As calçadas são cinzas.
Os muros também.
Opa! E as casas? Cinzas!
E “harmonizam-se” com a cor preta e outros tons da mesma cor…
Que moda é essa? Qual o guru da arquitetura moderna foi o precursor dessa escolha?
Sigo com o Google Maps aberto, como quem caminha sem saber o caminho, mesmo tendo um mapa na mão.
É um bairro novo, de classe média alta.
As casas, recentes, seguem o mesmo modelo arquitetônico: fachadas altas, linhas retas, vidro escuro, cimento aparente. A estética da segurança, do silêncio e da sobriedade. Tudo muito moderno. Tudo muito igual.
Não bastasse a surpresa da cor, há algo mais que me inquieta.
As janelas não se abrem. Não há som de crianças, nem cheiro de comida, nem sombra de varal. As ruas estão limpas. E totalmente vazias. O traço comum é o isolamento: portões que se erguem automaticamente, carros que entram e saem sem que se veja o rosto de quem os conduz.
Casas habitadas por presenças ausentes.
O cinza não está apenas nas paredes. Está também na atmosfera.
Olho para o alto, ufa! Que alívio ver o céu azul…Suspiro. Mas ainda sinto o espírito do lugar.
Há uma palidez existencial ali, como se a forma da moradia tivesse moldado o modo de viver.
E me pergunto: quando foi que morar deixou de ser habitar e passou a ser apenas isolar-se?
Quando foi que o abrigo virou trincheira?
Sei que tudo é moda. A cor da tinta, o estilo da fachada, a lógica do silêncio.
Mas temo que o hábito de fechar-se por fora acabe por selar também o lado de dentro. Que o desejo de proteção vire indiferença. Que o medo se disfarce de elegância.
Ainda assim, insisto em acreditar que nem tudo se apaga sob o concreto.
Que, de vez em quando, ao abrir o vidro para deixar escapar o calor do carro, alguém note o verde das plantas, o brilho do sol, o céu azul.
Que um canto de pássaro ainda provoque surpresa.
Que uma frase, uma música, uma lembrança rompam o lacre do hábito e façam vibrar algo bom no coração das pessoas que ali vivem.
Porque, no fundo, morar é mais que possuir um espaço.
É deixar-se afetar por ele.
E viver é mais que proteger-se do mundo: é permitir que o mundo nos atravesse, nos transforme, nos toque.
Mesmo que as paredes sejam cinzentas.
Ainda que a moda diga o contrário.
Maria Elza
