
Mãos enregeladas, dedinhos roxos de frio, boca seca e gretada, olhos lacrimejando… Que frio!
O assovio do vento, misturado ao fungar dos narizes, soma-se ao barulho das vozes tagarelas dos valentes meninos e meninas que dobram a esquina correndo, apressados para terminar o percurso ao avistar a grande escola. Entram aos atropelos!
No inverno, a fila do pátio é dispensada. Cada um segue direto para sua sala e acomoda-se em seu lugar. Acalmado o burburinho, abrem-se os livros. Começa a aula e o tempo passa rápido, principalmente para os que venceram o caminho a pé, pois chegaram na energia do percurso.
Esses são a maioria. Mas há também os que chegam de carro, vestidos com casacos de náilon, toucas grossas e luvas coloridas. A escola é pública, mas tem prestígio. Imagine só: há alunos que sequer precisam fazer o ano extra preparatório para a admissão ao curso ginasial!
Nós pertencemos à classe baixa. Nossos casacos são de flanela; a mãe improvisa lenços na cabeça, ergue a gola das camisas e faz o melhor que pode dentro dos seus parcos recursos.
Mas o melhor mesmo é a hora do recreio! Seguimos em fila, da sala até o refeitório, onde a dona Ana já nos espera com os caldeirões fumegantes. É o lanche dos menos “favorecidos, os pobres mesmo. Leite em pó, bolachas, mingau de fubá de milho.
No recinto, noto a pilha de produtos, todos com o emblema do governo e de uma tal “LBV”. Curiosa, leio e descubro que as letras significam Legião da Boa Vontade. Sei lá o que é isso… A fila do lanche anda rápido. Recebeu seu quinhão? Pode sair para o corredor, onde bate o sol.
Isso tudo é passado. Mas que passado glorioso! Éramos muitos irmãos. Sabe o que isso significa? Nós, treze meninos e meninas, mais os primos, os vizinhos, os afilhados, todos indo à escola, por direcionamento dos pais, sem nenhum incentivo de bolsa isso ou aquilo, sendo alfabetizados, cumpridores de horários, respeitosos com professores e funcionários, tendo o estudo como a principal herança que nos prepararia para a vida! Havia dificuldades, com toda certeza, mas eu sempre escolhi e escolho ver o lado bom da vida!
Mas isso foi outro século. Outro tempo.
Hoje, os meninos vestem moletons de marca, aquecem-se com casacos térmicos, têm lancheiras recheadas e celulares caríssimos. Chegam de carro, ouvem música nos fones e fazem selfies antes de entrar na escola. Nada contra! São as conquistas e o conforto que os pais podem proporcionar.
Mas, às vezes, fico pensando: o que andamos perdendo no caminho?
Não sentir frio nos pés, não pode também tirar o calor do peito. É preciso que ensinemos o olhar curioso para o mundo, o prazer de um mingau fumegante, o respeito por quem ensina e o orgulho de fazer parte da fila dos esforçados. Os valores parecem fora de moda, como se fossem coisa de outro tempo. Mas eu sei, e você também deve saber, que foi neles que nos formamos: no respeito, na gratidão, na partilha.
Hoje, parece que as selfies valem mais do que o ato, o fato.
As conversas, as brincadeiras, as interações tanto entre si mesmas, como com a família deixaram de fazer parta da rotina. O automático virou trivial. As memórias afetivas foram substituídas por sensações virtuais
E talvez seja por isso que o inverno me leva de volta, lá onde o frio nos fazia mais humanos e a simplicidade era uma grande riqueza.
E aí? M’bora lá fazer um chocolate quente para a família?
Maria Elza
