Rio de Janeiro

Crônica de Maria Elza
Quando menina, sonhava em conhecer o mundo.
Ao olhar o horizonte, sentia vontade de alcançar o que houvesse atrás daquela linha: um país, um planeta, um destino onde eu colocara minha alma e os sonhos de felicidade. Muitas vezes atravessei, em pensamento, as fronteiras das minhas próprias fantasias.
Até que, afinal, tive a oportunidade de ir ao encontro do que entendia ser “a linha do horizonte.”
Eu tinha 28 anos, uma jovem mãe de quatro filhos, cujos sonhos nada tinham a ver com a realidade. Mas, por um feliz acaso, pude viajar pela primeira vez, deixando para trás as parcas luzes da cidadezinha onde nasci e cresci. Primeira viagem de avião, coração cheio de expectativas. Meu destino: Rio de Janeiro.
E conhecer o novo, pelas mãos do meu primo João, tornou tudo mais leve e precioso. Gostei de imediato do codinome: Cidade Maravilhosa.
Os arranha-céus, viadutos, estátuas, o trânsito… tudo era inusitado, extravagante. Histórias surpreendentes, fatos inacreditáveis! O riso partilhado, o arregalar de olhos. Ah, meu guia… ninguém jamais ocupou o seu lugar! Com quem mais somos iguais, senão com os nossos iguais?
Visitamos o Museu do Catete, entrando pelo pátio dos fundos, passamos pela garagem de carruagens e desembocamos no frenesi de uma grande avenida. O antigo e o novo, lado a lado: encantador!
Outro episódio inesquecível foi o almoço na casa de uma pessoa à qual se referiam com deferência.
Uma senhora distinta, da qual sempre diziam: “É a madrinha do seu marido”, como se me lembrassem: comporte-se à altura.
Chegamos perto do meio-dia, eu e João. Nenhum sinal de correria na cozinha, nada da algazarra alegre que sempre marcou os encontros de domingo na minha família do interior, onde a mesa é farta e variada. A conversa girava em torno do trânsito, do tempo, das novidades da metrópole. Eu, como esposa do afilhado, sentia-me importante: era a visita.
Até que a anfitriã disse com naturalidade:
— Vou preparar uma massa para nós.
Seguimos com ela até a cozinha, dispostos a ajudar. A cena me deixou intrigada: panela de água no fogo, uma lata de molho retirada do armário, abridor entregue ao meu primo, toalha de mesa nas minhas mãos. Em pouco tempo, o almoço estava servido: uma travessa de raviólis pré-cozidos, cobertos com molho pronto, acompanhados de torradas.
Guardei aquela experiência como uma lição: almoço de domingo, para mim, só o da minha grande família.
Ainda nessa viagem, tive meu primeiro contato com o mar. Toquei a água com a ponta dos dedos e os levei à boca, só para confirmar se era mesmo salgada.
João, cheio de sonhos como eu, ensaiava uma peça de teatro. Ao pôr do sol, com o oceano ao fundo, sentou-se aos pés de um monumento e recitou o monólogo de sua estreia.
Foi indescritível!
Eu, uma jovem curiosa diante do mundo, entendi ali que vivia o sonho mais incrível da garota que fui.
E mesmo que décadas tenham se passado, a sensação e a emoção da minha primeira viagem permanecem as mesmas.
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Maria Elza
