
Acordei…
Felícia se achegou, ronronando.
Olhei o visor do celular e apenas passei a mão nela, a minha gata, amiga e companheira.
Ela acordou… Mas, na dúvida se eu também dou minha noite por terminada, não faz nenhuma menção de se levantar. Mas isso é o que ela quer. Assim que eu colocar o pé no chão, ela já estará lá adiante…
Nem a olhei, mas sei.
É madrugada…não é hora dela comer.
Me acomodo e fecho os olhos… Se ela tem seus truques, eu também desenvolvi os meus.
A convivência, a rotina, fazem dessas coisas.
Eu e ela não brigamos, nem criamos traumas.
O que não é tão comum entre pessoas, ah não!
Como assim?
Ora, se não há conflitos, os experts em palestras, cursos, imersões e demais produtos para destravar “gatilhos”, curar a criança interior, ressignificar e todas essas maravilhas… não sobreviveriam!
A rede social nos acena com tudo de que precisamos para viver bem.
Se não estivermos “alinhados”, a solução está aí, ao nosso alcance. Em suaves, ou nem tanto, parcelas mensais.
Pelo volume de terapias, cursos e tratamentos alardeados, os humanos, já deveriam estar a um passo da perfeição.
É inadmissível que nós, pessoas esclarecidas e atualizadas com as inúmeras soluções disponíveis, ainda não estejamos “terapeutizados” e vivendo prósperos e felizes! E dormindo bem…
Mas o que Felícia tem a ver com isso?
Nada. E tudo.
A sua postura nobre, o olhar de esfinge, o desdém ao ver que me aconcheguei de volta aos lençóis… tudo me mostra que a serenidade é um luxo.
É madrugada.
“Não nos levantaremos ainda”, penso, suspirando.
Ela apenas abaixa a carinha nos lençóis e fica com os olhos semiabertos.
Serena. “Quem está com insônia não sou eu” é o seu recado.
Resolvi aproveitar o tempo e procurei alguma leitura interessante no celular.
Lixo.
Anúncios de coachs, vendedores de pós (não me entendam mal!) e chás para reumatismos, gastrites, quedas de cabelo, impotência; e o que mais você precisar. Lixo…
Mais uma vez, olho a hora no mostrador do celular.
Ela avançou, mas o sono não retornou…
Continuo a me ocupar no infinito mundo virtual, até que chego ao Threads…
Não. Não posso chegar ao fundo do poço.
Felícia? Plácida e serena, dorme.
Não é ela que tem insônia. Ela não tem truques.
Ela não é humana…
Cubro a cabeça e retomo o velho e eficiente conselho dos meus avós:
Contar carneirinhos.
Felícia dorme…
Maria Elza.
