No Lo Creo Em Brujas…

Óvnis, balões, luzes cortando o céu. Videntes em redes sociais, fazendo lives, marcando hora para podcast. Vivemos num mundo de alta tecnologia, e mesmo assim o sobrenatural ainda sobrevive…

— No lo creo en brujas, pero que las hay, las hay — já dizia meu pai.

Elas estavam longe do trabalho. Estrada de chão, fora do perímetro urbano. Joana dirigia; Sara, ao seu lado, tagarelava sem parar. Não prestava atenção ao trânsito, nem ao rosto sisudo da amiga.

Joana reduziu o veículo e entrou com tudo numa rua lateral. O carro perdeu a estabilidade e rodou. Parecia ter vida própria. Ambas gritaram de susto. Joana segurou firme o volante, sem frear, até que pararam atravessadas no meio da rua, sobre um monte de areia.

Um menino sem camisa, pele queimada de sol, largou a enxada, subiu numa cerca de arame e gritou:

— Ei, ei! Não podiam ter ido pela areia! Tinham que seguir o trilheiro!

As duas desceram do carro, desoladas, observando os pneus afundados na areia.

— Vocês tinham que vir pelo chão batido. Na areia o carro roda. Não sabiam, não? — perguntou, rindo.

— Tá, mas e agora? Como vamos sair daqui, se estamos atravessadas no meio da rua?

— Pera aí, vou ajudar vocês.

Correu de volta para o lote onde carpia e trouxe dois pedaços de madeira.

Quase meio-dia. Sol a pino. Duas mulheres finas, enfatiotadas em roupas sociais, bolsas e saltos. Joana sentiu o rosto arder diante da figura ridícula que faziam, mas concentrou-se em ajudar o menino a encaixar as madeiras sob os pneus traseiros.

Ele garantiu que, ao dar ré sobre as tábuas, manobrar o carro e endireitar os pneus sobre a terra firme, tudo se resolveria.

A destreza com que explicava, somada aos apetrechos prontos para o improviso, pareceu muito costumeira ao garoto, pensou Joana.

Antes que completasse o raciocínio, ele emendou:

— Me dá uns trocados pela ajuda? Vocês estão indo lá na mãe Luzia, né?Então, não abandonem o chão batido. Na volta, saiam pelo lado direito. É só andar duas quadras, entrar na rua onde tem um borracheiro na esquina, mais três quadras, virar à esquerda e pronto: já estão no asfalto!

Boa sorte! E podem acreditar: ela é boa, mesmo!

Joana olhou para Sara e resmungou baixinho:

— Que guri intrometido… Só faltou dar as previsões! Como sabe que estamos indo à cartomante?

Sara apenas deu de ombros.

— Vamos. É isso que interessa.

Joana e Sara trabalhavam juntas, chefe e secretária. Mas, naquele momento, era Sara quem comandava.

Não eram íntimas antes da aventura em que estavam metidas. Tudo começou assim, sem mais nem menos:

Um suspiro desolado, um olhar atento, uma pergunta — e pronto. Joana estava em lágrimas, e Sara se tornara sua “protetora”.

Homens. Pois então… Era esse o motivo da inusitada cumplicidade entre as duas.

Joana, até onde Sara sabia, era muito bem casada e feliz. Pudera! Era bonita, chique, perfumada, e ainda por cima, chefe!

Sara era jovem, solteira, bonita e livre. Tinha um “enrosco”, como chamava o homem que há mais de dez anos aparecia e sumia quando bem entendia.

Pronto. Foi isso que as uniu.

Sara, cliente contumaz da tal cartomante para onde iam, achou que Joana deveria fazer uma “consulta”. Confidenciou quantas vezes mãe Luzia já a ajudara.

Se seu homem sumia por uns dias, ela ia logo à consulta. Vai que fora trocada por outra?

Uma suspeita, e lá ia Sara quebrar o encanto de quem ousasse disputar seu amado.

E, por garantia, levava champanhes, perfumes, sabonetes de luxo e outros mimos, que deixava aos pés da “sua pomba-gira.”

Tudo isso ela contou à Joana quando, com seu olho clínico, a observou certa manhã: grandes olheiras e suspiros contínuos.

— Joana, você está com encosto!

— O quê?

— Nunca ouviu falar? Encosto, mau-olhado, feitiço?

— Já ouvi… Mas não mexo com essas coisas.

— Aí é que está. Se não mexe, não se protege. Dá nisso!

— Nisso o quê?

— Vamos sair. Vem conversar comigo ali fora, perto das plantas, da natureza.

Joana não retrucou. Sentiu-se reconfortada por uma pessoa simples como Sara perceber seu estado e se dispor a ajudá-la.

De repente, estavam unidas. Em suas diferenças, surgira algo em comum, embora Joana continuasse reservada, sem se abrir como Sara fizera.

As inquietações de Joana eram de outra natureza. Limitou-se a dizer que passava por um período de reflexões e sensações desconexas, em seu casamento. Poderia alguém estranho lhe dar alguma resposta ou ajuda?

Sara, sambada nas rodas de mãe Luzia, logo a convenceu:

— Se bem não fizer, mal também não fará! Vamos!

Esse era o contexto em que se encontravam.

Chegaram.

Sara entrou primeiro e conversou com mãe Luzia. Esta saiu e recebeu Joana.

— Entre, Joana. Você é ainda mais bonita pessoalmente.

— Não entendi… — disse ela, constrangida.

— Sente-se, disse a mulher indicando a cadeira em frente. Joana sentou-se e a cartomante tomou o seu lugar à mesa. Sem jeito, passeou os olhos pelo altar na parede, com os orixás e elementos afins. Abaixo, cada uma em um lado da mesa. E esta repleta de copos com água, fotos, santos e velas acesas.

De repente, seu semblante mudou e Joana arregalou os olhos, espantada! No centro do mesa, um copo com água e uma vela acesa ladeavam uma foto emoldurada, onde ela e seu marido sorriam felizes…

No lo creo en brujas…

✒️ Assinatura

Maria Elza

Publicado por mariaelzaescreve

Me autodenominei Divina, Perfeita e Maravilhosa. Não é por vaidade e sim porque acredito que foi assim que Deus nos criou: à sua imagem e semelhança. Mesmo que humanamente isso pareça impossível, ao expressar minha crença me sinto bem. Busco o melhor sempre. Tenho fases, sou de Libra e isso ajuda a explicar minhas qualidades e meus defeitos. Amo a vida, minha família, meus amigos. Sou Formada em Administração e Direito e estudiosa da escrita criativa. Sempre gostei de ler! Amo ler tanto os romances, como os contos, crônicas, documentários, biografias… Mas minha maior bagagem é de vida, pois ela é a matéria prima para o que escrevo. A vida, as pessoas e suas histórias me encantam. E esse encantamento se transforma em letras. Amo muito, preocupo-me muito, erro muito, e procuro muito acertar! Vou dividir com vcs um pouco da minha experiência de vida, neste espaço que considero meu "travesseiro virtual" e o convido a compartilhá-lo comigo. Venha?! Criei este blog em agosto de 2010 na plataforma blogspot. Posteriormente o trouxe para o WordPress . Desde 2024 estou escrevendo crônicas e vou disponibiliza-las aqui. No site https://.www.cronicascariocas.com.br procure por Maria Elza no Menu Autores, para ler meus contos e crônicas. Ah, deixe seu comentário, pois quero saber a sua opinião!

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