1- Descoberta/Acaso
Meu neto Júnior de sete anos disse uma vez: como Vovó é bobinha! Eu não me importei porque ele fez uma constatação carinhosa, por eu não entender um joguinho que eles estavam jogando. Hoje descubro que na verdade estava “bobinha” em muitas outras coisas. Quando decidi escrever um blog sobre aposentadoria e terceira idade foi uma forma de me auto-analisar, porque colocar os carácteres num papel ( antigamente) e hoje digitar, deixando fluir o que me vem à mente para depois ler e me descobrir ali naquelas palavras, me decifra, me acalma ou me corrige. Então, a primeira beneficiada sou eu mesma com a minha atividade, por achar que eu não estava confortável com a questão da terceira idade e ou aposentadoria.
Comecei a escrever sobre o tema desde 2010 e este ano de 2017 em que eu realmente me aposentei estou deveras “produtora de Conteúdos “, como diz o meu jovem “personal”. Mas a grande descoberta que estou fazendo agora é o quanto as pessoas escrevem ou escreveram sobre o mesmo assunto. Isso me deu um alívio: Sou normal!
Estou descobrindo que a internet está cheia de blogs interessantes sobre amor na terceira idade, cuidados com a saúde, reflexões, bem envelhecer, auto ajuda e tenho encontrado muitas pessoas bacanas que me fazem sorrir feliz por também fazer parte desse universo. O universo de pessoas que quer e busca o envelhecimento saudável e mais leve! Fiquei tranquila em constatar que não estou sozinha em minhas inquietações, e que nem de longe isso quer dizer que sou bobinha !
2- Fragmentos

…de dor, de amor, de desamor, de emoção, de vida, enfim. Assim foi meu final de semana que teve a dor da partida da esposa de um amigo, a emoção juvenil dos noivos que disseram sim e que contagiou os jovens corações dos meus netos e mesmo que eu custasse a admitir o meu calejado coração também…O desamor ou desinteresse que pode ter outros nomes, como depressao, por exemplo…a certeza de que meu melhor papel na vida é ser mãe e avó, tudo isso me faz pensar na vida e dizer: É bonita, é bonita e é bonita! Viver é não ter a vergonha de ser feliz!
3- Preciso de heroínas…

3.1 Fuga
Por longos anos eu me refugiei nos livros, eu viajei, eu amei, eu sofri e fui feliz através dos livros que lia. Conheci a Rússia, senti o frio do inverno russo, fui para a China antiga, a China camponesa, depois a China que se rendeu ao capitalismo. Conheci Paris, quadra a quadra, seus cafés, suas estações de metrô, sua juventude fervilhante, na Paris pós guerra, conheci o interior da Inglaterra, à época das caçadas a raposas…
Enfim, entrei no mundo dos livros, sentei-me à mesa com meus “amigos”, vi paisagens, conheci costumes, mas o que realmente eu absorvia era a essência daqueles seres ali retratados.
Não o lugar comum, não o trivial, o que me atraía eram as sutilezas, os detalhes, as pequenas ações que revelavam ora o grande amor, ora a grande mágoa, ora a maldade oculta, ou o complexo de inferioridade. Posso dizer que eu era uma cientista a procura da grande descoberta que eu achava que não havia na minha vida.
Que boba que eu era! Ou será, que devo dizer: que boba que ainda sou?
Ao ler um romance eu me aposso das minhas heroínas. Passo a entendê-las, sofro por elas, as condeno quando acho que estão errando e as aplaudo quando gosto das suas ações. Às vezes, as minhas heroínas não são as estrelas das narrativas. Acontece de ser até um personagem secundário, mas que me chama a atenção. Quando jovem, eu não compreendia as heroínas mais velhas, umas descritas de forma nua e crua, com suas falhas humanas, como a personagem que ao perder a beleza e os prazeres da carne passa a comer e se tornar obesa ” Em Shangri-la, o Horizonte Perdido”, ou a governanta cruel do livro Primo Basílio. Essas estavam longe do meu imaginário. Ainda bem! Lembro-me de Eva, com suas quatro faces, um livro instigante, onde a personagem tinha quatro personalidades distintas e a Eva esfuziante ora tomava o lugar e invadia a vida pacata de Eva trazendo consequências desastrosas para a personagem. Sofri e torci por um final feliz para ela. Mas duas foram as heroínas que me marcaram de maneira muito generosa: Maria, em sua fé e entrega ao responder ao anjo: Faça-se em mim segundo a Sua Vontade! E a personagem do livro A exilada de Pearl Buck, uma heroína que norteou toda a minha trajetória de vida, no sentido de me dar coragem e determinação para enfrentar as dificuldades da minha recém iniciada vida de adulta e mãe, à época. Nesta idade em que me encontro estou sem heroínas. Tenho ou busco minhas inspirações em pessoas reais, contemporâneas. Interessante isso, porque significa que EU estou vivendo e construindo minha identidade da terceira idade! Uau! Que responsabilidade!
4- Viajar

Viajar é dar férias para o consciente. Acordar em outra cama, outra cidade, olhar pela janela de outro quarto, curtir o descompromisso. Os transeuntes estranhos, as crianças em uniformes que vc não conhece, a pressa dos outros.
Nossa! Isso é muito bom! Viajem! Viajem logo, antes que a sua bagagem fique muito pesada. Antes que vc tenha que levar nas malas suas limitações físicas, as suas dores, os seus remédios. Ou antes que aumente o número dos que ficaram, para que vc não tenha que levar em seus pensamentos todos aqueles que não podem ir, porque aí você já pode ficar com peninha e poderá não sentir mais a leveza e o descanso que se dá a alma ao viajar.
Eu fiz minha primeira viagem aos 13/14 anos. Vim de Jardim a Campo Grande. Que espetáculo de cidade! Os letreiros de neon, (Posto Esso) Calogeras com Cândido Mariano, os carros, as vitrines, os cinemas, um mundo desconhecido que me deslumbrou.
Depois só viajei novamente aos 28 anos. Fui ao Rio de Janeiro! Nessa ocasião, embora fosse a primeira vez que vi o mar, e claro, experimentei para conferir se era mesmo salgado, eu olhei para um mundo que eu já conhecia pela televisão, e mesmo assim foi surpreendente.
Comer, beber, rir, andar, comprar lembrancinhas…tudo é festa, em uma viagem
Maceió, Porto Seguro, Salvador, Brasilia, Bauru, Vitória, Ubatuba, Foz do Iguaçu, Miami, Paris, Londres, Lisboa, Las Vegas, Assunção, Chile…Encantei- me com cada lugar que conheci, absorvi a atmosfera, me descompromissei e fiz jus ao meu lema: Adoro viajar, e amo voltar para casa! Viajem! Viajar renova a alma
5- Insônia

Insônia… Se a insônia soubesse como eu gosto de viver em outros mundos, outras dimensões, outras realidades, não me tirava o sono!
Se a insônia ouvisse o zumbido constante que ouço, me deixava descansar dele…
Se a insônia soubesse quantas casas decorei, quantos diálogos travei, quanta vida relembrei, ela me deixaria dormir.
Insônia…
6 – O que temos para hoje?

Ah, o que temos é o que queremos, o que decidirmos ter! Tão bom isso, não é? Primeiramente vem a constatação: estou com preguiça…depois vem a conscientização: não devo deixar a preguiça me dominar… vou sair da cama, tomar um banho e enfrentar meu dia. Calma, não sou obrigada a nada, mas tenho um dever para comigo mesma: vou a Fisio, 20 minutos de bicicleta, outro tanto de subir e descer degraus, esteira, bíceps, agachamento, panturrilha, tudo isso em meio a troca de ideias, brincadeiras, nos animando uns aos outros, pois somos uma turma de “idosos” que cuida do corpo e consequentemente da Saúde. Dai para diante as horas fluem, o que tiver que ser pra hoje foi definido ao decidirmos que sim, o que temos pra hoje é que já não temos mais tempo a perder com lamúrias ou indecisões. Isso é o que temos e, eu espero que por muitos hojes!

6.1 Um dia de sol amanheceu

Eu valente:
Pela fresta da porta do meu quarto vejo que já amanheceu…que bom, tenho mais um dia para viver! Abro a porta e sinto a brisa, meu pendente se balança com um suave tilintar, os pássaros voam alvoroçados, acho até que tem um ninho na cumieira da garagem. Um lindo dia de sol me convida a ser feliz!
Eu Mais valente!
Já vivi isso? Não… não que eu me lembre…Então esse sentimento de esmorecer, desanimar, está aqui porquê? Ânimo ! Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima ! Assim diz a menina que mora neste corpo já entrando na velhice e que tende a se dobrar. Só tende, pois que se realmente se dobrasse não ficaria assim como está… Com essa sensação de dèjavü…Mas como disse alguém: vai passar! Ahhh, vai sim! Sou resiliente e amanhã é outro dia! Tão lindo como este amanhecer que divido aqui com vocês…
6.2 Conversar ou “Zapear”
Interessante como as redes virtuais não nos deixam cair na rotina. A comunicação é instantânea, os assuntos são variados, as opiniões são dadas sem nenhum constrangimento. No entanto , o colóquio, a conversa, o olhar nos olhos, o cuidado ao falar, vai ficando mais escasso.
É muito estranho isso. Nos comunicamos veementemente pelo waths, mas não temos o que conversar se estivermos presencialmente, pois a impessoalidade e a indiferença domina o cenário atual . Qual será o futuro? Como a humanidade vai se comportar após essa era? Não ouso imaginar, nem devia me preocupar com isso, mas se eu não escrevesse sobre o que observo, eu não seria eu!

Se a moça acordasse

Ela pegaria abacates e faria uma massagem em seus cabelos pretos e longos…
Ela lavaria o rosto com a água com que se lavou o arroz…
Ela ia esfolar a pele com açúcar e óleo de cozinha…
Receitas caseiras de uma moça pobre e muito vaidosa.
Ainda bem que agora ela dorme… Assim não vê seus cabelos curtos, espetados e grisalhos…
Nem as olheiras que escondem os seus lindos olhos verdes…
E nem a pele enrugada e manchada pela idade…
Dela sobrou a lembrança… a moça dorme.
Ainda bem que ela dormiu…
