
Neste site, onde publicamos crônicas, poemas, contos e reflexões, existe uma aba chamada Autores. Lá está a nossa descrição: quem somos, o que nos qualifica como escritores, nossa formação.
Enfim, um retrato resumido de cada um.
Tenho filhos, netos, família e amigos. Estudo. Publiquei livros de contos e crônicas, além da minha autobiografia. Tenho três graduações, fiz pós-graduação e posso afirmar: estudar foi e, ainda é parte importante de quem sou.
No entanto, minhas referências como autora em “nosso site” são as pautas que me inquietavam quando decidi me dedicar exclusivamente à escrita: envelhecer e parar de trabalhar.
Dois dilemas que me ocupavam a mente, provocavam reflexões e despertavam temores.
Águas passadas…
Aposentei-me entre os cinquenta e oito e os sessenta e seis anos.
Nesse intervalo, flertei com a leveza de não ter horários, com a liberdade de escapar da rigidez hierárquica, da dureza das opiniões e de tudo aquilo em que me transformara como funcionária pública.
Passei a ser uma estagiária sênior.
Gostei! E, quando cansei, deixei de vez a vida pública e me tornei aposentada.
Quanto ao envelhecer, só me dei conta quando troquei o batom vermelho pelo “cor de boca”; quando substituí os saltos pelos tênis, seja por conforto, seja por questões físicas.
Aos sessenta e nove anos, saudei a minha velhice com um poema. Fiz isso com galhardia, consciência e verdade.
Resolvidos, portanto, os dilemas da idade e do tempo ocioso, restava-me outra inquietação: quem seriam, agora, as minhas heroínas?
As heroínas!
Aquelas que, das páginas dos romances, nos forjaram, inspiraram, despertaram inveja ou compaixão.
Mulheres que nos fizeram pensar não só em nós mesmas, mas no mundo, nas relações, em nossos direitos…
Ou aquelas de quem apenas copiamos modelos de roupas ou frases de efeito.
As mocinhas destemidas, submissas ou valentes, lindas e amadas.
E também as que sofriam, ou faziam sofrer, a quem condenávamos ou aplaudíamos.
Também conhecemos personagens que, mesmo em sua feiúra ou pequenez, nos fascinaram a ponto de não conseguirmos abandonar a leitura antes do fim.
Mulheres descritas de forma nua e crua, com falhas humanas, como aquela que, ao perder a beleza e os prazeres da carne, passou a comer sem parar até se tornar obesa em Shangri-la, o Horizonte Perdido?
Ou a governanta cruel de Primo Basílio?
O que dizer de Madame Bovary, no misto de idealização romântica, insatisfação crônica e busca por relações insustentáveis?
Tudo mesmo já foi dito, escrito, lido?
Não haverá mais heroínas que possam me inspirar?
Ou será que elas continuam escondidas nas entrelinhas, aguardando que eu as descubra, como quem abre uma janela e deixa entrar um sopro de vento novo?
Quero ainda me surpreender, enternecer, admirar…
No meio da multidão, no silêncio dos asilos, nos cabelos brancos exaltados pelo modismo, eu busco, eu quero, eu preciso.
Onde estão minhas heroínas?
Maria Elza
