
Um raio seguido do ribombar de um trovão iluminou o entardecer por vários segundos. As frestas das janelas batiam, o vento zunia, a água da chuva caía forte jorrando com grande estardalhaço nas calhas de contenção, sobre a marquise do prédio.
Paula acordou com o barulho do temporal. Custou a situar-se no tempo e no espaço. Celular sem bateria, o dia indo embora. Como assim? Era entardecer quando aconteceu tudo e agora noite ainda?
Ela saiu do quarto e ficou olhando para a chuva pela janela da sala, absorta em seus pensamentos.
Como um autômato olhava sem ver.
Abriu a geladeira, pegou um refrigerante, sentou-se e olhou de verdade, para a chuva que caía.
Que ainda cai”, ela murmura. Sorveu lentamente o líquido marrom do copo e fez uma analogia: “escuro como eu”.
Sentiu frio, ergueu os pés na cadeira e enrolou-se em seu roupão, a cabeça enterrada entre os joelhos. Uma imagem desoladora.
Uma mulher, uma cozinha fria, sem panelas ao fogo, nem um café fumegante, menos ainda, um gato ronronando.
Olhou o copo vazio, percebeu que não faria diferença se tivesse tomado água…
Continuava desconcertada, enrolada em si mesma, sem saber o que fazer. Paula nunca se sentiu tão só. Para quem ligar, como enfrentar o que houve?
Os braços em volta das pernas, deitou a cabeça e rememorou tudo.
Estava escurecendo, talvez fosse dezoito horas. O movimento da rua molhada, não estava tão característico, como era em todos os dias em que deixava o prédio.
Era sexta-feira e ela saiu mais cedo do seu escritório. Havia deixado o carro rente à calçada, já com o objetivo de pegar menos trânsito. Entrou rapidamente em seu automóvel, e ao manobrar a marcha a ré sentiu que bateu em algo. Não foi uma batida tão forte, mas ouviu o barulho de alguma coisa cair.
Olhou pelo retrovisor, uma roda de bicicleta rodava e rodava no ar.
Pisou fundo no acelerador e se afastou do local, espiando amedrontada para os lados.
Nunca imaginou fugir de um acidente. Mas o pavor gelou seu sangue e ela saiu rapidamente imaginando as manchetes: “Advogada atropela e mata ciclista”.
Dirigiu por algumas quadras, entrou em uma ruazinha sem movimento, e encostou o carro, sem desligar. Respirou e inspirou o ar até diminuir as batidas do seu coração. Enxugou as mãos em seu casaco. Gotas de suor brotavam de sua fronte, apesar do ar condicionado do carro ligado.
Minutos depois retomou seu caminho, em lágrimas, mal enxergando as luzes das ruas ; em sua cabeça ecoavam vozes acusadoras. Por que não parou o carro e foi ver o que aconteceu? Teria sido uma bicicleta estacionada na calçada? E se o baque que ouviu foi de um corpo? E se a pessoa morreu?
Chegou em seu prédio, entrou e olhou o seu jeep. Mal se percebia um arranhão, com pequeno descascado na lataria. Ela o estacionou ao contrário, com a traseira para a parede e subiu rapidamente.
Tomou um banho, engoliu dois comprimidos para dormir e caiu em sua cama.
E agora, 24 horas depois, ela se dá conta de tudo o que aconteceu
Sentada em sua cozinha, frente a frente com o acontecido, sem saber que atitude tomar e quais seriam as consequências.
Toca a campainha. Paula estremece. Pensa em fugir, sair pela porta dos fundos, descer as escadas de incêndio do prédio, esgueirar-se pelos vãos de encanamentos de água e gás e fugir, fugir!
No entanto, sabe que não fará isso. Ela suspira e mesmo sentindo temor do que virá, o medo impregnado em cada fibra e músculo do seu corpo, resignada, ela vai até a sala abrir a porta.
No vão da porta, de short de ciclista, capacete oval na cabeça, camiseta manga comprida colada ao corpo, luvas cobrindo o dorso da mão, um rapaz desconhecido.
— Oi! — Paula, não é? Ela faz um sinal afirmativo com a cabeça.
— Sou o Gustavo, seu vizinho.
— Paula abre a boca, mas não sai nem um som.
— Gustavo sorri e pergunta — Posso entrar?
— Entra, por favor.
Ficaram ali, um olhando para o outro, em pé no meio da sala.
— Então, Paula. Desculpa, deixa eu me apresentar: sou a “empresa” que está mobiliando a sala 105, e já sei que você é a Dra Paula, advogada da sala 108, portanto, breve seremos vizinhos de escritório. É um prazer conhece-la.
— Prazer, ela diz estendendo a mão, no rosto uma expressão confusa e de temor.
— Vim pelo acontecido ontem.
— Ontem?
— Sim. Quando você derrubou a minha bicicleta naquele temporal.
— Eu, eu…Paula gagueja…
— Peguei seu endereço com o porteiro que me ajudou. Como vê, já estou pedalando de novo. Isto é, estava ate que a chuva engrossou. Precisava te dizer que não houve nenhum grande estrago.
Paula tenta se desculpar, a fala sem nexo, mas o rapaz se adianta e sorrindo diz: devo te confessar que eu não devia ter deixado minha bike em local proibido. Além de ser sinalizado!
Então estamos quites, ok?
O suspiro dela foi muito expressivo. Alívio, vergonha, todo o stress. Caiu em choro. Gustavo percebeu o estado dela, pegou em sua mão e a conduziu ao sofá. Alguns segundos e ela se recompôs. Ele a olhava, penalizado. Sem saber o que fazer ou falar, olhou para a cozinha e apontou para a garrafa de café.
— Posso?
— Hoje não fiz café.
— Deixa que eu faço. É meu pedido de desculpas, pelo acontecido.
Paula abriu mais a cortina da sala, a chuva havia parado e como por encanto, um restinho de claridade do dia iluminou o ambiente.
Ambos olharam para a sacada onde o último raio do sol sumiu no horizonte.
Sorriram e foram para a cozinha fazer o café.
Maria Elza
