde sabiam reconhecer seus prováveis clientes. Onde há crianças, a venda é quase certa. Paravam, balançavam o fogareiro, as fagulhas se avivavam com o vento. Com destreza, giravam o palito entre os dedos e, num instante, o cheiro do queijo assado tomava conta daquele pedaço de praia.
“Olha o amendoim!”, gritava outro, passando a xicarazinha com três ou quatro amostras de amendoim torrado ou a castanha de caju, docinha de tão boa, servida num fundinho de copo plástico. Vai querer? O saquinho de papel pardo mudava de mãos, o garoto recebia o pagamento e seguia adiante.
“Olha o picolé!”, repetia mais um, aproximando-se e juntando a gurizada em volta do carrinho.
Além das guloseimas, surgiam vendedores de bijuterias, cangas, tatuagens de henna, camisetas e brinquedos que fariam sucesso apenas naquele verão, mas que, ali, eram tesouros indispensáveis.
Quase onze horas. Lá vinha o menino com o peixe vermelho cru, temperado e vistoso, oferecendo aqui e ali. O almoço desfilava entre os banhistas: “Num instantinho estará assado acompanha farofa e vinagrete. Tamanho? Dá para até seis pessoas. Se a madame quiser trazemos uma porção de batatas fritas enquanto o peixe fica pronto.” O garoto passava com a sua cantilena, na certeza que na volta a venda seria certa. Faro de vendedor…
O desfile de ofertas não tinha fim.
— Esse menino não passou aqui agorinha?
— perguntou a senhora à sobrinha.
— Não, não era esse. Aquele já foi, esse está vindo. Tia, quantas cervejas a senhora já tomou?
— Ah, mas é praia. E só uma vez ao ano — interveio o tio.
— Que é isso, menina? Me respeite!
Domingo na praia.
O mar em seu balanço constante, no ir e vir das ondas, ora chegando junto das pessoas, ora recolhendo-se à própria imensidão.
Parecia participar da festa, da comilança, da gritaria, da lambuzeira de óleo de bronzear, do gurizinho ranhento, da mocinha orgulhosa do biquíni novo, da senhora feliz com a cerveja na mão e a folga da cozinha, os pés afundados na areia fofa ao lado do marido, dos netos e da sobrinha.
E ele assistindo tudo. Alegrava-se com os garotos que plantavam bananeiras, com os rapazes que improvisavam um futebol, com os senhores que caminhavam carregando os tênis nas mãos. Naquele vai e vem paciente, era o astro do grande cenário que sustentava o espetáculo.
O domingo foi indo. Guarda-sóis se fecharam, cadeiras se dobraram, sacolas foram recolhidas até que não sobrou mais ninguém e o mar ficou sozinho.
A lua subiu no céu e prateou a imensidão da água, que tomou um tom de chumbo iluminado. As ondas murmuravam baixo, deixando trilhas de espuma branca sobre a areia ainda morna.
No vai e vem tranquilo, pareciam guardar ecos do dia. Um resto de riso espalhado no vento, passos descalços marcados e logo apagados, cheiro de queijo assado que já não estava ali.
O mar ali… Sereno.
Como quem sabe que amanhã haverá outra família, outras vozes, outro domingo inteiro para acontecer. Qualquer que seja o dia, estarão “Felizes no simples”
Maria Elza🌷
