(final infeliz)

É setembro. Sara faz aniversário. Deveria estar em estado de graça.
Ter nascido no primeiro mês da primavera sempre mexeu com suas emoções.
Sentia-se festiva todos os dias dessa estação.
— Sara, o que você quer como tema da sua festa?
— Escolha você, mãe, só não se esqueça das flores.
E houve festas cor de laranja, com maravilhosas gérberas, cujas pétalas pareciam desenhadas e recortadas por algum artista.
As hortênsias folhosas decoraram seus doze anos nos mais lindos tons de azul.
Aos quinze, flores amarelas: guirlandas de girassóis enfeitavam o terraço, e o sol, descendo no horizonte alaranjado, emoldurava o cenário cintilante e musical da festa de Sara.
Flores em vários tons de amarelo, talheres dourados, taças de cristal âmbar — a beleza do ambiente e a de Sara se completavam.
Ela, rodeada pelas amigas e pelos rapazes, num clima de alegria, flertes e descobertas.
Era uma trama ainda inocente e juvenil.
Aos dezoito anos, as rubras rosas colombianas teriam sido as estrelas da festa, se não fosse o esplendor de Sara, já desabrochada em uma linda mulher.
O ambiente parecia elétrico, como se ela tivesse adentrado um mundo denso, cheio de intrigas e paixões.
Havia um encanto novo no ar.
As amigas brindavam com champanhe, quando Eleonor, sua confidente, puxou-a pela mão:
— Sara, venha conhecer o Paulo. O mais novo morador do hotel do tio Leôncio.
Lembra que, desde a semana passada, estávamos esperando um hóspede? É o filho de um amigo do meu tio…
Um homem a olhava. Não um rapaz, como seus amigos e admiradores, jovens e bobos, como ela dizia.
Lembrou-se das conversas com as amigas: falavam de homens, de sexo, de paixões, de expectativas e curiosidades sobre o que ainda não viviam.
E, ao estender a mão ao desconhecido, sentiu que estava a um passo de mudar toda a sua vida.
A sensação era a de quem salta de um penhasco com os olhos vendados.
Eleonor se apressou em levar o convidado ao salão, antes que o “perdesse” para a amiga.
Sara, por sua vez, voltou ao grupo barulhento e festivo.
A banda mudou o ritmo, os pares se formaram, o salão mergulhou em meia-luz, e a aniversariante estava no centro.
Era o seu momento.
Carlos, seu primo, fora designado para a primeira dança, e os demais amigos se revezariam depois. Uma tradição que os pais ainda cultivavam para marcar a passagem das jovens à sociedade.
Enquanto rodopiava, ora com um, ora com outro, sentia os olhos de Paulo sobre si.
Um arrepio lhe desceu pelas espáduas.
A festa fora um sucesso, e repercutiu por dias.
Tudo parecia em ordem. Exceto pela “apatia pós-aniversário”, como Eleonor classificou a recusa de Sara em sair com o grupo.
Dez horas da manhã. Cabelos soltos, calça jeans, camisa branca.
Um leve blush nas faces, os lábios com batom rosa.
A campainha toca.
Quem está à porta?
Paulo.
— Sara, poderia me mostrar as plantações de rosas? Soube que pertencem à sua família.
Uma lassidão desconhecida a fez permanecer muda: uma mão na porta, a outra apertando ao peito o livro que lia.
— E então, vamos?
Esse foi o dia em que Sara foi ao céu.
E depois ao inferno.
O dia em que ela pediu que o tempo parasse.
Mas ele não a ouviu.
Seguiu seu trajeto inexorável.
Sem parar.
Sem voltar atrás.
Hoje é seu aniversário. Ela faz trinta e três anos.
Mas não haverá festa.
Tampouco haverá comemoração para o filho, André, que logo completará quinze anos.
O tempo das festas e flores ficou no passado.
Assim como a ilusão de Sara.
Maria Elza.
