Manual de Jogos

— Onde você vai, moleque?

— Veja como fala comigo!

— Vai querer apanhar?

— Ah é? E quem vai me bater?

Na calçada, os dois se encaravam como galos de rinha. Do outro lado do muro, Dona Adélia estendia roupas no varal. Ouvindo o tom da conversa, escancarou o portão:

— Quinzinho, o que tá acontecendo aí?

— Nada, mãe!

— Nada? Vocês estão prestes a se atracar e quer me convencer de que é “nada”? Já pra dentro! E você, Adolfo, vá pra sua casa. Ou quer que eu chame sua mãe?

Adolfo resmungou. Baixou a cabeça e chutou a areia enquanto descia a rua. “Lá vem a protetora de filho molenga salvar o Quinzinho”, pensou, com raiva.

No caminho, foi lembrando das brigas com o amigo. Valia ainda chamá-lo de amigo? Pegou um galhinho do chão e, feito espada, duelou com o ar. Avançou, recuou, e num golpe final encostou a “arma” no rosto do inimigo imaginário.

Ficou parado um instante. Depois suspirou e jogou o galho fora.

— Eu nunca machucaria o Quinzinho… nem de brincadeira.

Sorriu. Ele gostava do amigo e sabia que a raiva logo ia passar.

Podiam discutir, xingar, até sair no tapa. Mas eram “melhores amigos”

Com farpas, sim. Mas também com cola.

Naquele dia, o motivo da confusão tinha nome: bolinhas de gude. Se fosse época de figurinhas, seria por elas. Se fosse de pandorgas, seriam as pandorgas. Mas Adolfo tinha certeza de uma coisa: só perdeu porque o Quinzinho trapaceou.

O Manual

No dia seguinte, Quinzinho esperava o amigo para irem juntos à escola.

E de cara, retomou o assunto e foi direto ao ponto:

— Agora Adolfo, me diga: como é que se rouba num jogo de bolita?

Adolfo de cara feia, acusou, mas não explicou. Só repetia:

— Você roubou!

Quinzinho então puxou um livro da mochila.

— Escuta só. Peguei isso emprestado com o tio Roberto.

Leu em voz alta:

“O jogo de bolitas acontece quando dois jogadores se revezam tentando encaçapar suas bolinhas no buraco. Ganha quem fizer mais acertos. O jogo termina quando um dos dois fica sem bolinhas. Existem quatro variações, sendo a mais comum o duelo direto. É também a mais propensa a desconfianças e acusações.”

Fechou o livro.

— Qual era o nosso jogo? Vamos, fala!

— Duelo direto?

— Pois então! Roubo ou azar?

Adolfo ainda não entendia como tinha perdido, mas, ao ver Quinzinho todo solene, lendo um manual de regras, caiu na risada. Puxou o amigo pelo pescoço:

— Tá bom, vai. Eu me enganei.

E seguiram de pilhéria, até a escola.

Essa foi só uma das tantas confusões entre Adolfo e Quinzinho.

Já discutiram por cola, por namoro, por qualquer bobagem que a infância sabia inventar. Mas uma coisa eles aprenderam: não há manual que ensine a não brigar… nem a deixar de perdoar o melhor amigo.

Uma pena que agora não podem mais brigar e se perdoar. A vida os separou e hoje estão de lados opostos: um é bandido e o outro policial…

Maria Elza

Publicado por mariaelzaescreve

Me autodenominei Divina, Perfeita e Maravilhosa. Não é por vaidade e sim porque acredito que foi assim que Deus nos criou: à sua imagem e semelhança. Mesmo que humanamente isso pareça impossível, ao expressar minha crença me sinto bem. Busco o melhor sempre. Tenho fases, sou de Libra e isso ajuda a explicar minhas qualidades e meus defeitos. Amo a vida, minha família, meus amigos. Sou Formada em Administração e Direito e estudiosa da escrita criativa. Sempre gostei de ler! Amo ler tanto os romances, como os contos, crônicas, documentários, biografias… Mas minha maior bagagem é de vida, pois ela é a matéria prima para o que escrevo. A vida, as pessoas e suas histórias me encantam. E esse encantamento se transforma em letras. Amo muito, preocupo-me muito, erro muito, e procuro muito acertar! Vou dividir com vcs um pouco da minha experiência de vida, neste espaço que considero meu "travesseiro virtual" e o convido a compartilhá-lo comigo. Venha?! Criei este blog em agosto de 2010 na plataforma blogspot. Posteriormente o trouxe para o WordPress . Desde 2024 estou escrevendo crônicas e vou disponibiliza-las aqui. No site https://.www.cronicascariocas.com.br procure por Maria Elza no Menu Autores, para ler meus contos e crônicas. Ah, deixe seu comentário, pois quero saber a sua opinião!

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