Tantos eram os seus papéis! Esposa, mãe, sogra, nora, professora, chefe de família, amiga e mentora de todos ali daquele pedaço de mundo.
Um povoado onde o desenvolvimento não chegara, a lida nas lavouras eram rudimentares, não haviam escolas e nem médicos ou hospitais. Onde a vida resumia-se em existir e seguir pelo nascer e por do sol. Ali ela assumia o papel de destaque, fruto de seu senso de responsabilidade, mais sabedoria intuitiva e espírito de observação.
Perguntas simples ou complexas eram a ela que levavam. Sua autoridade moral era inquestionável.
Mais uma palhoça para a nova família que se formava… Onde, de qual lado colocar a porta? Amanhã, quando o sol nascer…
Cedo, lá está ela, explicando porque a entrada da “casa” seria daquele lado. — Onde o sol nasce? Então marque aqui e levantem as paredes com a porta de entrada. Para que pegue o sol da manhã.
A esposa não quer lavar a roupa do marido?
Diga a Leonora que a estou chamando. Vinha a mulher e depois de chegar da lida viria o marido. Chegavam acanhados ou envergonhados ao chamado da “senhora”.
Ninguém sabia como e o quê acontecia nessas ocasiões a cada um dos cônjuges. Mas todos sabiam que o problema fora resolvido, pois nos dias seguintes ouviam- se os risos do casal harmonizado. A chama do sexo fora reacendido, com as palavras certas ditas por ela ao marido e à mulher.
Criança teimosa? Adolescente preguiçoso? Mulher brigando com sogra, marido não respeitando os dias férteis da esposa já cheia de filhos? Ela era a grande mãe daquela comunidade. Ensinava as mulheres jovens a cozinhar, admoestava as idosas para não fomentar discórdia com as noras.
Dava aulas de asseio para meninas na puberdade, mandava ensinar a profissão eterna naquele lugar aos meninos. Arar, plantar, conhecer sementes, manejar a terra.
Se percebesse dois rapazes olhando para a mesma moça, o seu papel era sondar para qual deveria direcionar a donzela e formalizar o compromisso. Determinado dia, haveria na capelinha do local os casamentos comunitários.
Em seu papel de esposa do proprietário e patrão ela cumpria com maestria o que era esperado. O seu casamento fora combinado como de costume. Mas a diferença entre ela e o marido era abissal. Sendo assim, ela teve os quatro filhos homens e seguia ainda cumprindo com o papel de mulher sem jamais ter amado seu marido. Este, por sua vez, tinha um apetite voraz por ela. A enchia de perguntas depois do coito., Nao bastasse despir-lhe o corpo, queria desnudar sua alma. Jamais conseguiu.
— Que há no mundo além deste vilarejo? – Ela se perguntava, olhando o horizonte nos seus momentos de descanso, entre o entardecer e a noite,
Logo sua mente voltava para as questões práticas.
– Quando virá algum presbítero para substituir D. Gregório?
– Estamos há seis meses sem uma celebração profunda. Não devemos deixar as pessoas sem o alimento da alma, refletia. Assumia mais essa função, pois mandava limpar a capela, tocar o sino aos domingos e ela mesma fazer uma leitura da Palavra e ao seu modo a transmitir a todos os que moravam em suas terras.
Mesmo com tantos afazeres ela sentia falta de uma conversa mais profunda, queria ter com quem trocar idéias e não apenas falar, administrar, corrigir.
Ela era visitada. As mulheres simples da comunidade vinham lhe pedir conselhos, trazer queixas…E por sua vez, a “Senhora” não tinha onde ir. Existia como um abismo respeitoso em relação a sua pessoa.
Mulheres riam em seus afazeres, andavam em duplas, a vida apesar do inverno, das dificuldades, de tudo que levavam ao seu conhecimento naquela relação de subalternas, não as faziam tristes ou desanimadas.
Ela sentia ser diferente.
Sua sede não era de água. Sua sede era do tamanho do mundo, do que havia no mundo. Os anos passando e só um objetivo traçado. Quando completasse 40 anos, procuraria uma boa moça para tomar como a segunda esposa de seu marido. Eram os costumes. E ultimamente vivia para alcançar esse dia.
No íntimo, não suportava mais viver, se conformar e apenas sonhar com um mundo que não era aquele.
Sentia que deveria fazer melhorias para os colonos, sonhava em se aprofundar em leituras, aprender técnicas novas de irrigação, conseguir métodos mais modernos de cuidar da terra.
Quanto a si mesma esperava pelo dia que seu corpo descansaria daquela submissão carnal ao casamento.
E nem lhe passava pela cabeça que talvez o seu vazio não fosse de livros, e sim a falta do amor, da paixão, de sentimentos não conhecidos por ela, mas intuídos.
Todas as mulheres do mundo têm um pouco dela dentro de si.
Ou não são amadas como sentem que é o amor ou têm responsabilidades acima de suas forças em manter o casamento, a família.
Ou obedecem ou são julgadas. O que fazer? Falar. Escrever. Sonhar. A cada dia as suas aflições, diz a Palavra.
A mulher tem em si vários universos. É como uma colcha de retalhos. Uma linda, amorosa e colorida colcha de retalhos!
