Um estranho. Para as pessoas distraídas, apressadas, pensativas, envolvidas em seus pensamentos ou problemas, em que mudar a marcha do carro vem a ser um ato automático, o rapaz parado ali naquele cruzamento praticamente não existia ou era apenas isso: a figura de um estranho.
Nem sequer era olhado pelo retrovisor ao ficar para trás. Em vez de empatia despertava irritação, talvez…
Um ninguém.
Gabriela é o nome da garota que passa todos os dias naquela esquina e o viu ao olhar para ele. E teve curiosidade em saber porquê, quem, desde quando, o rapaz vive nessa situação de mendigar uma moeda, um trocado. Ela criou um enredo e dia após complementava a história imaginada sobre o estranho.
Como ele era? Um rapaz banal. Nem alto nem baixo, moreno, jovem, cabelos pretos, roupas bem usadas, tipo de dias de uso. E um cartaz nas mãos onde estava escrito a sua nacionalidade e um pedido de ajuda.
Não, a garota não se interessou por ele, não o achou bonito, nem charmoso, ele passou a ser percebido por Gabriela, a moça do carro, simplesmente porque coincidia do sinal fechar e ela ter de parar justo onde ele fazia “ o seu trabalho.”
Como em um flashback, ela o imaginava em tempos atrás, em sua terra natal, conversando com seus colegas, fumando um cigarro, falando do governo, questionando o presente, talvez o futuro.
O sinal abria e Gabriela seguia seu caminho e o esquecia.
Mas no dia seguinte, ao ir para faculdade, novamente ela passava por lá e enquanto aguardava o sinaleiro abrir, dava asas à sua imaginação.
Pensava como e porque o rapaz abandonou a sua vida e veio ser um pedinte numa rua de outro país? O que o levou a isso? Que desgraças fez o jovem juntar suas coisas e vir para tão longe da sua terra de origem? O lugar onde nascemos e vivemos é algo tão nosso, ela pensa.
Tudo é familiar…os bosques, os rios, as planícies, as rochas. É o trajeto para a cidade onde mora a avó, a tia. É o amanhecer e o escurecer. É o cheiro do mato molhado pela chuva. São os barulhos dos bichos na mata, o trânsito, são os amigos, são tantas coisas…
Teria vindo só? Ou viera com um grupo, talvez? Teria sido iludido, com promessas de trabalho? Fora enganado? Como ele viera parar ali, naquela esquina?
Em uma cidade onde não havia praias, nem indústrias, nem empregos, que sequer era uma grande metrópole… Gabriela como estudante de Administração fazia suas análises.
O semáforo abria, ela seguia seu trajeto e pelo resto do dia o esquecia. Mas na manhã seguinte, lá estava ele, com sua roupa surrada, seu cartaz nas mãos, passando por entre os carros, catando as moedas dadas ou até jogadas no asfalto. Ao fechar o semáforo ele voltava para o canteiro. E Gabriela penalizada continuava com seu pensamento: o país é mais do que só uma palavra…
Passaram-se os meses, Gabriela notou que ele já não vinha só. Trazia consigo uma garota grávida. Jovem como ele, a barriga já bem aparente; ela se acomodava no canteiro, à sombra de uma arvorezinha e ficava olhando a vida acontecer, tanto para os transeuntes, como para os motoristas, naquele vai e vem diário.
Ali, no meio da grande avenida, com uma garrafinha de água nas mãos e esperando. Tantas coisas ela esperava! Era o bebê que estava em sua barriga de uns seis meses de gravidez, era um emprego para o marido, era talvez juntar dinheiro para voltarem para casa. Gabriela ficava penalizada pela garota. Tão jovem e tão carente de tantas coisas!
Abriu o semáforo e no instante em que Gabriela olhou pelo retrovisor, naquele lapso de segundo, o jovem e a garota se olharam e sorriram um para o outro. E ali no meio da grama alta do lugar foi como se acendesse uma luz, emanada dos olhos e sorrisos do casal.
Nesse momento, Gabriela compreendeu o sentido de tudo e foi tomada por uma sensação de paz.
E também sorrindo seguiu seu caminho pensando: que país, que nada!
Maria Elza
