Vinham todos juntos. Moravam para o mesmo lado e estudavam na mesma escola. O grupo era composto de oito adolescentes. Cidade do interior é assim. Vizinhos são colegas, amigos são vizinhos. Mãe é comadre de outra mãe, pais trabalham na mesma companhia, a vida é coletiva.
Mas o grupo não era homogêneo. Havia os sub-grupos, ou duplas, trios, cujas afinidades eram particulares, dentro do todo.
Exceto João. Ele era unanimidade. Pertencia ao grupo. Era requisitado e bem relacionado com cada um dos colegas.
Até o dia que o João se descobriu ciumento da Ana. Assim, do nada, ele fechava a cara quando a Ana ficava em dupla com o Antonio, conversando animadamente ou rindo com ele.
Pedro chegou ao lado dele e perguntou: O que foi?
João gesticulava, passava a mão no rosto, fazia sinais repetidos mostrando que era todo dia, todo dia.
Pedro pediu calma a João. Chegaram à escola e cada um entrou em sua sala de aula. No recreio poderiam ficar juntos ou não.
Ao termino da tarde, eles desciam todos para o mesmo lado da cidade.
Sabedor que seria dessa forma, Pedro aproveitou o intervalo para continuar a sós a conversa com João.
Este estava isolado no pátio da escola, caminhando e chutando as pedrinhas que separavam os canteiros da calçada. Cabisbaixo, andava e chutava, como se falasse sozinho.
Pedro chegou ao seu lado e começou a falar, logo indagando de João
— Está com ciúmes de Antonio?
— Mas por quê? Alguma vez Ana te deu a entender alguma coisa que não fosse amizade?
— Ou vocês já tiveram algo? Fez sinal com os polegares em formato de coração.
Levou as mãos à boca e beijou o dorso. Abaixou-se e rabiscou com os dedos na terra. Levantou e raivoso jogou a pedrinha que pegara no chão.
Pedro parecia querer tirar uma resposta de João a qualquer custo e se demonstrava furioso e com pressa em saber.
A inflexão da sua voz, a urgência das perguntas, a sua falta de sutileza, a sua maneira de falar, tudo não condizia com o que poderia ser um apoio a João.
Estranha essa posição de Pedro. Como se o acontecido tivesse passado por cima da sua autoridade. Mas que autoridade? Sobre Ana ou sobre João?
Ou haveria outros pequenos poderes entre os integrantes do grupo e estes haviam sido violados?
Aquele era o ultimo ano do segundo grau. Logo o ano letivo acabaria e o grupo se desfaria.
E foi o que aconteceu. Anos de convívio, sonhos, camaradagem ficaram para trás no tempo e no espaço.
Tornou-se uma lenda um quase namoro entre Antonio e Ana.
Ou Entre Ana e João.
Faziam também especulações se Pedro tivera um interesse em João.
Eram tantas as possibilidades!
Jovens!
O amor, os pensamentos, a doçura e a poesia do amor misturados com a juventude e a inocência.
Quando os sentimentos são mais importantes de tudo que é dito ou não dito!
Como diz o poema de Violeta Parra
Viver a los dezessiete
Lo que puede el sentimiento
No lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder
Ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia el momento
Cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente
De rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia
Nos vuelve tan inocentes!
Maria Elza
